Sociedade | 27-07-2026 17:00

Mação na linha da frente de descoberta mundial de ADN humano em paredes de grutas

Mação na linha da frente de descoberta mundial de ADN humano em paredes de grutas

Investigadores do Instituto Terra e Memória, em Mação, participaram numa descoberta científica pioneira à escala mundial: a recuperação de ADN humano antigo directamente das paredes da Gruta do Escoural.

Investigadores do Instituto Terra e Memória, sediado em Mação, integraram a equipa internacional que conseguiu recuperar, pela primeira vez, ADN humano antigo directamente de paredes de grutas. A descoberta abre uma nova frente na arqueologia e coloca Mação no mapa da investigação científica internacional. O trabalho teve como principal palco a Gruta do Escoural, em Montemor-o-Novo, o único sítio conhecido em Portugal com arte paleolítica em contexto cavernícola. A investigação demonstrou que vestígios genéticos humanos podem permanecer preservados durante milhares de anos em superfícies rochosas, mesmo sem ossos, sedimentos ou artefactos.
O estudo, publicado na revista Nature Communications, analisou amostras de 24 painéis de arte rupestre de 11 grutas de Portugal e Espanha. No Escoural foram detectados vestígios de ADN humano antigo numa crosta de calcite pigmentada e também em zonas sem pigmento. Em duas amostras não foi encontrado ADN de animais, levando os investigadores a admitir que o material genético terá sido depositado directamente por seres humanos, através do toque, da transpiração, da saliva ou de outros fluidos corporais. A descoberta não permite ainda afirmar que o ADN pertenceu aos autores das pinturas, nem determinar com exactidão quando foi deixado na parede. Os cientistas consideram, no entanto, que as paredes das grutas podem funcionar como arquivos biológicos e guardar sinais da presença humana muito depois do desaparecimento das comunidades que as frequentaram.
A equipa portuguesa contou com Sara Garcês, Luiz Oosterbeek, Hugo Gomes, Pierluigi Rosina e Virginia Lattao, investigadores ligados ao ITM. O trabalho foi desenvolvido no âmbito do projecto First-Art, coordenado por Hipólito Collado, também investigador do instituto e do Centro de Geociências, em colaboração com o Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha. Para Sara Garcês, a descoberta permite passar da “arqueologia dos objectos” para uma “arqueologia dos gestos”, mostrando que a Gruta do Escoural não era apenas um espaço de contemplação. As comunidades pré-históricas tocaram, pintaram e interagiram fisicamente com aquelas paredes, deixando na pedra não apenas imagens, mas marcas da sua própria biologia.

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