Serra de Santo António passou a viver de portas trancadas por causa de furtos
Numa aldeia onde todos estavam habituados a viver de portas abertas, o medo passou a fazer parte da rotina. Estabelecimentos e habitações são frequentemente alvo de furtos. O suspeito é um jovem conhecido pela população e autoridades. A GNR confirma registo de crimes e moradores querem resposta firme que ponha fim à insegurança e evite um desfecho trágico.
“Tenho 64 anos e nunca na minha vida fechei a porta, de noite ou de dia. Há dois meses que vou trabalhar e deixo a porta trancada à chave”, relata uma moradora da Serra de Santo António, no concelho de Alcanena. O testemunho resume o ambiente de insegurança que se instalou na pacata aldeia, onde os habitantes estavam habituados a dormir de portas destrancadas e janelas abertas. “Agora deixámos de o poder fazer, não nos sentimos seguros nem na nossa própria casa”, sublinha uma das residentes, alvo de furto.
Os primeiros casos começaram há mais de dois anos, de forma subtil. De uma padaria começaram por desaparecer pequenas quantias de dinheiro, sem que inicialmente os proprietários desconfiassem. “Isto até se perceber que esse dinheiro, em moedas, era depois usado para comprar tabaco e bebidas”. O suspeito é um jovem sobejamente conhecido na aldeia, assim como pelas autoridades, que terá sido detido entretanto. “O problema é que é detido e passado uns dias volta ao mesmo”, lamenta outra moradora.
Desde há dois anos que, segundo os testemunhos recolhidos por O MIRANTE, as entradas em habitações se tornaram frequentes. Só uma moradora afirma ter apresentado seis queixas na GNR. Outra residente, com mais de 80 anos, foi alvo de repetidas entradas em casa, com o desaparecimento de dinheiro e bebidas e quantias generosas de dinheiro. “Há quem diga que tem tanto medo dele que assim que lhe entra em casa ela dá-lhe o que tem”, refere um habitante que se junta à conversa.
A preocupação agravou-se quando começaram os danos materiais. Há relatos de vidros partidos, fechaduras danificadas e janelas forçadas. Um dos episódios terá envolvido um martelo utilizado para partir um vidro. Noutros casos, os moradores dizem ter surpreendido o suspeito no interior das habitações ou a fugir. “Já imaginaram o que é estarem em casa, no sofá, à noite, e um indivíduo vos entrar pela casa dentro? É assim que vivemos”, ouve-se de uma moradora. Todos pedem para não serem identificados por medo de represálias por parte do suspeito, de 21 anos.
GNR confirma queixas
Em esclarecimentos a O MIRANTE, fonte oficial do Comando Territorial de Santarém da GNR revela que, na freguesia de Serra de Santo António, foram registados, durante o ano de 2025, seis crimes associados a furtos em residências e edifícios comerciais. Em 2026 foram contabilizados mais três crimes da mesma tipologia. No entanto, “decorrente da Lei de Protecção de Dados”, não é possível, sublinha a Guarda, disponibilizar dados sobre suspeitos em concreto.
Os números oficiais estão, no entanto, muito abaixo das ocorrências relatadas pela população. Os moradores afirmam que muitas das pessoas alvo de furtos ou entradas indevidas não chegaram a apresentar queixa. Por conhecerem o suspeito desde criança, por se tratar de valores reduzidos ou por acreditarem que a denúncia não teria consequências, acabaram por não recorrer às autoridades. Há também quem manifeste algum descrédito em relação ao funcionamento da justiça, alegando que, noutras ocasiões, o jovem foi levado pelas autoridades e regressou à aldeia poucas horas ou dias depois. Essa percepção, sublinham, contribuiu para que vários episódios nunca fossem formalmente participados.
O Grupo Recreativo Unidos da Serra foi também alvo de diversas entradas e desaparecimento de bebidas, confirma um elemento da direcção, sublinhando que, neste caso, o receio é ainda maior porque o espaço recebe actividades com crianças. Numa das últimas invasões, o larápio entrou por uma janela com recurso a um escadote, tendo a fuga sido travada por elementos do grupo que o conseguiu reter até à chegada das autoridades.
Moradores querem segurança mas apelam às entidades que não desistam de um jovem
Neste momento circula na aldeia a informação de que o jovem estará num estabelecimento prisional, alegadamente por ter incumprido medidas de coacção que lhe tinham sido aplicadas. O MIRANTE não conseguiu confirmar oficialmente essa informação, mas sabe que o indivíduo se encontrava com pulseira electrónica e obrigatoriedade de permanência na habitação. Medida que, segundo relatos, não era cumprida.
Apesar dessa alegada detenção, os habitantes mostram-se pouco tranquilos. Acreditam que, dentro de 15 dias ou até menos, o jovem poderá estar novamente na aldeia, como dizem já ter acontecido noutras ocasiões. E, referem, o maior receio é que uma entrada numa habitação termine num confronto. “Uma pessoa idosa pode ficar paralisada pelo medo, mas se for alguém mais novo poderá reagir e desencadear uma situação imprevisível. Ele até pode não fazer mal fisicamente a ninguém, mas só o susto pode provocar uma desgraça”, afirma-se entre o grupo de moradores que se reuniu na aldeia com o nosso jornal.
Os moradores defendem que o jovem necessita de acompanhamento especializado e que a mãe, descrita como uma pessoa estimada e integrada na aldeia, também precisa de apoio. “Não se desiste de um jovem com 21 anos. Há coisas a fazer, têm é de ser bem feitas”, afirma uma residente, vincando que uma condenação não vai ser suficiente para um jovem medicado e com dependência de álcool que precisa de ser reabilitado.


