Moradores das Marés repudiam “fábrica de estrume” perto de casas e município dá parecer desfavorável
Projecto para unidade de transformação de efluentes agropecuários em gás natural prevê passagem diária de dezenas de camiões e maus cheiros. Quem vive nas Marés, concelho de Alenquer, teme esse cenário e pede coragem ao presidente da câmara para travar a instalação da central de biometano. O município já emitiu parecer desfavorável ao projecto.
Vários moradores das Marés, localidade da Abrigada, Alenquer, estão contra a instalação de uma unidade de transformação de efluentes agropecuários em gás e biofertilizante agrícola a pouco mais de 500 metros das suas casas. E na última reunião de câmara de Alenquer foram pedir ao presidente da autarquia, João Nicolau (PS), que tenha coragem e faça tudo o que puder para travar a construção da unidade de produção de gás biometano.
Muitos moradores temem uma repetição do caso da unidade logística da Santos e Vale, já que o projecto apresentado para a central de biometano prevê o transporte por camião, tractor, cuba ou cisterna, várias dezenas de vezes por dia, de 84.064 toneladas por ano de estrumes de porco, peru, bovino e resíduos provenientes de matadouros e agroindústrias. O projecto reconhece que os resíduos têm potencial para gerar odores e prevê a instalação de biofiltros para tratar o ar dos edifícios, embora não sejam uma garantia da ausência total de odores.
“É uma fábrica de estrume e vai prejudicar toda a população das Marés”, afirmou Henrique Martinho, morador da localidade, na última reunião de câmara, ao mesmo tempo que Maria da Conceição Lopes, preocupada com a passagem de 30 camiões por dia e com a produção, disse não querer ali a unidade “porque queremos viver em sossego”.
Já Horácio Lopes lembrou que a população das Marés vai deixar de ter qualidade de vida e as linhas de água não estão salvaguardadas no projecto, que ainda terá de passar pelo crivo da Agência Portuguesa do Ambiente (APA). “O que vão tratar é estrume que vai passar por dentro da Ota, Abrigada, Cabanas de Torres e vai ficar dentro das Marés”, criticou, por seu turno, José Manuel Catarino.
Câmara dá parecer desfavorável
O presidente da câmara, João Nicolau (PS), explicou aos moradores que, em Agosto de 2025, o executivo municipal apenas aprovou o pedido de informação prévia do projecto, mas não deu autorização à construção do investimento no concelho, partilhando das mesmas preocupações da população. “Somos contra qualquer impacto significativo que ponha em causa a qualidade de vida das pessoas e, em fase de licenciamento, teremos de tomar a devida decisão se isso não estiver acautelado”, garantiu o autarca, informando que, nesta fase, o processo não está na câmara mas sim na APA. “Ou a empresa garante que não há odores ou, se não é possível garantir, não é possível fazer a unidade”, reforçou o presidente da câmara, sem com isso conseguir convencer os moradores.
Entretanto, no âmbito do procedimento de Avaliação de Impacte Ambiental do projecto, o município emitiu a 26 de Agosto, em resposta a ofício da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo, parecer desfavorável ao projecto. “A pronúncia resulta da análise efectuada pelos serviços e prende-se sobretudo com a ausência de demonstração das questões levantadas relativamente à garantia da não produção de odores, expressamente estabelecida como pressuposto em sede de Pedido de Informação Prévia, bem como com os potenciais impactes da actividade sobre as áreas urbanas e os receptores sensíveis existentes na envolvente”, explica o município.
Para a câmara, somam-se ainda as preocupações com as acessibilidades, segurança e desempenho da rede viária, em particular da EN1/IC2, bem como a necessidade de uma análise mais integrada da inserção da actividade no território e dos respectivos efeitos cumulativos. O município considera ainda ser necessário aprofundar a análise das alternativas de localização, designadamente quanto à possibilidade de deslocação da área de implantação para Este ou para outras áreas que permitam um maior afastamento relativamente às edificações e habitações existentes.


