População de Alcoentre assustada com data center; autarcas exigem esclarecimentos
Presidente da junta quer que câmara promova sessão pública com empresa promotora para esclarecer uma população “assustada” e sem informação. Vice-presidente do município concorda, mas entende que encontro só deve realizar-se quando existirem estudos capazes de dar respostas concretas.
A Junta de Alcoentre e a Câmara de Azambuja estão em sintonia quanto às reservas levantadas à possível instalação de um centro de dados de grandes dimensões naquela freguesia, a poucos metros de habitações. Autarcas dizem não estar contra o investimento, mas recusam dar um cheque em branco enquanto continuarem por esclarecer os impactos sobre a população, a água, o ruído, a paisagem e o território. O presidente da junta, André Silva, levou o assunto à reunião ordinária da Câmara de Azambuja de terça-feira, 4 de Agosto, pedindo ao município que promova uma sessão pública de esclarecimentos com a presença da Neoen, empresa promotora do data center, Azambuja DC. E que caso o município não avance, a junta irá fazê-lo, disse. “Venho em nome de uma população que está assustada, preocupada e que tem falta de informação”, afirmou o autarca eleito pelo movimento independente RIFA. André Silva considera que um centro de dados desta dimensão “não é uma simples infraestrutura” e que os equipamentos, consumos e impactos associados exigem respeito e preocupação. O presidente da Junta recordou que a freguesia já convive com as instalações da CLC, parques fotovoltaicos, linhas de alta e muito alta tensão e que terá ainda nas proximidades a futura linha ferroviária de alta velocidade.
André Silva explicou que a junta foi contactada em Maio, numa fase que considerou, na altura, como “embrionária”, tendo colocado questões sobre os recursos hídricos, o abastecimento eléctrico, o ruído e a proximidade às habitações. E as respostas, disse, foram genéricas e insuficientes. Recentemente, a Junta de Alcoentre divulgou um comunicado no qual o executivo afirma que ainda não existem condições para assumir uma posição favorável ou desfavorável sobre a concretização do empreendimento. A autarquia exige aidna informação “completa, transparente e devidamente fundamentada” antes de qualquer decisão.
Câmara quer estudos
antes da sessão
O vice-presidente da Câmara de Azambuja, António José Matos, que dirigiu a reunião pública do executivo municipal, defendeu que a sessão de esclarecimentos deve aguardar pela apresentação da Avaliação de Impacte Ambiental, do estudo acústico, do estudo paisagístico e de elementos concretos sobre a água, o trânsito, os benefícios económicos e as contrapartidas territoriais. Sem esses documentos, argumentou, correr-se-ia o risco de as dúvidas da população não serem respondidas com o grau de certeza que se pretende. O autarca reconheceu que a câmara dispõe de informação limitada, com documentos que se limitam a descrever o empreendimento de forma geral, mas não permitem conhecer com rigor as medidas de protecção das populações nem as vantagens que ficarão em Alcoentre e no concelho, afirmou, destacando que há pessoas a viver a poucas centenas de metros da área indicada para a implantação. Também não está esclarecido, acrescentou, onde ficará sediada a empresa responsável pela exploração, onde serão pagos os impostos ou qual será a dimensão real do emprego permanente.
Parecer desfavorável para acelerar processo
A Câmara de Azambuja, recorde-se, aprovou um parecer desfavorável ao reconhecimento do Azambuja DC como Projecto de Potencial Interesse Nacional (PIN). A decisão teve os votos favoráveis de dois eleitos do PS, do vereador da CDU e da vereadora do Chega, com a abstenção de um socialista. Os dois vereadores do PSD recusaram participar na votação. A empresa promotora, Neoen, afirmou à Lusa respeitar a posição e salientou que o empreendimento se encontra numa fase preliminar. A empresa garantiu que estão em curso estudos sobre o ruído, água, trânsito, paisagem e biodiversidade e declarou-se disponível para prestar esclarecimentos à autarquia e à população.
Impactos estão associados aos data centers
Os principais impactos de um centro de dados prendem-se com o ruído de ventiladores, transformadores e geradores pode afectar o descanso e a saúde. A Organização Mundial da Saúde associa a exposição excessiva ao ruído a perturbações do sono, hipertensão e maior risco cardiovascular. A elevada quantidade de água necessária para alimentar os sistemas de refrigeração também levanta geralmente reservas, tal como o seu funcionamento permanente, que exige muita electricidade e pode obrigar ao reforço da rede, com novas linhas ou subestações.


