Sociedade | 25-08-2026 15:00

Bombeiros de Alverca chegam aos 100 anos à espera de novo quartel

Bombeiros de Alverca chegam aos 100 anos à espera de novo quartel
João Antunes é o presidente da associação dos bombeiros de Alverca - foto O MIRANTE

João Antunes iniciou em Maio um novo mandato à frente da Associação dos Bombeiros Voluntários de Alverca do Ribatejo com várias frentes de batalha: aproximar a população da corporação, melhorar as condições dos bombeiros, renovar uma frota envelhecida e continuar a reivindicar um novo quartel. A associação prepara também as comemorações do seu centenário, que decorrem a partir de Novembro.

João Antunes tomou posse em Maio como presidente da Associação dos Bombeiros Voluntários de Alverca do Ribatejo, juntamente com a nova direcção, e tem pela frente um mandato em que pretende reforçar a ligação da corporação à comunidade. A falta de voluntários, o envelhecimento das viaturas, a necessidade de melhores condições para os bombeiros e a reivindicação de um novo quartel são algumas das prioridades. Para o novo presidente, é cada vez mais difícil manter uma instituição assente no voluntariado. Há menos pessoas disponíveis e o espírito de entreajuda que existia no passado está a perder-se, sobretudo entre os mais jovens. João Antunes considera que o problema não é exclusivo dos bombeiros e entende que também o associativismo cultural atravessa dificuldades.
A própria ligação da população aos bombeiros também se tem vindo a perder. Dá como exemplo o facto de ainda existirem pessoas em Alverca, incluindo na Malvarosa, que desconhecem que existe ali um quartel. No entanto admite que a própria corporação tem alguma responsabilidade neste afastamento e quer trabalhar para inverter a situação. Recorda os tempos em que era criança, quando os aniversários dos bombeiros eram assinalados com desfiles, fanfarra e outras iniciativas que juntavam a população. “Geralmente só pensam em nós quando a casa está a arder, ou quando aconteceu alguma desgraça, ou quando é preciso uma ambulância”, afirma.

Socorro nem sempre é compreendido
A gestão das ambulâncias através da central municipal é outro dos assuntos que, segundo o presidente, nem sempre é bem compreendido pela população. Se for solicitada uma ambulância em Alverca e existir uma ambulância de Alhandra mais próxima, será esta última a prestar o socorro. João Antunes dá como exemplo uma situação ocorrida recentemente em Setúbal, relatada pelo comandante da corporação, em que uma ocorrência foi rejeitada várias vezes. Perante a situação, o comandante decidiu que os bombeiros de Alverca avançariam para o local e acabaram por prestar o socorro. São situações que podem gerar estranheza em quem está à espera de ajuda, sobretudo quando uma equipa percorre uma distância significativa para responder a uma ocorrência.

Renovar frota é uma prioridade
Melhorar as condições dos bombeiros é outra das prioridades para os próximos dois anos. A direcção pretende actuar ao nível das condições de trabalho, dos salários e, sobretudo, dos equipamentos. A associação está a concorrer ao Orçamento Participativo, tendo como principais necessidades a aquisição de uma ambulância e de 40 fatos de equipamento de protecção individual (EPI) para fogos urbanos. A renovação da frota é também uma prioridade da direcção, numa altura em que algumas viaturas começam a acusar a idade. O veículo urbano de combate a incêndios tem 26 anos e os veículos florestais têm 22 e 24 anos. No ano passado foi adquirida uma viatura de transporte por 88 mil euros e, mais recentemente, uma viatura de socorro por mais de 70 mil euros, que entrou ao serviço no mês passado. Apesar destas aquisições, João Antunes considera necessário continuar a renovar a frota, até porque os custos são elevados. Só a substituição de um camião urbano de combate a incêndios pode rondar os 300 mil euros. O presidente sublinha ainda a importância dos equipamentos de protecção, uma vez que os fatos usados pelos bombeiros vão ficando desactualizados.

Menos sócios e situação financeira estável
A associação enfrenta também uma redução do número de associados. A quota dos Bombeiros de Alverca é de dois euros por mês e João Antunes considera que um aumento do número de sócios poderia representar uma importante ajuda financeira.
A situação financeira da instituição é actualmente considerada estável, embora ainda estejam a ser corrigidas várias situações de outras direcções. A associação não tem, contudo, capacidade para realizar grandes investimentos sem apoios das autarquias e do Estado. Muitas vezes tem de adiantar dinheiro para despesas relacionadas com fogos, avarias e combustíveis, uma vez que os pagamentos não são imediatos. A corporação conta actualmente com 26 assalariados e um universo de cerca de 120 a 126 bombeiros, entre elementos do quadro activo, assalariados, quatro de reserva e brigada.

Novo quartel continua por concretizar
A necessidade de um novo quartel é uma reivindicação antiga. Já existiu um projecto, com maquete, para a construção de instalações junto ao cemitério de Alverca, paredes meias como quartel, e chegou também a ser equacionada a utilização do espaço do Aldi depois da saída do supermercado para outro lugar.
Já no ano passado, o presidente da Câmara de VFX, apontou o parque da Tertir como possível localização, mas os bombeiros continuam sem uma solução concreta. O actual quartel não tem espaço suficiente para a frota. Há viaturas estacionadas à frente e atrás das instalações e outras estão guardadas numa garagem junto ao Continente, onde se encontram carros de segunda linha, um autotanque, os barcos e viaturas do museu. “Temos tudo espalhado”, resume João Antunes, lembrando que a associação não tem capacidade financeira para construir um quartel por iniciativa própria.

Críticas à falta de apoio do Governo

João Antunes considera que os bombeiros não recebem do Estado o reconhecimento e o apoio que merecem. Critica o facto de existirem investimentos públicos noutras áreas e de as necessidades das corporações continuarem sem resposta. “Os bombeiros sentem-se um bocadinho desvalorizados, abandonados pelo Governo”, afirma. A falta de pessoas também se sente na contratação de trabalhadores. A associação abriu cinco ou seis concursos para funções como motoristas, socorristas, secretaria e central. Para a central, por exemplo, não recebeu qualquer candidatura. Noutros casos chegam currículos, mas os candidatos acabam por não cumprir os requisitos exigidos. Um dos exemplos que o dirigente dá para mostrar a dimensão do socorro prestado pelos bombeiros ocorreu recentemente num prédio de Alverca. Uma mulher que vivia num segundo andar, com cerca de 200 quilos, teve de ser evacuada pela janela. A operação mobilizou bombeiros, ambulância, VMER, polícia e uma auto-escada. A quantidade de meios envolvidos chegou a surpreender o presidente, que inicialmente pensou que poderia estar a ocorrer um incêndio.
O episódio mostra, na sua perspectiva, que o socorro mobiliza os meios necessários independentemente da dimensão aparente da ocorrência.

Um filho da terra com os bombeiros no sangue

João Antunes nasceu em Lisboa, mas regressou a Alverca, onde vive e fez a sua vida. A ligação aos Bombeiros Voluntários de Alverca vem de família: a mãe integra a actual direcção como secretária redactora e já tinha sido vice-presidente da anterior direcção. O avô, José Antunes, foi director dos bombeiros e das Oficinas de Material Aeronáuticos exerceu funções na Junta e chegou a deputado na assembleia. Morreu na sequência de um acidente de viação entre Alverca e Lisboa e tem actualmente uma rua com o seu nome em Alverca. João Antunes queria ser bombeiro desde criança mas os pais não permitiram. Hoje é o filho mais novo, de 15 anos, que integra a brigada.
Para o presidente os bombeiros são “a última linha de defesa” da população. Quando são chamados para uma ocorrência, deixam em casa família e amigos sem saber quando vão regressar. É também por isso que diz estar na direcção, para ajudar os bombeiros e procurar proporcionar-lhes melhores condições.
Fora da corporação a família mantém ligação ao karaté. João Antunes é cinturão negro, tal como o filho mais velho, enquanto o mais novo também pratica a modalidade. Auxilia, quando necessário e quando tem disponibilidade, a escola de karaté de Pedro Carreiro, no Forte da Casa, e acompanha os atletas como treinador nos torneios. Os fins-de-semana são, por isso, ocupados entre os bombeiros, a família e o karaté, com competições que o levam ao Porto, ao Algarve e a outras zonas do país. Profissionalmente, João Antunes é gestor de transportes internacionais e trabalha em teletrabalho. O computador e o telemóvel são as principais ferramentas de trabalho, o que lhe permite muitas vezes trabalhar a partir das instalações dos Bombeiros Voluntários de Alverca.

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