Transportes públicos continuam a fechar portas às pessoas com deficiência
A lei garante autonomia, segurança e dignidade, mas viajar de transportes públicos continua a ser um obstáculo para muitas pessoas com deficiência. Elevadores avariados, autocarros inacessíveis e falta de informação empurram passageiros para a dependência, isolamento e, muitas vezes, para a desistência de viajar.
Um relatório da Provedoria de Justiça confirma que viajar de autocarro, comboio ou metro continua a ser uma prova de resistência para quem tem deficiência ou mobilidade reduzida. Na região ribatejana, casos já denunciados por O MIRANTE mostram que o problema não se limita a Lisboa e Porto: elevadores avariados, veículos sem acesso a cadeiras de rodas e respostas sazonais continuam a empurrar cidadãos para o isolamento. A lei garante autonomia, segurança e dignidade, mas a realidade obriga muitos passageiros a planear cada deslocação sem saberem se chegarão ao destino. O relatório, desenvolvido entre 2024 e 2026, conclui que barreiras físicas, falta de informação fiável e escassez de assistência tornam algumas viagens difíceis ou inviáveis. Muitos desistem dos transportes públicos e nem reclamam, escondendo a dimensão do problema.
Na estação ferroviária de Azambuja, avarias sistemáticas dos elevadores deixaram pessoas com mobilidade condicionada sem acesso às plataformas. Uma idosa chegou a ficar presa num equipamento e teve de ser retirada pelos bombeiros, enquanto utilizadores de cadeiras de rodas ou carrinhos de bebé continuavam dependentes da ajuda de terceiros para vencer as escadas. Em Rio Maior, Ricardo Tomás, tetraplégico e utilizador de cadeira de rodas, contou a O MIRANTE que os autocarros que passam na zona onde reside não permitem o seu transporte. Criticou ainda o facto de o serviço a pedido USO funcionar apenas no Verão, quando, para quem não consegue entrar num autocarro convencional, a falta de solução existe todo o ano. A denúncia traduz o que a Provedoria agora confirma: um transporte que existe no horário, mas não pode ser utilizado por todos, não é verdadeiramente público. Também em Abrantes chegou à reunião de câmara o testemunho de uma munícipe com 80% de incapacidade, confrontada com elevadores desligados, pavimentos difíceis e lugares reservados ocupados abusivamente. Obstáculos que, somados, retiram independência e qualidade de vida.
No concelho de Vila Franca de Xira, elevadores sistematicamente avariados nas estações ferroviárias chegam a impedir o acesso às plataformas, como tem acontecido na Póvoa de Santa Iria, deixando utilizadores de cadeira de rodas sem alternativa. Autocarros inacessíveis, falta de informação e equipamentos fora de serviço empurram passageiros para a dependência, o isolamento e, muitas vezes, para a desistência de viajar.


