Sociedade | 12-09-2026 10:00

Mação no centro de projecto internacional que junta inteligência artificial e memória das comunidades

Mação no centro de projecto internacional que junta inteligência artificial e memória das comunidades

Projecto desenvolvido a partir de Mação cruza inteligência artificial, ciência, arquivos históricos e saberes das populações para ajudar a pensar políticas públicas e o futuro dos territórios. A metodologia já está a ser aplicada em Portugal, Brasil e China e deverá chegar também às Ilhas Maurícias.

Mação está no centro de um projecto internacional que pretende colocar a inteligência artificial ao serviço das comunidades e da definição de estratégias para o futuro dos territórios. A iniciativa cruza conhecimento científico com documentos históricos, fotografias, tradições, memórias e saberes locais, criando um arquivo digital capaz de apoiar a reflexão sobre problemas como os incêndios, o despovoamento ou o envelhecimento da população. O AGORA – Cultural Landscape Community AI Hub tem epicentro em Mação e arrancou no início deste ano com três projectos-piloto: um na freguesia de Ortiga e dois no Brasil, envolvendo uma comunidade indígena do Xingu, na Amazónia, e uma comunidade afrodescendente no Rio de Janeiro.

A iniciativa é coordenada por Luiz Oosterbeek, professor do Instituto Politécnico de Tomar (IPT) e presidente do Instituto Terra e Memória (ITM), que sublinha que a tecnologia não pretende substituir as decisões das populações ou dos responsáveis políticos. “O computador não nos vai dar as respostas sobre as decisões que a comunidade tem de tomar. Serão sempre opções políticas da sociedade actual”, afirmou. Através da inteligência artificial será possível pesquisar e cruzar grandes volumes de informação que actualmente se encontram dispersos por arquivos, documentos, fotografias, registos orais ou manuscritos. O objectivo é perceber como as comunidades enfrentaram determinados problemas ao longo do tempo e aproveitar esse conhecimento na definição de novas estratégias. “É possível desenhar estratégias convergentes, mas não iguais”, explicou Luiz Oosterbeek, salientando que cada território tem prioridades próprias e que dificilmente haverá políticas públicas eficazes sem a participação das populações.

Na freguesia de Ortiga, onde o Instituto Terra e Memória e o Museu de Mação trabalham há vários anos com a comunidade, parte da documentação histórica, etnográfica e cultural já foi digitalizada e começaram também a ser realizadas entrevistas aos habitantes. O investigador explica que o sistema poderá, por exemplo, analisar séculos de documentação para perceber de que forma as populações responderam no passado a problemas que continuam actuais, recuperando experiências já realizadas ou até propostas que chegaram a ser pensadas mas nunca foram concretizadas. “Estamos a criar um acervo de informação” que permitirá tomar decisões futuras “usando toda a informação disponível”, referiu.

Projecto chega à China e prepara entrada nas Maurícias

O AGORA começou esta semana a ser implementado também em Hainan, na China, onde se encontra a co-coordenadora Erika Robrahn Gonzalez. A aplicação da metodologia surgiu a convite de uma região chinesa interessada em utilizar o modelo na organização do território. Para Luiz Oosterbeek, a entrada na China representa “um desafio muito grande” e permitirá perceber de que forma a mesma metodologia pode ser aplicada em realidades culturais muito diferentes. Está igualmente acordada uma parceria com as Ilhas Maurícias, alargando a implantação internacional de uma iniciativa que nasceu com epicentro em Mação. O projecto, apoiado pela Academia Europeia, foi aprovado em 2025, mas a equipa optou por só agora o apresentar publicamente, numa fase em que já existem publicações, resultados e experiências concretas no terreno. “Nós queríamos poder ter esta divulgação já com resultados concretos”, explicou Luiz Oosterbeek, considerando particularmente significativo que uma região chinesa tenha solicitado a aplicação da metodologia.

A componente tecnológica do projecto está instalada em Mação e beneficia de financiamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). O apoio permitiu ao Instituto Terra e Memória adquirir seis supercomputadores e programas destinados ao desenvolvimento da infraestrutura de inteligência artificial. A equipa pretende igualmente promover formação em literacia de inteligência artificial junto das comunidades, alertando para as potencialidades, mas também para as limitações e riscos associados à utilização desta tecnologia.

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