Sociedade | 15-08-2026 12:00

Abrigada rejeita unidade de biometano a 500 metros das casas

Abrigada rejeita unidade de biometano a 500 metros das casas
Moradores de Abrigada não querem unidade de biometano junto às casas - foto O MIRANTE

Moradores de Abrigada deixaram claro que não aceitam a instalação de uma unidade de produção de biometano nas Marés, a cerca de 500 metros das habitações. Numa reunião pública marcada por várias interrupções e que se prolongou durante quase três horas, a população mostrou-se sobretudo preocupada com os maus cheiros e o aumento da circulação de pesados. Os promotores garantem que a tecnologia permite controlar os odores e desafiam moradores e autarcas a visitar centrais semelhantes em França.

A população de Abrigada, concelho de Alenquer, não saiu convencida da reunião pública promovida pela empresa Gás da Terra para apresentar o projecto de uma unidade de produção de biometano nas Marés. Na sessão realizada na noite de quinta-feira, 6 de Agosto, na Sociedade Filarmónica União e Progresso de Abrigada (SFUPA), os moradores interromperam por diversas vezes a apresentação dos promotores e deixaram a mensagem de que não querem a unidade naquele local. A principal contestação prende-se com a proximidade às habitações, que ficam a cerca de 500 metros, numa freguesia onde os residentes dizem já conviver frequentemente com maus cheiros. Entre as preocupações estão os odores associados ao transporte e armazenamento de estrume e chorume, sobretudo nos períodos de maior calor e vento. “Temos um alojamento local. Acham que os nossos hóspedes vão querer levar com o cheiro? Está em causa a qualidade de vida das pessoas”, afirmou um dos participantes.
O director-geral da Gás da Terra, Bernardo Santos, explicou que o projecto das Marés é pioneiro em Portugal, embora a empresa trabalhe em parceria com um grupo europeu responsável pela construção e exploração de mais de 30 centrais semelhantes. Segundo o responsável, existem em França unidades instaladas a menos de 500 metros de habitações sem problemas relevantes de odores. Bernardo Santos chegou a propor a deslocação de representantes da população e dos autarcas a França para visitarem várias instalações e perceberem no terreno como funciona o processo. O projecto representa um investimento de 20,5 milhões de euros e prevê a criação de sete postos de trabalho directos e cerca de 20 indirectos. A futura unidade deverá receber anualmente 84 mil toneladas de resíduos agrícolas e agro-pecuários, entre estrumes, chorumes, restos de culturas e outros subprodutos, que serão transformados em biometano e biofertilizante agrícola. O abastecimento deverá implicar a circulação de cerca de três dezenas de camiões por dia, de segunda a sexta-feira e apenas durante o período diurno.
O projecto, também apresentado por João Moreira e Duarte Simões, da Gás da Terra, aguarda ainda pareceres da Agência Portuguesa do Ambiente e da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional. Só depois deverá avançar para consulta pública. Bernardo Santos garantiu a O MIRANTE que não está prevista qualquer expansão da unidade, pelo que o número de camiões também não deverá aumentar no futuro.
Vários moradores fizeram questão de sublinhar que não estão contra a produção de biometano nem colocam em causa a importância ambiental do investimento. O problema, dizem, é a localização escolhida. A empresa justifica a opção pelas Marés com a proximidade da matéria-prima, incluindo resíduos provenientes de uma empresa do Cartaxo, a existência da rede de gás nas proximidades e os bons acessos rodoviários. Segundo os promotores, estas condições não foram encontradas em zonas industriais alternativas.

Autarcas também contestam localização
José Manuel Catarino, ex-vereador e histórico da CDU em Alenquer, recordou que o pedido de parecer prévio ao projecto foi aprovado pela Câmara Municipal em 2025, quando Pedro Folgado (PS) presidia ao município. PSD e CDU abstiveram-se nessa votação. O presidente da Junta de Freguesia de Ota, André Texugo (PS), questionou a comparação com unidades existentes noutros países europeus, lembrando que muitos dos exemplos apresentados se localizam no norte da Europa, onde as condições climáticas são diferentes das portuguesas. Rosa Brandão (PS), presidente da União das Freguesias de Abrigada e Cabanas de Torres, afirmou que a população já sofre com problemas de maus cheiros e garantiu que estará ao lado dos moradores. Também Catarina Antão, do executivo da mesma união de freguesias, reconheceu a importância do investimento, mas considerou que uma unidade desta dimensão não deve ser instalada tão próxima das casas. O vice-presidente da Câmara de Alenquer, Paulo Matias (PS), esteve presente na sessão, mas não tomou a palavra. Apesar de vários participantes terem desafiado representantes do município a pronunciarem-se sobre o projecto, o autarca manteve-se em silêncio.

Como funciona uma unidade de biometano

Uma unidade de produção de biometano transforma matérias orgânicas provenientes das actividades agrícola, pecuária e agro-industrial em energia renovável. O biometano pode substituir o gás natural de origem fóssil utilizado por habitações e empresas. Segundo os promotores, o projecto permitirá evitar a emissão de 440 mil toneladas de dióxido de carbono, um valor que comparam à capacidade de absorção de uma floresta com 500 mil árvores. A Gás da Terra garante que todo o processo, desde o armazenamento dos efluentes ao seu tratamento, decorrerá em instalações fechadas e equipadas com sistemas destinados a evitar a propagação de odores e poeiras e eventuais derrames de águas contaminadas para os solos. A Gás da Terra tem um projecto semelhante em Torres Novas, que também motivou contestação popular, conforme O MIRANTE noticiou, e desenvolve ainda projectos em Benavente e Santarém.

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