Famílias de bombeiros vivem com o coração nas mãos durante a época de incêndios
Aprendem a viver com a ausência, o medo e a ansiedade. O telefone anda sempre por perto, à espera que cheguem notícias. Entre 15 de Maio e 15 de Outubro, mães, pais, irmãos e filhos passam dias, até semanas sem ver os seus familiares bombeiros. O MIRANTE foi conhecer a realidade de muitos aos Bombeiros Voluntários de Santarém.
Adriana Sousa tem 30 anos e é bombeira há 11 nos Voluntários de Santarém. Integra o dispositivo de combate a incêndios e está há nove dias sem ir a casa. Uma ausência que é sentida pelos familiares desta e de muitos outros bombeiros que, nestes meses de Verão, os visitam no quartel na esperança de recuperar algum do tempo que o serviço lhes roubou. Tempo esse que não apaga os receios e a ansiedade sentida quando sabem que os seus partem para combater as chamas. “Vê se não há nada. Vê se não sais do quartel”, pede-lhe tantas vezes a mãe, quando Adriana lhe diz que está integrada no dispositivo. “Quer saber com quem vou, quem conduz o carro, para onde vou. A preocupação é maior do que quando sabe que estou de serviço na emergência pré-hospitalar”.
Natural de Alcanhões, cresceu a ouvir as histórias do avô paterno, também bombeiro, que largava o trabalho quando a sirene tocava, vestia um fato-macaco e ficava à beira da estrada à espera que a viatura o recolhesse. Não havia telemóveis e a avó permanecia em casa sem saber para onde ele tinha ido, quando regressava ou se estava bem. Agora a realidade é outra com os telefones a encurtar a distância, mas, garante, não acabaram com a ansiedade. Há zonas sem rede, horas sem oportunidade para fazer uma chamada e operações em que ninguém sabe dizer quando será possível voltar. A mãe de Adriana tentou demovê-la de entrar para os bombeiros quando tinha 15 anos. Nunca explicou porquê, mas a filha acredita que a recusa estava ligada à memória do avô e ao medo vivido pela família. Ainda assim, aos 20 anos, avançou e a mãe acabou por aceitar a decisão. A história de João Mateus é semelhante. Tinha 14 anos quando olhou da janela do quarto para o quartel e telefonou à mãe a dizer que ia buscar os documentos para se alistar, tal como tinha feito o seu avô, pai e irmão. “Ela não aceitou logo, mas acabou por assinar a autorização”, recorda.
João Mateus tem 29 anos e está numa relação com a colega de profissão, Adriana, há seis. Durante o Verão, os horários destes profissionais, que também prestam serviço voluntário, prolongam-se noite dentro com as equipas de intervenção permanente (EIP). Há dias em que terminam o turno e começam imediatamente outro período de serviço, onde chegam a fazer, numa mesma noite, quatro ou mais ocorrências. “E o que é que isso representa? Uma noite perdida”, resume o adjunto de comando da corporação, Luís Casimiro, explicando que na manhã seguinte, os mesmos bombeiros podem estar novamente de serviço. “O cansaço é puro”, acrescenta. Para as famílias, significa mais uma noite sem os ver entrar em casa e mais um dia em que uma conversa tem de caber numa chamada rápida. “Quando se trata de famílias com filhos é ainda mais difícil”, sublinha.
O casal de bombeiros contava, à data desta reportagem, com nove dias sem ir a casa. “São os nossos pais que vêm ao quartel”, explica João que recebe os seus quase todos os dias para beber café. “Eu não consigo ir lá visitá-los”, admite, explicando que apesar de lhes telefonar duas ou três vezes por dia, sabe que o telefone não substitui a presença.
A época de incêndios decorre formalmente entre 15 de Maio e 15 de Outubro. São cinco meses sem que jantares, aniversários, fins-de-semana e férias ficam dependentes de uma escala ou do toque de uma sirene. “Os recursos são sempre escassos”, reconhece o adjunto de comando, acrescentando que a resposta é garantida à custa de “um esforço enorme” de homens e mulheres cujas famílias se habituaram a adiar ou interromper planos. Adriana e João sabem bem o que isso é. Em 2023, recordam, estavam a passar férias fora do distrito quando começaram a acompanhar pelas notícias um grande incêndio, que estava a ser combatido por colegas da corporação. Ninguém lhes pediu para voltarem, mas decidiram fazê-lo. “Chegámos a casa, arrumámos as malas e ligámos ao comandante para lhe dizer que estávamos disponíveis para ficar no quartel ou para ir render a equipa que estava há vários dias no terreno”. Acabaram por ir e ficar quatro dias no combate ao incêndio. “É por isso que tem que se gostar mesmo muito disto. Não é porque é engraçado usar uma farda. Se for só por ser engraçado usar uma farda, não dá para aguentar”, atira o adjunto de comando, antes de avançar com os números desta época. No início de Agosto, os Bombeiros Voluntários de Santarém aproximam-se das quatro mil ocorrências desde o início do ano. Cerca de 30 a 40 dessas ocorrências são incêndios florestais. A associação regista ainda uma média de 20 ocorrências diárias de emergência pré-hospitalar, com saídas não apenas para Santarém, mas também para concelhos como Coruche, Salvaterra de Magos, Rio Maior, Chamusca e Alpiarça.
Bombeiros da mesma família seguem, por protecção, em veículos diferentes
Quando estão ambos no combate ao mesmo incêndio, a ansiedade muda de lugar. Já não são apenas os pais que ficam preocupados. Adriana e João também tentam perceber, através do rádio, o que se passa na frente onde o outro está. Não esquecem, um incêndio em Ourém, em que estavam separados por poucos quilómetros. Eram quatro da tarde quando João telefonou a Adriana. “Aqui está de noite”, disse-lhe. Naquela zona, o fumo tinha coberto a luz do dia, mas naquela onde Adriana estava, não. A jovem bombeira ouviu pelo rádio o chefe de equipa de João dizer que a situação não estava fácil, mas não podia abandonar a sua posição. Restava-lhe escutar as comunicações e esperar. Naquela frente, João e outro bombeiro tentavam defender uma casa quando encontraram uma mulher com cerca de 80 anos agarrada a uma mangueira de jardim, determinada a salvar o que era seu. As chamas tinham fechado as saídas e não havia condições para a retirar. “Basicamente, estávamos cercados. Ou corria bem para os três ou corria mal”, recorda. Acabou por correr bem, mas Adriana só conheceu os pormenores mais tarde. E, como acontece com muitas famílias de bombeiros, ouviu apenas aquilo que o companheiro decidiu contar. “Algumas coisas contamos. Não todas”, admite.
Os bombeiros evitam relatar as situações mais perigosas porque sabem que cada detalhe regressará à memória da família na próxima saída. “Se a gente contar realmente tudo, não vai ser bom. Eles já ficam cá com o coração nas mãos”, diz João que já viveu na pele essa preocupação quando combatia um incêndio, onde também estava o seu irmão, bombeiro numa outra corporação. O carro onde este seguia estava cercado pelas chamas. A coluna aguardava ordens para avançar para outra frente quando o jovem bombeiro dos Voluntários de Santarém saiu do veículo e começou a correr. “Sabia onde estavam, tinha de lá ir. Era o meu irmão”, recorda. Acabou por não chegar ao local, impedido de continuar pelos colegas.
É preciso muita preparação emocional
O comando, explica Luís Casimiro, procura evitar, sempre que os recursos humanos o permitem, que casais ou familiares directos sigam na mesma viatura. Não apenas para impedir que uma tragédia atinja duas pessoas da mesma família, mas porque o afecto ocupa espaço dentro do carro e pode interferir com a atenção exigida pelo combate.
O adjunto de comando considera que os próprios bombeiros também precisam de maior preparação emocional. “Os bombeiros praticamente preparam-se uns aos outros”, afirma. Mas, ressalva, nenhum incêndio é igual ao anterior e é em situações inesperadas que “o coração fica na pontinha dos dedos”, diz. A expressão serve para os bombeiros, mas também para quem fica longe, a tocar repetidamente no ecrã do telefone, à procura de uma mensagem, muitas vezes curta. Um “estou bem” ajuda a sossegar os familiares a quem o comando da corporação faz questão de agradecer num jantar onde todos se juntam. “As famílias precisam de ouvir a palavra gratidão”, defende o adjunto. Porque, justifica, entre Maio e Outubro, não são apenas os bombeiros que vivem em função dos incêndios, as suas famílias também.


