Rui Silva trocou Alpiarça pela China e descobriu uma nova versão de si próprio
Aos 23 anos, o jovem professor vive em Jiaxing, a cerca de meia hora de comboio de Xangai, onde descobriu uma realidade muito diferente da portuguesa e aprendeu a sair mais da sua zona de conforto.
Rui Silva nunca tinha entrado num avião quando, há dois anos, decidiu aceitar ir trabalhar numa escola privada internacional na China. Com 21 anos e licenciado em Treino Desportivo, procurava uma oportunidade que lhe permitisse fazer do desporto a sua vida. Actualmente, vive em Jiaxing, onde dá aulas de Educação Física do primeiro ao sétimo ano e garante que a experiência o tornou “mais aberto” e disposto a dizer sim a coisas que nunca imaginou fazer. Natural de Frade de Cima, Alpiarça, Rui Silva começou a construir o seu percurso desportivo nos Águias de Alpiarça, onde jogou e foi treinador principal dos escalões de Petizes. Seguiram-se três anos como treinador em Rio Maior, experiência que acabou por lhe abrir portas para procurar oportunidades fora de Portugal. Candidatou-se a oportunidades em Espanha, na China e na Arábia Saudita, até que um amigo que lecciona na China, lhe falou de uma vaga na escola onde trabalhava. Depois de duas entrevistas, acabou por ser escolhido. A decisão de partir acabou por ser fácil, tendo em conta as condições de vida e de trabalho oferecidas, e assim que recebeu a confirmação embarcou rumo à China. “A vontade de experimentar falou mais alto do que o receio de partir sozinho para um país estrangeiro. Queria experimentar e desafiar-me a mim mesmo”, diz.
Vive em Jiaxing, cidade situada a cerca de 28 minutos de Xangai, de comboio de alta velocidade. Na escola onde lecciona, algumas disciplinas, como a Educação Física, são dadas em inglês, o que facilitou a adaptação ao trabalho. No dia-a-dia, contudo, a realidade é diferente, sendo necessário dominar algumas bases da língua. “Já sei falar um bocado mais do que o básico, mas escrever é mais difícil”, admite, salientando que o que sabe “dá para desenrascar”. A gastronomia foi também das principais dificuldades iniciais, mas foi dentro da escola que encontrou as diferenças culturais que mais o surpreenderam. Rui Silva descreve uma abordagem tradicional chinesa mais individual, mesmo quando a modalidade é colectiva, em que um aluno pode passar grande parte da aula a trabalhar sozinho com uma bola, sem que exista interacção com os colegas. Nas suas aulas, procura introduzir o contrário, através de jogos colectivos, comunicação e tomada de decisão. Após dois anos sente que os alunos já começam a perceber melhor a importância do colectivo.
Adaptação e saudades de casa
Fora da escola, joga futebol todas as semanas com um grupo de amigos, corre, vai jantar fora e aproveita para conhecer a cidade e arredores. Aos poucos, criou uma rede de contactos que começou nos professores estrangeiros da escola e foi-se alargando à comunidade local. A cidade onde vive surpreendeu-o pela qualidade de vida, espaços verdes e pelo nível de tecnologia, sendo o sistema de transportes públicos o que mais o impressiona. Apesar de considerar os chineses mais pragmáticos e reservados, garante que é sempre bem recebido e que, quando diz ser português, basta mencionar que é “do país do Cristiano Ronaldo” para que “fiquem logo entusiasmados”. Contudo, continua a ter saudades da família e dos amigos, reconhecendo que os primeiros quatro meses foram difíceis para os pais, especialmente devido à diferença horária de sete horas. A distância é, contudo, atenuada pelas férias e quando regressa há sempre amigos e conhecidos a quererem saber como é viver na China.
Dois anos depois, o alpiarcense reconhece que a experiência o mudou tanto a nível profissional como pessoal. “Era uma pessoa que gostava de estar no meu canto, mas lá comecei a dizer mais que sim”, confessa, recordando as vezes em que acabou a cantar em eventos da escola, apesar de nunca ter pegado num microfone antes.


