Escavações em Muge procuram desvendar encontro entre caçadores e primeiros agricultores
Concheiro do Cabeço da Amoreira volta a ser palco de uma campanha arqueológica que procura perceber como se deu, há milhares de anos, a passagem das comunidades de caçadores-recoletores para as primeiras sociedades agrícolas.
Os concheiros de Muge, no concelho de Salvaterra de Magos, continuam a revelar pistas sobre algumas das maiores transformações da história humana. Uma equipa internacional de arqueólogos está novamente no Concheiro do Cabeço da Amoreira para tentar perceber de que forma as últimas comunidades de caçadores-recoletores se relacionaram com os primeiros agricultores que chegaram ao vale de Muge. A campanha de 2026 é coordenada pela arqueóloga Célia Gonçalves, investigadora do Centro Interdisciplinar de Arqueologia e Evolução do Comportamento Humano, da Universidade do Algarve, e procura aprofundar o conhecimento sobre a passagem do Mesolítico para o Neolítico.
Os dados recolhidos até agora apontam para a existência de contactos entre as duas comunidades e para a assimilação de práticas e comportamentos. Um dos sinais mais relevantes está nos enterramentos encontrados nos concheiros. Além das sepulturas mesolíticas, foram identificados enterramentos do período Neolítico, o que poderá demonstrar que o local continuou a ter importância funerária e simbólica ao longo do tempo. Os concheiros de Muge têm cerca de oito mil anos, estão classificados como Monumento Nacional e são considerados uma referência internacional para o estudo da Pré-História europeia. As investigações desenvolvidas no local desde 2008 permitiram já identificar sinais de uma crescente complexidade social entre as comunidades que ocuparam o vale, nomeadamente na organização dos espaços, exploração dos recursos naturais e práticas funerárias. Na actual campanha, os arqueólogos estão a concluir a escavação de uma área onde já foram atingidas camadas sem vestígios arqueológicos e a estudar o contexto de um esqueleto identificado há dois anos numa zona que tinha sido intervencionada nas décadas de 1930 e 1960.
Todos os artefactos e estruturas são registados tridimensionalmente, permitindo reconstruir virtualmente as diferentes camadas do sítio arqueológico depois da escavação. Desde o início dos trabalhos foram já recolhidas mais de 300 mil peças, posteriormente estudadas por especialistas em fauna, peixes, moluscos e indústria lítica. Parte do espólio pode ser vista no Centro de Interpretação dos Concheiros de Muge e os restantes materiais são estudados no MUGE.lab, instalado na Casa do Povo de Muge, através de um protocolo com a Câmara de Salvaterra de Magos.


