Sociedade | 07-08-2026 18:00

NERSANT com problemas estruturais e dependência da venda de património

NERSANT com problemas estruturais e dependência da venda de património
Rui Serrano, presidente da Nersant - Foto NERSANT

A NERSANT fechou 2025 com um resultado superior a um milhão de euros, mas os números esbatem-se perante as reservas do auditor, a dependência da venda de património, a reduzida liquidez imediata e várias fragilidades de controlo. As contas expõem ainda riscos que impedem uma leitura “triunfalista” do exercício da associação empresarial.

A NERSANT encerrou 2025 com um resultado líquido superior a um milhão de euros, reduziu dívida e manteve actividade relevante na formação, comunicação e internacionalização. Uma leitura do Relatório e Contas mostra, no entanto, que o desempenho positivo não traduz uma situação sólida. A opinião com reservas do Revisor Oficial de Contas, a dependência de receitas extraordinárias e a baixa liquidez imediata demonstram que o quadro está muito longe de ser aquele que é pintado pela direcção da associação.
O ponto mais sensível surge na Certificação Legal das Contas. Apesar do parecer favorável do Conselho Fiscal, o auditor não validou, sem reservas, as demonstrações financeiras. É admitida a possibilidade de os fundos patrimoniais estarem sobreavaliados, por não existirem avaliações actualizadas dos imóveis ainda na posse da associação. O auditor assinala ainda cerca de 220 mil euros registados em “outros devedores”, sem movimento há vários anos e com reduzida probabilidade de recuperação, e aproximadamente 90 mil euros de saldos de clientes parados desde 2023, para os quais deveria ter sido reconhecida imparidade. São cerca de 310 mil euros, quase 30% do resultado líquido declarado, a que acresce a incerteza associada aos imóveis.
Também o resultado de 1,052 milhões de euros deve ser lido com cautelas. Em 2025, a NERSANT vendeu dois imóveis por 1,905 milhões de euros e registou mais de um milhão de euros em ganhos de investimentos não financeiros. Os “outros rendimentos” subiram de 173 mil euros para 1,285 milhões, cerca de metade dos rendimentos do exercício. O próprio relatório reconhece que o EBITDA e o cash-flow foram fortemente influenciados pela venda de património. A actividade operacional gerou um fluxo negativo de cerca de 14,7 mil euros. O reforço das disponibilidades resultou sobretudo da alienação de activos e não do funcionamento corrente. O resultado é positivo, mas não sustentável.
A liquidez é outra área que deveria preocupar a actual direcção liderada por Rui Serrano. A liquidez geral subiu para 115,92%, mas a imediata ficou em apenas 3,34%. No final do ano, a associação tinha 3,6 milhões de euros em créditos a receber, 110 mil euros em caixa e depósitos, e 3,297 milhões de euros de passivo corrente. Destes créditos, 2,25 milhões de euros estavam ligados a projectos financiados, deixando a tesouraria exposta a atrasos. Os gastos cresceram 33,79%, para 1,476 milhões de euros, e os fornecimentos e serviços externos aumentaram 57,6%. Os trabalhos especializados passaram de 89 mil para 288 mil euros e as rendas e alugueres de 7,6 mil para 54,4 mil euros. O relatório não explica suficientemente que decisões justificaram estas subidas, nem qual o retorno obtido.

NERVENTURE: que explicações?
A situação da NERVENTURE também exige resposta. A participada não teve actividade operacional directa em 2025, perdeu metade do capital social e enquadra-se no artigo 35.º do Código das Sociedades Comerciais. Apesar disso, não é apresentado um plano de recapitalização, reestruturação ou encerramento. Na relação com os associados, a leitura é menos favorável do que o destaque dado às 81 novas adesões. A massa associativa passou apenas de 3.207 para 3.208 membros, o que indica, por inferência, cerca de 80 saídas ou eliminações. O relatório não explica as causas, a taxa de retenção ou a utilização efectiva dos serviços. A credibilidade do documento é ainda afectada por falhas de revisão. O resultado líquido surge com valores diferentes em páginas distintas; o valor acrescentado bruto é descrito como tendo diminuído apesar dos números mostrarem subida; e a solvabilidade é apresentada como tendo aumentado quando o rácio baixou. Há ainda percentagens com sinais invertidos, erros em séries históricas e uma nota editorial interna demasiado optimisma. A associação afirma ter também muita actividade, mas, a verdade é que tem pouco impacto, e não cruza de forma sistemática custos, metas e resultados. Várias páginas de projectos estão inactivas e a Bolsa de Emprego divulgou 49 vagas, mas registou apenas 11 candidatos.

À margem/opinião

Rui Serrano e a oportunidade perdida de mudar

Rui Serrano podia ter sido uma lufada de ar fresco na dinâmica da NERSANT. Chegou à liderança com a oportunidade de romper com uma cultura de comunicação arrogante e pouco disponível para reconhecer fragilidades. Sobretudo, os seus antigos líderes, Domingos Chambel e António Pedroso Leal, eram avessos ao escrutínio. Rui Serrano, que parece ter uma postura menos excêntrica, mantém a falsa percepção de que aquela que foi uma associação empresarial de referência no país está de boa saúde. A NERSANT precisa de uma liderança transparente e que enfrente os problemas sem os esconder. Para isso a actual direcção terá de abandonar a “comunicação triunfalista” sem ter razões para isso. Este texto de O MIRANTE é uma leitura realista do Relatório e Contas aprovado na última Assembleia-Geral. Quem o contestar vai ter que contestar também os auditores da associação e a realidade dos números.

Bernardo Salgado Emídio

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