Sociedade | 30-08-2026 21:00

Alpiarça no mapa da investigação sobre a evolução humana na Europa

Alpiarça no mapa da investigação sobre a evolução humana na Europa

Campanha arqueológica no Vale do Forno revelou milhares de peças em pedra deixadas por grupos humanos há cerca de 300 a 350 mil anos. Estado de conservação do sítio permite aos investigadores estudar com detalhe uma das mais antigas ocupações humanas da região.

Mais de dois mil artefactos em pedra, com cerca de 300 mil anos, foram recolhidos este ano no sítio arqueológico do Vale do Forno, em Alpiarça, durante uma campanha desenvolvida por uma equipa da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Os investigadores querem perceber como viviam os grupos humanos que passaram pelo local e reconstituir o ambiente existente naquela época. O arqueólogo Carlos Ferreira, responsável científico pelo projecto, explica que os trabalhos procuram determinar o contexto sedimentar e estratigráfico das peças, a sua idade, a forma como foram utilizadas e as características da paisagem onde esses grupos humanos se movimentavam.
O Vale do Forno é conhecido desde o início da década de 1990, quando escavações coordenadas por Luís Raposo, então director do Museu Nacional de Arqueologia, permitiram recolher cerca de três mil artefactos do Paleolítico Inferior. Os trabalhos foram retomados em 2024 e aprofundados este ano. Segundo Carlos Ferreira, o sítio distingue-se pelo excepcional estado de conservação. As peças encontram-se praticamente no local onde terão sido abandonadas pelo homem pré-histórico, num contexto que corresponderia a um antigo charco ou zona lagunar de águas pouco movimentadas.
Essa circunstância permite aos arqueólogos perceber melhor as actividades realizadas naquele espaço há centenas de milhares de anos. Além do estudo das ferramentas de pedra, vão ser feitas análises paleoambientais e testada a possibilidade de recuperar ADN antigo preservado nos sedimentos argilosos. A expectativa é conseguir identificar espécies animais que habitavam a região, apesar de não terem sido encontrados restos de fauna. O projecto recebeu financiamento da Leakey Foundation, organização norte-americana dedicada ao estudo da evolução humana, apoio que Carlos Ferreira considera um reconhecimento internacional da importância científica do Vale do Forno. A Câmara de Alpiarça e a Associação para o Desenvolvimento da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa também apoiam os trabalhos.Terminada a campanha, as amostras seguem agora para laboratórios especializados. A equipa já prepara novas escavações, que deverão alargar a área investigada e ajudar a perceber melhor como se organizava este espaço há cerca de 300 mil anos.

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