Sociedade | 21-08-2026 10:00

Abandono de gatos no Entroncamento continua a aumentar

Abandono de gatos no Entroncamento continua a aumentar
A Abraços de 4 Patas, associação do Entroncamento, tem acolhido cada vez mais animais e apela à adopção responsável

Abraços de 4 Patas acompanha dezenas de colónias e um universo estimado em cerca de 750 gatos no Entroncamento. Só este ano foram deixados cerca de 20 bebés numa zona mais isolada e os voluntários admitem que já não conseguem responder a todos os pedidos de ajuda.

“Aqui caem gatos em todo o lado”. A frase dos voluntários da Abraços de 4 Patas resume a dimensão do abandono animal no Entroncamento, que voltou a agravar-se este Verão. A associação, criada há seis anos, acompanha actualmente 22 colónias legalizadas, além de outras que aguardam legalização, num universo estimado em cerca de 750 gatos. À última contagem estavam ainda 58 animais em famílias de acolhimento. Os meses de Verão trouxeram uma vaga de abandonos que, segundo os voluntários, já não se via há vários anos. Numa das colónias apareceram recentemente quatro gatos adultos e, numa zona mais afastada e pouco visível, foram abandonados só este ano cerca de 20 gatos bebés. Muitos são animais domésticos, dóceis e não esterilizados, situação que dificulta a adaptação às colónias e aumenta o risco de reprodução. Os pedidos de ajuda chegam diariamente do Entroncamento e também de concelhos vizinhos, relata uma responsável da associação. Perante o volume de situações, a Abraços de 4 Patas admite que já não tem capacidade para responder a todos os casos.
Quando a associação nasceu, há seis anos, não havia colónias legalizadas no concelho, estruturas de abrigo ou Programa de Captura, Esterilização e Devolução (CED) em funcionamento. Os próprios voluntários chegaram a construir abrigos, alguns dos quais acabaram destruídos. A realidade foi mudando e a associação conseguiu apoio para instalar estruturas destinadas aos animais. Está agora prevista a criação de um gabinete veterinário municipal, que deverá reforçar o trabalho de esterilização e acompanhamento, assim como a instalação de 20 novos abrigos no concelho. Para os voluntários, a articulação com o município é essencial para travar o crescimento das colónias e responder mais rapidamente aos animais em risco. A esterilização é apontada como uma das principais armas contra a multiplicação descontrolada dos gatos de rua.
Cada animal resgatado obriga, entretanto, a um percurso demorado. Primeiro tenta perceber-se se existe um dono e verifica-se a existência de microchip. Seguem-se desparasitação, avaliação veterinária, vacinação, esterilização e identificação electrónica. Nos bebés, que muitas vezes chegam com pulgas, parasitas ou problemas respiratórios, o processo pode ser ainda mais exigente. Um dos casos que ficou na memória dos voluntários é o de Amélia, uma gata idosa encontrada extremamente debilitada e coberta de pulgas e carraças. Durante cerca de duas semanas foi levada diariamente à clínica antes do horário de trabalho dos voluntários e recolhida ao fim do dia. Recuperou, foi adoptada e, apesar de ter morrido mais tarde, passou os últimos tempos de vida junto de uma família.

Contas pagas com donativos e dinheiro dos voluntários
Por detrás dos resgates estão pessoas que conciliam a protecção animal com o emprego e a vida familiar. A associação vive sobretudo de donativos, apoios pontuais das juntas de freguesia, padrinhos e madrinhas e do contributo dos próprios voluntários. Só a alimentação dos animais acolhidos ronda os 200 euros mensais e as areias representam mais cerca de 100 euros, sem contar com consultas, medicamentos, vacinas, desparasitações e esterilizações. A falta de voluntários e de donativos continua a ser uma das maiores dificuldades e há quem acabe por pagar do próprio bolso ração ou tratamentos veterinários. Encontrar famílias também não é fácil. Os gatos bebés continuam a ser os mais procurados e, a partir dos cinco ou seis meses, as hipóteses de adopção diminuem. A associação lembra, no entanto, que muitos adultos resgatados da rua criam fortes ligações a quem lhes dá uma segunda oportunidade. No Dia Mundial do Gato, assinalado a 8 de Agosto, a Abraços de 4 Patas deixa sobretudo um apelo à responsabilidade. Ter um animal implica custos e cuidados durante toda a vida e ir de férias, mudar de casa ou surgir uma alergia não pode transformar o abandono numa solução.

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