Sociedade | 10-08-2026 10:00

Sinagoga de Tomar deu voz aos sabores e à memória sefardita

Sinagoga de Tomar deu voz aos sabores e à memória sefardita
Cecília Rosa e Pedro Escaja

História, gastronomia e testemunhos pessoais cruzaram-se na primeira edição de “Sabores da Memória”, uma iniciativa que devolveu vida à Sinagoga de Tomar e chamou a atenção para a importância da herança judaica e sefardita da cidade.

A Sinagoga de Tomar acolheu a primeira edição de “Sabores da Memória”, um encontro dedicado à cultura sefardita e à preservação da memória judaica. Durante dois dias, a história encontrou-se com a gastronomia, a reflexão e os testemunhos de famílias marcadas pela perseguição aos judeus na Europa. Organizada pelo município de Tomar, por Cecília Rosa e Pedro Escaja, com o apoio da AJuP – Associação Judaica Portuguesa e da Comunidade Judaica de Tomar, a iniciativa procurou reconhecer e valorizar a presença judaica na cidade e aproximar a população de uma herança que atravessou vários séculos.
A ideia nasceu de uma conversa entre Cecília Rosa, guia-intérprete da empresa Caminhos da História, e Gustavo Caldeira, vigilante da Sinagoga de Tomar. O objectivo era trazer mais vida ao monumento e criar pequenos encontros capazes de divulgar a cultura judaica junto da comunidade. A apresentação do livro “À Mesa em Sefarad”, de Mónica Pinto, abriu o programa. Seguiu-se uma demonstração gastronómica durante a qual a autora confeccionou algumas das receitas apresentadas na obra. Cerca de 30 pessoas, entre portugueses e estrangeiros residentes em Portugal, participaram na sessão e provaram pratos carregados de história e simbolismo. Para Cecília Rosa, a gastronomia constitui uma das formas mais eficazes de criar ligações entre pessoas de diferentes origens e religiões. “Quem é que não gosta de comer?”, questiona, defendendo que a comida está na base da convivência humana e permite contar histórias de uma forma próxima e acessível.
Na manhã do segundo dia foi celebrado o Shabbat, dia semanal de descanso e oração no judaísmo. O programa prosseguiu com momentos de reflexão sobre a história da Sinagoga de Tomar, conduzidos por Pedro Turner e Ana Turner. Durante a tarde, Pedro Escaja, fundador da Jewish Private Tours, abordou o criptojudaísmo e a preservação da identidade sefardita. Jeanette “Cookie” Fischer protagonizou um dos momentos mais emotivos do encontro ao recordar o legado de Aristides de Sousa Mendes. Os vistos concedidos pelo antigo cônsul português permitiram que a sua família escapasse ao Holocausto. Pedro Escaja destaca ainda a singularidade da comunidade judaica de Tomar no contexto da Península Ibérica. Embora pequena, terá sido uma comunidade activa, constituída por artífices e homens ligados ao conhecimento, cuja presença foi protegida durante o período do InfanteD. Henrique, mestre da Ordem de Cristo. O orador defendeu também a importância de divulgar a identidade sefardita para evitar que a história e a cultura judaicas sejam reduzidas aos acontecimentos políticos contemporâneos. “É importante falar para que as pessoas saibam o que foi a cultura judaica e para que, hoje em dia, não liguem imediatamente os judeus ao Governo de Israel”, afirmou.

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias

    Edição Semanal