Mação na linha da frente de descoberta mundial de ADN humano em paredes de grutas
Investigadores do Instituto Terra e Memória, em Mação, participaram numa descoberta científica pioneira à escala mundial: a recuperação de ADN humano antigo directamente das paredes da Gruta do Escoural.
Investigadores do Instituto Terra e Memória, sediado em Mação, integraram a equipa internacional que conseguiu recuperar, pela primeira vez, ADN humano antigo directamente de paredes de grutas. A descoberta abre uma nova frente na arqueologia e coloca Mação no mapa da investigação científica internacional. O trabalho teve como principal palco a Gruta do Escoural, em Montemor-o-Novo, o único sítio conhecido em Portugal com arte paleolítica em contexto cavernícola. A investigação demonstrou que vestígios genéticos humanos podem permanecer preservados durante milhares de anos em superfícies rochosas, mesmo sem ossos, sedimentos ou artefactos.
O estudo, publicado na revista Nature Communications, analisou amostras de 24 painéis de arte rupestre de 11 grutas de Portugal e Espanha. No Escoural foram detectados vestígios de ADN humano antigo numa crosta de calcite pigmentada e também em zonas sem pigmento. Em duas amostras não foi encontrado ADN de animais, levando os investigadores a admitir que o material genético terá sido depositado directamente por seres humanos, através do toque, da transpiração, da saliva ou de outros fluidos corporais. A descoberta não permite ainda afirmar que o ADN pertenceu aos autores das pinturas, nem determinar com exactidão quando foi deixado na parede. Os cientistas consideram, no entanto, que as paredes das grutas podem funcionar como arquivos biológicos e guardar sinais da presença humana muito depois do desaparecimento das comunidades que as frequentaram.
A equipa portuguesa contou com Sara Garcês, Luiz Oosterbeek, Hugo Gomes, Pierluigi Rosina e Virginia Lattao, investigadores ligados ao ITM. O trabalho foi desenvolvido no âmbito do projecto First-Art, coordenado por Hipólito Collado, também investigador do instituto e do Centro de Geociências, em colaboração com o Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha. Para Sara Garcês, a descoberta permite passar da “arqueologia dos objectos” para uma “arqueologia dos gestos”, mostrando que a Gruta do Escoural não era apenas um espaço de contemplação. As comunidades pré-históricas tocaram, pintaram e interagiram fisicamente com aquelas paredes, deixando na pedra não apenas imagens, mas marcas da sua própria biologia.


