Secretário de Estado João Moura mantém benefícios da empresa dona da casa de luxo da Golegã
João Moura deixou a casa de luxo da Golegã fora da declaração de interesses da Entidade da Transparência porque colocou o imóvel histórico em nome de uma empresa criada em 2020, pouco tempo antes da compra da casa.
Apesar de alegar que suspendeu a quota na empresa, essa situação não aparece nem nos registos societários nem na declaração de interesses, mas mesmo que tenha sido concretizada, o secretário de Estado da Agricultura beneficia de tudo porque a outra sócia é a mulher com quem está casado. O político do PSD, que é também sócio da mulher noutra empresa, não tem carros em seu nome, excepto uma carrinha de trabalho com 26 anos.
O secretário de Estado da Agricultura, João Moura, afirmou ter “suspendido a quota” na Metric Memory – Lda., empresa proprietária da casa de luxo da Golegã que está a ser investigada pela PJ. Mas nos registos oficiais não há indícios. Nas publicações dos actos societários do Ministério da Justiça não existe qualquer menção à suspensão, sendo que a última inscrição é de 9 de Julho de 2026 e refere‑se à apresentação de contas. Na Entidade da Transparência também não consta essa situação, conforme comprovou O MIRANTE na consulta do registo de interesses do político do PSD natural de Mação, residente em Ourém, onde também é presidente da assembleia municipal.
O documento é taxativo: João Moura mantém 50% da empresa, com uma quota de 1.250 euros, e a outra metade pertence à esposa, Ana Moura Rodrigues, com quem está casado em comunhão de adquiridos. Ou seja, mesmo que tenha suspendido a quota, continuaria a beneficiar da empresa, porque o património social integra o património comum do casal. A alegada suspensão, além de não existir nos registos, não tem qualquer efeito jurídico. Sem registo, a pessoa mantém‑se sócio efectivo, e é isso que os documentos sugerem.
Casa da Golegã fica de fora da declaração de interesses
A Metric Memory, sediada no Largo Marquês de Pombal, na Golegã, no epicentro da Feira Nacional do Cavalo, dedica‑se ao turismo rural, animação turística, exploração agrícola e animal, comércio e restauração – actividades compatíveis com a utilização da casa de luxo alvo de obras superiores a 600 mil euros, como O MIRANTE noticiou. Apesar de ser sócio da empresa que detém o imóvel, João Moura não declarou a casa da Golegã à Entidade da Transparência, já que o imóvel está em nome da empresa. A omissão é relevante porque o governante beneficia directamente da sociedade e porque o regime matrimonial coloca o imóvel dentro da esfera patrimonial do casal.
Não deixa de ser estranho o capítulo dos bens móveis: o secretário de Estado declarou apenas uma carrinha Toyota 150, com 26 anos, uma viatura de trabalho com 4000cc. A ausência de qualquer automóvel pessoal sugere que anda no carro da esposa ou que as viaturas estão em nome desta ou de outras empresas, como a Quadrado ao Metro, sociedade de engenharia onde também é sócio da mulher, detendo cada um 50%. Na declaração de interesses, João Moura indica ainda oito propriedades: cinco terras de semeadura e mato no concelho de Ourém, um T3 na freguesia de Nossa Senhora da Piedade (154.329 euros de valor patrimonial), um T2 em Águas Belas, Ferreira do Zêzere (58.237 euros), e uma fracção comercial em Fátima (72.514 euros).
A polémica da casa da Golegã junta‑se a investigações por suspeitas de corrupção, circulação de dinheiro entre empresas e uma queixa‑crime por maltratar uma chefe de serviços da Direção-Geral da Alimentação e Veterinária (DGAV) numa reunião online gravada.


