Silenciou‑se a voz do empresário que acreditava que o trabalho muda destinos
Partiu António Vieira Rodrigues, um símbolo do empreendedorismo português. A vida do fundador da Construtora do Lena e do Grupo Lena foi feita de trabalho duro, decisões rápidas e uma fé inabalável na capacidade de criar emprego e futuro.
Homenageado por O MIRANTE em 2010 com o Prémio Carreira Empresarial e comendador da Ordem do Mérito Agrícola, Comercial e Industrial, começou a vida a vender carvão aos 14 anos e construiu um dos maiores grupos empresariais sem nunca perder a humildade.
A morte de António Vieira Rodrigues caiu como um silêncio pesado sobre quem acompanhou a sua vida e sobre quem cresceu à sombra da empresa que fundou. Morreu a 31 de Julho, aos 93 anos, deixando uma história que não cabe apenas nos números, nas obras ou nos negócios. Nascido em Leiria, o fundador do Grupo Lena começou a trabalhar aos 14 anos, fabricando carvão que vendia nas redondezas, ao mesmo tempo que trabalhava para a família na agricultura. Sem renegar a dureza da juventude tornou-se numa das figuras empresariais mais marcantes, criando um grupo com mais de uma centena de empresas e expansão internacional.
“O trabalho é a melhor escola do mundo”, afirmou em 2010, quando O MIRANTE lhe entregou o Prémio Carreira Empresarial, na cerimónia do Galardão Empresa do Ano, onde se emocionou ao recordar o caminho percorrido. Depois do carvão descobriu que podia ganhar dinheiro a produzir essências de alecrim e eucalipto que vendia à indústria farmacêutica. Levava os bidões de 50 litros na bicicleta até Ourém, onde apanhava boleia nos camiões de madeira que iam para Lisboa. Muitas vezes tinha que ir em cima da carga.
Quando fazia viveiros de eucaliptos foi comprando máquinas para nivelar terrenos, que começou a utilizar na construção de estradas trabalhando para empreiteiros. A Construtora do Lena nasceu assim, sucedendo a uma pequena empresa em nome individual. António Vieira Rodrigues nos primeiros tempos fazia de tudo: comprava materiais, conduzia camiões, negociava com fornecedores, acompanhava as equipas no terreno. Não havia horas, não havia descanso, mas havia a ideia de crescer, criar emprego, fazer melhor do que no dia anterior.
Com ele, o Grupo Lena tornou-se num dos maiores grupos empresariais nacionais, com actividade na construção, no imobiliário, energia, concessões e em projectos internacionais. Mas Vieira Rodrigues, que via no empreendedorismo uma missão, continuava a visitar obras, a falar com trabalhadores, a querer saber como estavam as famílias. Quando recebeu o Prémio Carreira Empresarial realçou que o país precisava de gente que arriscasse, que criasse emprego, que não tivesse medo de falhar. “Quem não decide, perde”, repetia. A emoção com que recebeu a distinção dizia mais do que qualquer discurso: mostrava um homem que sabia exactamente de onde vinha e que nunca esqueceu quem o ajudou a chegar onde chegou, um empresário de convicções fortes, que acreditava no mérito, na coragem e na capacidade de transformar o futuro com trabalho.
O comendador António Vieira Rodrigues, agraciado em 2006 pelo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Mérito Agrícola, Comercial e Industrial, ficará na memória como alguém que nunca perdeu a humildade. Dizia que nunca teve dinheiro, mas que sempre que precisava ele aparecia. Depois de entregar o grupo empresarial aos filhos, passava algum tempo no Brasil onde tinha uma exploração agrícola e na quinta da Cortiçada, no concelho de Rio Maior, onde produzia vinho.


