Sociedade | 20-08-2026 10:00

Secretário de Estado João Moura mantém benefícios da empresa dona da casa de luxo da Golegã

Secretário de Estado João Moura mantém benefícios da empresa dona da casa de luxo da Golegã
João Moura - foto arquivo O MIRANTE

João Moura deixou a casa de luxo da Golegã fora da declaração de interesses da Entidade da Transparência porque colocou o imóvel histórico em nome de uma empresa criada em 2020, pouco tempo antes da compra da casa.

Apesar de alegar que suspendeu a quota na empresa, essa situação não aparece nem nos registos societários nem na declaração de interesses, mas mesmo que tenha sido concretizada, o secretário de Estado da Agricultura beneficia de tudo porque a outra sócia é a mulher com quem está casado. O político do PSD, que é também sócio da mulher noutra empresa, não tem carros em seu nome, excepto uma carrinha de trabalho com 26 anos.

O secretário de Estado da Agricultura, João Moura, afirmou ter “suspendido a quota” na Metric Memory – Lda., empresa proprietária da casa de luxo da Golegã que está a ser investigada pela PJ. Mas nos registos oficiais não há indícios. Nas publicações dos actos societários do Ministério da Justiça não existe qualquer menção à suspensão, sendo que a última inscrição é de 9 de Julho de 2026 e refere‑se à apresentação de contas. Na Entidade da Transparência também não consta essa situação, conforme comprovou O MIRANTE na consulta do registo de interesses do político do PSD natural de Mação, residente em Ourém, onde também é presidente da assembleia municipal.
O documento é taxativo: João Moura mantém 50% da empresa, com uma quota de 1.250 euros, e a outra metade pertence à esposa, Ana Moura Rodrigues, com quem está casado em comunhão de adquiridos. Ou seja, mesmo que tenha suspendido a quota, continuaria a beneficiar da empresa, porque o património social integra o património comum do casal. A alegada suspensão, além de não existir nos registos, não tem qualquer efeito jurídico. Sem registo, a pessoa mantém‑se sócio efectivo, e é isso que os documentos sugerem.

Casa da Golegã fica de fora da declaração de interesses
A Metric Memory, sediada no Largo Marquês de Pombal, na Golegã, no epicentro da Feira Nacional do Cavalo, dedica‑se ao turismo rural, animação turística, exploração agrícola e animal, comércio e restauração – actividades compatíveis com a utilização da casa de luxo alvo de obras superiores a 600 mil euros, como O MIRANTE noticiou. Apesar de ser sócio da empresa que detém o imóvel, João Moura não declarou a casa da Golegã à Entidade da Transparência, já que o imóvel está em nome da empresa. A omissão é relevante porque o governante beneficia directamente da sociedade e porque o regime matrimonial coloca o imóvel dentro da esfera patrimonial do casal.
Não deixa de ser estranho o capítulo dos bens móveis: o secretário de Estado declarou apenas uma carrinha Toyota 150, com 26 anos, uma viatura de trabalho com 4000cc. A ausência de qualquer automóvel pessoal sugere que anda no carro da esposa ou que as viaturas estão em nome desta ou de outras empresas, como a Quadrado ao Metro, sociedade de engenharia onde também é sócio da mulher, detendo cada um 50%. Na declaração de interesses, João Moura indica ainda oito propriedades: cinco terras de semeadura e mato no concelho de Ourém, um T3 na freguesia de Nossa Senhora da Piedade (154.329 euros de valor patrimonial), um T2 em Águas Belas, Ferreira do Zêzere (58.237 euros), e uma fracção comercial em Fátima (72.514 euros).
A polémica da casa da Golegã junta‑se a investigações por suspeitas de corrupção, circulação de dinheiro entre empresas e uma queixa‑crime por maltratar uma chefe de serviços da Direção-Geral da Alimentação e Veterinária (DGAV) numa reunião online gravada.

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