Sociedade | 27-07-2026 10:00

As feridas invisíveis da violência psicológica que continua depois da condenação

As feridas invisíveis da violência psicológica que continua depois da condenação
Ameaçada com um machado à frente dos filhos e perseguida depois da condenação - foto O MIRANTE

Durante anos foi insultada, controlada, isolada, perseguida e ameaçada de morte à frente dos filhos menores. O agressor foi condenado a pena suspensa e as ameaças e perseguição voltaram depois disso. O MIRANTE foi a Almeirim para recolher o testemunho de coragem de uma mulher que quis expor as marcas profundas da violência psicológica, tantas vezes desvalorizada, e que mostra que os mecanismos de protecção a vítimas de violência doméstica ainda falham.

A justiça condenou o homem que durante anos a insultou, controlou, isolou e ameaçou de morte. Segundo Mariana, nome fictício, a justiça impôs-lhe uma pena suspensa e proibiu-o de contactar ou aproximar-se da vítima. Mas as medidas foram desrespeitadas. O ex-companheiro voltou a enviar mensagens, tentou arrombar-lhe o portão e continua a viver perto da casa onde ela mora com os dois filhos. Aos 39 anos, Mariana ainda não se sente verdadeiramente livre. “Há dias em que tenho medo que ele faça alguma coisa a sério”, confessa.
Durante muito tempo ninguém desconfiou. Em frente à família e amigos parecia atencioso e cuidadoso. Quando se conheceram na Suíça, onde Mariana fazia campanhas agrícolas, sentia-se tratada “como uma princesa a viver um conto de fadas”. Viveram três anos felizes, sem sinais de que atrás daqueles gestos cordiais e de “cavalheiro” estava, afinal, um agressor. A mudança deu-se na gravidez do primeiro filho. Vieram os ciúmes, as acusações de infidelidade, o controlo das redes sociais e as ameaças.
A gestação do primeiro filho, um período que devia ser calmo e de fortalecimento da relação a dois, transformou-se num tempo de medo, com noites passadas a chorar e a dormir no chão. “Chegou a dizer-me que talvez o filho não fosse dele”. E, embora não lhe batesse, destruía-a com palavras, suspeitas e humilhações. “Chamava-me de tudo, gritava e humilhava-me”, conta a O MIRANTE a almeirinense de 39 anos.

Violência que não deixa marcas visíveis
A violência psicológica instalou-se antes das ameaças com arma branca e ficou dentro de portas durante anos. Mariana deixou de poder trabalhar, de sair com amigas ou de beber um café sem dar explicações. Perdeu amizades, afastou-se da família e passou a depender financeiramente do homem com quem vivia. Até a roupa que comprava tinha de ser escondida. “Queria ser eu e não conseguia”, resume. Os insultos tornaram-se rotina, até acreditar que não valia nada. Teve uma depressão e ataques de ansiedade. “Era uma pessoa cheia de vida. Ele destruiu a pessoa que eu era”.
Esta é uma forma de violência que não deixa marcas visíveis, mas pode aprisionar durante anos. Uma forma de agressão que Mariana sente que continua a ser desvalorizada pela sociedade e pelas instituições. Os dados mais recentes da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) mostram a dimensão do problema: entre 2022 e 2025, a associação apoiou 50.495 mulheres, incluindo 14.006 só em 2025, e registou 97.149 crimes e outras formas de violência. A violência doméstica representou 81,1% das situações acompanhadas e mais de metade das mulheres sofreu vitimação continuada.
A escalada da violência chegou em 2024. Numa discussão na cozinha, o companheiro tentou estrangulá-la à frente dos filhos. Mais tarde, alcoolizado, entrou no quarto onde Mariana estava com as crianças empunhando um machado e ameaçou matá-la. A GNR foi chamada e, apesar de o agressor se mostrar às autoridades com o machado que tinha usado, foi Mariana quem teve de abandonar a casa nessa noite com os filhos e procurar abrigo. “Perguntaram-me se tinha onde ficar. Graças a Deus tinha”, recorda, criticando que o agressor tenha permanecido na habitação, pertencente à família de Mariana. Nos dias seguintes perseguiu-a, aproximou-se da escola do filho, filmou-a e ameaçou-a. Acabou por perder o trabalho devido às ameaças que recebia.

A condenação não acabou com o medo
Em Dezembro de 2025, o ex-companheiro foi condenado a dois anos e três meses de prisão, com pena suspensa, ficando sujeito, segundo Mariana, à proibição de contacto e aproximação, e a pagar-lhe uma indemnização de mil euros. Estará ainda a receber acompanhamento psicológico e a frequentar programas de prevenção e combate à violência doméstica.
A sentença, confessa, não lhe trouxe a paz que esperava. Já este ano, relata, o ex-companheiro voltou a enviar-lhe mensagens e tentou arrombar o portão da casa onde ela estava com os filhos. Mariana accionou o botão de pânico e chamou a GNR, tendo apresentado nova queixa. O agressor foi novamente ouvido em tribunal e continua em liberdade. “Não compreendo como é que sai do tribunal com uma condenação e se anda aí a incumprir como se nada tivesse acontecido”, diz.
O medo não terminou com a condenação; apenas mudou de forma. Mariana continua atenta ao som de um carro, a uma mensagem inesperada ou a uma presença junto da escola. Acompanhada psicologicamente e por uma estrutura de apoio à vítima, recupera autonomia, mas ainda não consegue confiar noutra pessoa. “Nunca mais consegui gostar de ninguém. Penso sempre que alguém pode ser bom agora e mudar depois”. Apesar disso, realça, recuperou a auto-estima, voltou a gostar de se arranjar e a investir na sua formação. “Voltei a ter o brilho que tinha perdido”, diz.

Falar para que outras consigam sair
Mariana conta a sua história para chegar a mulheres que continuam em silêncio, dependentes dos agressores e convencidas de que não conseguirão sobreviver sozinhas. Sabe que muitas vítimas demoram anos a procurar ajuda. Entre as mulheres apoiadas pela APAV entre 2022 e 2025, 54,7% apresentaram queixa ou denúncia às autoridades, enquanto 33,9% não o fizeram. “Não tenham medo de pedir ajuda”, apela. Há respostas de emergência e apoio psicológico, jurídico e social, lembra, sublinhando que conseguiu sair da violência, mas o caminho ainda não terminou.
Enquanto o agressor continuar perto e as medidas puderem ser transgredidas sem que daí resulte uma sanção mais severa, diz, a sua liberdade, assim como a de tantas outras vítimas, será sempre incompleta. “Há muitas histórias assim até ao dia em que acontece alguma coisa de maior”, avisa. É esse dia que continua a temer.

Filhos da violência

Os filhos, de três e cinco anos, assistiram a gritos, insultos e ameaças. O mais velho escondia-se debaixo da mesa ou atrás dos móveis quando o pai levantava a voz. Uma criança que, lamenta, acabou por repetir esses comportamentos agressivos que via com regularidade e que está a ser acompanhado e, ainda, a aguardar apoio hospitalar especializado. “As pessoas pensam que as crianças não se apercebem, mas entendem tudo”, afirma a vítima. A culpa ainda a acompanha. Há dias em que se culpabiliza por não ter saído mais cedo. Mas sair não era apenas abrir uma porta. Era romper uma “dependência emocional e financeira”, enfrentar ameaças de que perderia os filhos e aceitar que a pessoa que um dia amou poderia matá-la.

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