Sociedade | 08-08-2026 21:00

Bordados na Glória do Ribatejo são uma arte e a escola pode ser uma boa solução para o futuro

Bordados na Glória do Ribatejo são uma arte e a escola pode ser uma boa solução para o futuro
Maria Monteiro, Domicilia Nunes e Custódia Maria são algumas das mãos que continuam a manter viva a arte de “marcar” na Glória do Ribatejo - foto O MIRANTE

A propósito do Dia Mundial do Bordado, as bordadeiras da Glória do Ribatejo lembram uma arte que vestiu ‘casas’, crianças, namoros e enxovais, mas que enfrenta hoje o desafio de chegar às gerações mais novas.

Na Glória do Ribatejo não se diz bordar. Diz-se “marcar”. A palavra continua a sair naturalmente da boca de quem cresceu entre linhas, agulhas, panos, talegos e lenços de namorados. No ponto de cruz que ali ganhou identidade própria, a arte de marcar foi, durante décadas, muito mais do que uma ocupação, uma vez que fez parte da vida das mulheres, da casa, do namoro, do enxoval e da própria memória colectiva da terra.
Maria Monteiro, Domicilia Nunes e Custódia Maria são três dessas mulheres que aprenderam cedo. Maria Monteiro, 65 anos, recorda que, quando eram pequenas, as mães lhes davam “uma pontinha de linha e uma agulha” e as sentavam ao pé delas para começarem a fazer os primeiros pontos. “Não andávamos na escola”, lembra, explicando que a aprendizagem começava em casa, pela mão das mães e das mulheres mais velhas.
Também Rita Pote, professora do ensino secundário, natural da Glória do Ribatejo e ligada desde criança ao Rancho Folclórico da Casa do Povo da Glória do Ribatejo, associação de que é hoje presidente, aprendeu a marcar aos seis anos, “na rua, com as vizinhas, com as pessoas mais velhas, em casa com a mãe, com a avó”. Olha para as peças das bordadeiras como “verdadeiramente artísticas” e resultado de uma vida dedicada ao bordado. “Não é qualquer pessoa que comece agora a bordar que faz peças desta natureza”, sublinha.
Mulher que não soubesse ‘arremendar’ não se casava
A designação “marcar” tem explicação. Segundo Rita Pote, o ponto de cruz é também conhecido como ponto de marca, associado a um trabalho de fios contados. “Marca-se a três fios, marca-se a quatro fios, e é por isso que é o ponto de marca”, explica. Na Glória, essa marca entrou em quase tudo. “As mulheres da Glória marcavam tudo. Todas as peças que eram necessárias à sua vida do quotidiano”, afirma.
A casa, diz Rita Pote, “vestia-se, enroupava-se como se fosse uma pessoa”. Cortinas para portas, panos para tapar bilhas de água, peças para malas, mesas, espelhos, bancos e cadeiras recebiam o trabalho das mãos glorianas. As crianças eram vestidas com roupas marcadas e as jovens aplicavam os bordados em casacos, aventais e lenços. Entre os objectos mais simbólicos estavam os lenços de namorados, feitos às dezenas, com letras, iniciais e motivos que transportavam mensagens. “Era uma espécie de Facebook”, compara Rita Pote, numa imagem que ajuda a explicar a função social daqueles panos bordados.
Naquele tempo, o bordado não era apenas gosto ou enfeite. Tinha uma utilidade prática e fazia parte da preparação da vida adulta. Rita Pote lembra que se dizia na Glória que uma mulher que não soubesse ‘arremendar’ não se casava, porque precisava de preparar a roupa da família e da casa. Maria Monteiro fez o seu enxoval e também o da filha. Mesmo hoje, os bebés continuam a receber peças marcadas, das fraldas às colchas, num trabalho que demora tempo e exige paciência.

“Começámos novas e continuamos sempre”
Domicilia Nunes recorda uma aprendizagem feita em grupo, com avós e vizinhas a corrigirem os pontos até ficarem bem. “Começámos novas e continuamos sempre”, conta. Trabalhava no campo e, à noite, depois das tarefas de casa, ainda fazia “sempre um bocadinho de ponto de cruz”. Fê-lo por gosto e por ligação à terra. “É a nossa tradição. Temos orgulho na nossa tradição”, resume.
Custódia Maria, 67 anos, também sempre viveu na Glória e fala dos bordados como quem fala de uma presença antiga e familiar. “Vivemos sempre nisto”, afirma. Entre as peças de que mais gosta estão os talegos, os lenços dos namorados e as carteiras. “Os talegos, porque não é saco, são talegos aqui na Glória”, faz questão de frisar.
Apesar da força da memória, a continuidade da arte preocupa quem trabalha na sua preservação. Para Rita Pote, o futuro dos bordados da Glória do Ribatejo depende sobretudo da capacidade de aproximar as crianças desta prática. “Temos muita pena de que as crianças não estejam a ser inseridas nesta ambiência”, afirma. A responsável defende que a inclusão desta arte no currículo escolar poderia dar-lhe “outro valor” e outra continuidade. “As crianças só não gostam daquilo que não conhecem”, sustenta.
A dificuldade está também no tempo que a técnica exige. Rita Pote reconhece que não vê “com facilidade” as gerações mais jovens dedicarem-se a um trabalho “moroso”, que requer paciência, num tempo marcado pela rapidez e pelo descartável. Ainda há mulheres mais novas, na casa dos 30 ou 40 anos, que bordam e bordam bem, mas antes dessas idades a prática surge apenas de forma esporádica. “A esperança é mesmo a escola”, insiste.
Para Maria Monteiro, marcar continua a ser feito “com vontade” e “com muita satisfação”. Já perdeu a conta às peças que fez. Gostava que os mais novos aprendessem, mas reconhece que “já não têm vida para isso”. Ainda assim, há sinais pequenos de encantamento. A neta olha para os trabalhos da avó e pergunta como consegue fazer “as coisas tão perfeitinhas”.
É nesse espanto que talvez resida parte da continuidade. Entre as mãos calejadas de quem trabalhou no campo e os olhos curiosos de quem ainda não aprendeu, os bordados da Glória do Ribatejo vivem esse momento delicado. Já são património reconhecido, mas precisam de continuar a ser gesto, paciência e linha passada no pano. Porque, como lembram as bordadeiras, aprender a marcar não é apenas aprender uma técnica. É desenvolver criatividade, atenção, concentração e inteligência. É, também, continuar a escrever a história da Glória, ponto por ponto.

Bordados da Glória são usados em peças actuais - foto O MIRANTE

Património imaterial que não quer ficar preso ao passado

A inscrição dos Bordados da Glória do Ribatejo no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial deu maior visibilidade a esta arte, mas, para Rita Pote, o essencial continua a ser o “saber fazer”. O objectivo não é que os bordados fiquem apenas como peças de museu. “Nós não queremos isso. É termos aqui a prova viva. É o saber fazer. Faz uma grande diferença”, diz.
Ao mesmo tempo, a tradição não ficou parada no passado. Os motivos antigos continuam a distinguir os bordados da Glória, mas são usados em peças actuais. As bordadeiras adaptam padrões, conversam entre si, experimentam aplicações novas e transportam símbolos tradicionais para objectos do presente. Aquilo que antes servia a outras necessidades pode hoje aparecer, por exemplo, em capas para proteger telemóveis.

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