De Almeirim para Moçambique, uma ajuda que muda vidas
A partir de Almeirim, uma pequena equipa ajuda a transformar vidas a milhares de quilómetros. A APOIAR trabalha há décadas em Moçambique nas áreas da alimentação, educação e saúde e mostra que, mesmo com poucos recursos, é possível fazer a diferença.
A APOIAR – Associação Portuguesa de Apoio a África, sediada em Almeirim desde 2012, desenvolve desde 1995 um trabalho de ajuda humanitária, centrado em Moçambique. A associação trabalha directamente com comunidades locais nas áreas da educação, saúde e nutrição, criando respostas continuadas e adaptadas às necessidades de cada território. No âmbito do Dia Mundial da Acção Humanitária, assinalado a 19 de Agosto, O MIRANTE falou com elementos da equipa e voluntários, que explicaram o impacto deste trabalho e como, muitas vezes, “se consegue fazer tanto com tão pouco”.
A milhares de quilómetros de Almeirim, há crianças que passam o dia sem terem tomado uma refeição e comunidades onde uma sala de aula sem cadeiras é uma realidade quotidiana. É a essas comunidades, sobretudo nas províncias de Sofala, Tete e Niassa, que a APOIAR dedica o trabalho que desenvolve há décadas. A partir de uma pequena equipa em Almeirim, a organização coordena vários projectos com uma estrutura composta maioritariamente por cerca de 50 profissionais moçambicanos.
A dimensão do trabalho contrasta com a reduzida equipa de 10 pessoas no escritório de Almeirim, mas o trabalho conjunto de todos só no ano passado fez com que mais de um milhão de refeições fossem fornecidas através do projecto Kukula, que tem 29 cozinhas escolares (24 em funcionamento e cinco já entregues às próprias comunidades). Mas a actividade da APOIAR não se resume a alimentar crianças. A associação acompanha mães grávidas e bebés até aos dois anos através do projecto Mayi, mantém escolinhas para crianças dos três aos seis anos e apoia alunos dos seis aos 14 anos com actividades extracurriculares.
Entre outros projectos, lançou recentemente também o Kumbatira, palavra que significa “abraçar” e que pretende levar incubadoras facilmente transportáveis para hospitais e formar as equipas locais para a sua utilização. “Aquilo que fazemos é muito pouco face às necessidades que existem, mas tem um impacto gigante para uma equipa tão pequena”, explica Joana Vinagre, coordenadora de projectos, resumindo o que a equipa faz diariamente: “fazer tanto com tão pouco”.
Maria Tomaz, da coordenação pedagógica, explica que a intervenção é pensada para acompanhar as crianças desde os primeiros momentos de vida, actuando numa fase em que a alimentação e os cuidados básicos podem determinar o desenvolvimento futuro, sendo também possível condições para que as crianças tenham mais ferramentas cognitivas e motoras. É uma intervenção que aposta na continuidade e, sobretudo, na ideia de que as próprias comunidades devem ganhar autonomia.
O impacto de um mês em Moçambique
A intervenção da APOIAR inclui ainda missões pontuais de voluntários no terreno, tendo a última ocorrido em 2022. Maria Menezes foi uma dessas voluntárias, tendo em 2022, aos 18 anos, integrado um grupo de 17 voluntários que passou um mês em Moçambique. Este ano, ao regressar ao terreno como colaboradora da APOIAR, pôde perceber mais de perto o impacto do trabalho da organização nas comunidades onde intervém. Quando partiu pela primeira vez, tinha a noção daquilo que encontraria, mas assegura que nada a preparou verdadeiramente para a dimensão da realidade que ia encontrar. “Achava sobretudo que eles tinham uma maior percepção do mundo. Mas não, eles vivem numa bolha. E isso foi das coisas mais difíceis de ver. Assim como ver o que é passar fome a sério”, afirma.
A jovem recorda ter visto crianças de quatro anos a percorrer quilómetros para ir buscar irmãos de dois anos à escola e crianças com sinais de desnutrição severa, em comunidades onde a pobreza é extrema. “É um país de muitos contrastes”, resume Maria Menezes, lembrando o choque de passar de uma cidade mais desenvolvida para um lugar onde viu crianças “com a barriga inchada de tão desnutridas”.
Quatro anos depois, são também outras imagens que permanecem. Uma inauguração de uma sala de aula, que em Portugal poderia passar despercebida, mas que ali se transformou numa festa com bolo, música e dança. Recorda também as árvores que plantou no recreio de uma escolinha, encontradas quatro anos depois já grandes e a fazer sombra. “Nesse aspecto também vemos o impacto do nosso trabalho e em como uma instituição que realmente faz coisas boas e bem feitas, como a APOIAR, pode mudar vidas”, salienta.
É essa percepção de continuidade que fez Maria Menezes regressar depois como colaboradora, estando a tirar ao mesmo tempo um mestrado em desenvolvimento e cooperação internacional. A experiência também mudou pequenos gestos da sua vida, como não desperdiçar comida ou não se importar de tomar banho de água fria. Não porque a pobreza que viu lhe tenha ensinado a viver com menos, mas porque lhe deu noção daquilo que é verdadeiramente essencial. “Nunca vi tanta felicidade genuína com coisas pequenas como lá e todos devemos aprender a viver mais agradecidos com o que temos”, conta, acrescentando que o que a motiva na vida “é fazer o bem para os outros”.
Cada ajuda pode fazer a diferença
Para a equipa da APOIAR, o objectivo também passa por convencer quem está em Portugal de que pode fazer a diferença. Maria Tomaz sublinha que mesmo pequenos contributos podem ter impacto concreto, sendo um exemplo o custo de alimentação de uma criança lá, estimado em cerca de 57 cêntimos por dia. “Qualquer ajuda é mesmo de grande valor e tem um impacto na vida destas crianças e comunidades”, reforça Joana Vinagre.
A associação aceita donativos, tem um programa de apadrinhamento de crianças (que já conta com 164 padrinhos) e campanhas específicas, estando a preparar uma para levar pranchetas às escolas onde os alunos escrevem actualmente ao colo. É uma imagem que resume a filosofia da APOIAR: não resolver todos os problemas de uma vez, mas encontrar onde uma intervenção pequena pode produzir uma mudança concreta.


