Sociedade | 05-09-2026

Operacionais de quatro patas com faro e disciplina para missões da GNR

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Na Secção Cinotécnica da GNR de Santarém, o treino permanente, a disciplina e a confiança moldam a relação entre militares e cães que actuam em operações de segurança, intervenção e detecção.

São binómios preparados para qualquer cenário, reforçando a segurança e aproximam a Guarda das pessoas, fruto de uma ligação entre militar e animal construída todos os dias e que muitas vezes se prolonga para além do serviço.

O treino começa cedo e não há margem para distracções. Na Secção Cinotécnica da GNR de Santarém, cada comando, cada busca e cada salto são levados a sério pelos sete binómios disponíveis para actuarem em qualquer cenário no distrito. À distância pode parecer um exercício lúdico entre militares e cães, mas basta observar alguns minutos para perceber que ali se trabalha como se estivesse sempre em missão. Os cães estão distribuídos por especializações que vão da segurança e intervenção à detecção de droga, armas e dinheiro. São animais treinados para actuar em cenários reais, onde a rapidez e a precisão podem decidir o desfecho de uma operação.
A aprendizagem destes guardas de quatro patas nunca termina. Não há um momento em que se possa dizer que um cão está “pronto”. O treino é contínuo e acompanha toda a vida do animal, numa rotina que além de disciplina diária exige uma relação de confiança absoluta entre o militar e o seu parceiro de quatro patas. As exigências do serviço nem sempre permitem treinar todos os dias, mas sempre que possível grande parte do horário de trabalho é dedicada ao cão. É essa dedicação silenciosa, feita longe dos holofotes, que garante que estes binómios estejam preparados para responder a qualquer chamada — seja para localizar um suspeito, detectar estupefacientes ou apoiar outras forças de segurança.
O MIRANTE acompanhou uma sessão de treino a propósito do Dia do Cão, celebrado a 26 de Agosto. Em média, segundo o Primeiro Sargento Bruno Evaristo, chefe da secção cinotécnica de Santarém, são necessários cerca de dois anos para que um cão adquira os conhecimentos necessários para desempenhar a sua função. Mas a estimativa pode variar em função da personalidade, do temperamento, capacidade física e mental e a predisposição de cada cão. Depois de estar apto para o serviço continua a aprendizagem e o aperfeiçoamento.
Durante o treino o desfio é manter o animal concentrado e motivado. A repetição dos exercícios e a confiança entre cão e tratador são fundamentais para garantir que o animal consegue responder adequadamente às diferentes situações que poderá encontrar numa missão.

Cada cão tem a sua especialidade
Apesar de existir uma base comum no treino, cada especialização exige preparação específica. No terreno, os binómios de segurança, intervenção e busca podem ser chamados para reforçar a segurança em eventos de grande dimensão, concentrações de pessoas ou operações de fiscalização. Já os cães de detecção podem ser utilizados em fiscalizações rodoviárias, buscas domiciliárias ou revistas de pessoas suspeitas, tendo como objectivo localizar matérias ilícitas.

Uma relação construída todos os dias
A relação entre o militar e o cão vai muito além da execução de ordens. O animal é inicialmente seleccionado de acordo com determinadas características e posteriormente distribuído a um tratador. A ligação entre ambos é construída com o tempo, através do trabalho conjunto, das rotinas e das experiências partilhadas. O militar precisa de conhecer o animal, perceber as suas reacções e interpretar os seus sinais. Ao mesmo tempo, o animal aprende a reconhecer as ordens, os sinais e até comportamentos menos directos do seu tratador. É um entendimento que se desenvolve através da convivência, do treino e da confiança.
A proximidade é tal que o primeiro sargento Bruno Evaristo admite, em tom de brincadeira, que passa mais tempo com a sua cadela do que com a própria família. Para um leigo, um exercício de detecção ou de obediência pode parecer uma tarefa exigente. Mas o modo como o treino é construído faz com que o cão o interprete como um jogo. A motivação e o entusiasmo do animal são essenciais para manter o seu desempenho, por isso, a preparação é feita de forma a que o cão associe o trabalho a uma experiência positiva. Embora no contexto operacional sejam considerados animais de trabalho, não deixam de receber cuidados, atenção e afecto.

A segurança que ladra e aproxima pessoas e o afecto que fica

A missão destes cães nem sempre é visível para a população. Muitas das intervenções acontecem no contexto de operações específicas e especializadas. Mas o contributo dos binómios para a segurança é considerado significativo, tanto pelo apoio directo às missões como pela proximidade que os animais permitem estabelecer com a comunidade. As pessoas tendem a aproximar-se e a mostrar maior receptividade quando estão perante um animal e, desta forma, os operacionais de quatro patas contribuem para reforçar o sentimento de segurança e a ligação entre a GNR e a população.
A exigência física e mental das missões obriga a cuidados específicos. Os cães têm os mesmos cuidados básicos que qualquer animal de companhia, mas a preparação física e a condição do animal merecem atenção redobrada devido às funções que desempenham. Existe ainda um acompanhamento veterinário contínuo, assegurado pela clínica veterinária da Guarda. A idade é também um factor a ter em conta. Um cão da GNR poderá manter-se ao serviço até cerca dos nove anos, mas não existe uma regra absoluta. A capacidade para continuar a trabalhar é avaliada individualmente, tendo em conta sobretudo a condição física do animal.
Quando chega o momento de abandonar o serviço, a relação construída ao longo dos anos pode não terminar. A GNR dá prioridade ao tratador na adopção do cão com quem trabalhou, sempre que existam condições para o receber em casa. Quando isso não é possível, os animais podem ser adoptados por outras pessoas.
Ao longo da carreira, são muitos os momentos que ficam na memória dos militares. Não há uma história específica para contar, há simplesmente comportamentos inesperados, atitudes caricatas e pequenas situações do dia-a-dia que acabam por trazer alegria ao trabalho. Quando se pergunta o que representa um cão para um militar da secção cinotécnica, a resposta surge sem hesitação, “companheirismo, lealdade e amor verdadeiro”. É uma relação que começa no treino, cresce nas missões e se prolonga muito para além delas.

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