Sociedade | 02-08-2026 12:00

Vigilantes da Natureza: os guardiões silenciosos de um património ameaçado

Vigilantes da Natureza: os guardiões silenciosos de um património ameaçado
Catarina Gregório, Guilherme Pereira e António Frazão, vigilantes da natureza. - foto O MIRANTE

Percorrem serras, rios, florestas e zonas húmidas, vigiam espécies protegidas, apoiam investigações científicas e respondem a denúncias ambientais. No Dia Mundial da Conservação da Natureza, assinalado a 28 de Julho, e nas vésperas do Dia Mundial dos Vigilantes da Natureza, celebrado a 31, O MIRANTE acompanhou profissionais que estão na primeira linha da defesa da biodiversidade, mas continuam desconhecidos de grande parte da população.

Durante a manhã de 23 de Julho, na Reserva Natural Local do Paul de Tornada, Guilherme Pereira e Catarina Gregório participaram numa acção de anilhagem científica de aves. A tarefa é apenas uma das muitas que preenchem os dias de uma profissão feita sobretudo no terreno, longe dos gabinetes e muitas vezes fora do olhar público. Enquanto a conservação da natureza é frequentemente associada a biólogos e investigadores, são os vigilantes que asseguram a presença diária nas áreas protegidas. Patrulham o território, monitorizam fauna e flora, acompanham trabalhos científicos, controlam espécies invasoras, fiscalizam infracções ambientais, apoiam operações de socorro e esclarecem visitantes. Também respondem a denúncias de descargas ilegais, construções em zonas condicionadas e animais feridos.
Foi essa dimensão prática que levou Guilherme Pereira, um dos mais jovens profissionais da carreira, a trocar a investigação científica pelo trabalho de vigilante. “Percebi que gostava da biologia, mas faltava-me a parte prática e o contacto com as pessoas. Nesta profissão conseguimos sentir diariamente que o nosso trabalho faz a diferença”, explica a O MIRANTE. “Com pequenas acções conseguimos proteger espécies, esclarecer visitantes e resolver problemas concretos”, acrescenta. Ao contrário da ideia de que existem apenas para fiscalizar, grande parte da actividade passa pela prevenção, sensibilização e educação ambiental. Nas escolas, promovem acções que aproximam os mais novos da natureza. Junto de visitantes e populações locais, explicam as regras e as razões que justificam determinadas restrições. “O nosso objectivo não é andar à procura de multas. O importante é explicar por que existem regras e mostrar que a conservação da natureza também beneficia as pessoas”, defendem.

Poucos profissionais para vigiar o país
António Frazão, natural de Chãos, freguesia de Alcobertas, no concelho de Rio Maior, é vigilante da natureza desde 1988 e um dos mais experientes do país. Chegou à profissão vindo da indústria metalúrgica, sem formação universitária na área, e aprendeu no terreno, com técnicos, investigadores e habitantes. “Aprendemos muito com as pessoas. Estamos atentos e gostamos do que fazemos”, resume. Mas o futuro da carreira levanta preocupações. Guilherme Pereira estima que existam actualmente entre 200 e 300 vigilantes da natureza em todo o país, quando seriam necessários perto de mil para assegurar uma cobertura adequada das áreas protegidas. A falta de efectivos torna-se mais grave porque muitos dos profissionais mais antigos estão próximos da reforma. “Pode não haver tempo suficiente para passar todo esse conhecimento”, alerta.
O desconhecimento da profissão também dificulta a renovação. Muitos jovens não sabem que esta carreira existe. Os concursos destinam-se a candidatos entre os 18 e os 30 anos, com nacionalidade portuguesa, 12.º ano e carta de condução. O trabalho exige disponibilidade para ficar longe da residência e cumprir horários que podem incluir noites, fins-de-semana e situações de emergência. Apesar da escassez de meios e da pouca visibilidade, os vigilantes mantêm-se no terreno. Detectam descargas, acompanham espécies ameaçadas e explicam aos visitantes por que determinados caminhos estão interditos. “Estamos disponíveis todos os dias para ajudar. Muitas vezes as pessoas nem imaginam que existe alguém de serviço ao fim-de-semana ou durante a noite”, sublinham. Silenciosos e quase sempre longe dos holofotes, os vigilantes da natureza defendem a água, a floresta, a paisagem e, sobretudo, a memória colectiva.

- foto O MIRANTE

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