Cancro da próstata: medo e vergonha ainda afastam homens das consultas de urologia
O cancro da próstata é o tumor mais frequente nos homens e pode evoluir silenciosamente durante mais de uma década. A propósito do Dia Europeu de Sensibilização para as Doenças da Próstata, que se assinala a 3 de Setembro, O MIRANTE falou com o urologista no Hospital CUF Santarém, David Castelo, sobre prevenção, sinais de alerta, diagnóstico e tratamento.
David Castelo acompanha uma área em que o atraso na procura de cuidados continua a pesar. O urologista do Hospital CUF Santarém reconhece que muitos homens, sobretudo de meia-idade e mais velhos, ainda recorrem menos ao médico do que as mulheres, seja por vergonha, tabu ou medo de receber um diagnóstico grave. Uma resistência que contrasta com a dimensão da doença: em 2022 foram diagnosticados em Portugal 7.345 novos casos de cancro da próstata, cerca de 22% de todos os tumores detectados nos homens, tornando-o o cancro mais frequente no sexo masculino.
Apesar de estar sobretudo associado ao avançar da idade, o prognóstico é muito favorável quando a doença é descoberta cedo, com uma sobrevivência líquida aos cinco anos de 96%, segundo dados da Direcção-Geral da Saúde. Ainda assim, em 2023, o tumor maligno da próstata esteve associado à morte de 1.836 homens em Portugal.
É possível ter cancro da próstata durante anos sem apresentar sintomas?
Sim. É uma doença de evolução muito lenta e, em muitos casos, assintomática até atingir estádios avançados. Desde que surge até se manifestar podem passar mais de dez anos em que a doença progride silenciosamente. Essa evolução lenta dá-nos uma oportunidade importante: detectar a doença precocemente e intervir com possibilidade de cura e com menos sequelas do que nas fases avançadas.
Que sinais não devem ser ignorados e a partir de que idade deve começar a vigilância?
Sangue na urina ou no sémen e alterações nos hábitos urinários, sejam na frequência, nas características do jacto, na urgência ou no ardor ao urinar. Uma simples análise sanguínea, o PSA, é também um bom indicador da saúde da próstata. Qualquer homem a partir dos 50 anos deve ter essa preocupação. Se tiver familiares directos com cancro da próstata ou se for uma pessoa de raça negra, a vigilância deve começar entre os 40 e os 45 anos. Dependendo do risco, deverá ser anual ou de dois em dois anos.
Ter um pai ou irmão com cancro da próstata aumenta o risco?
A genética e a história familiar têm importância. A existência de familiares directos afectados aumenta o risco, sobretudo quando há mais de um caso na família ou quando os diagnósticos surgiram em idades mais jovens, antes dos 55 anos.
Um PSA elevado significa necessariamente que existe cancro?
Não. O PSA, antigénio específico da próstata, é específico da próstata, mas não de uma doença em particular. Um valor elevado não significa necessariamente cancro. Costumo dizer que na medicina não há “sempre” nem “nunca”, mas um PSA normal torna pouco provável a existência de um cancro da próstata.
Quando o PSA levanta suspeitas, qual é o percurso até ao diagnóstico?
A suspeita é maioritariamente desencadeada por um PSA alterado. A história clínica, os sintomas, antecedentes familiares, evolução do PSA, ecografia prostática e toque rectal são o primeiro passo para determinar o risco. Se esse risco não for baixo, segue-se uma ressonância magnética prostática multiparamétrica. Se houver alterações suspeitas, o passo seguinte é a biópsia.
Porque continua a biópsia a ser necessária?
Porque os restantes exames ajudam a avaliar a probabilidade de existir cancro, mas a biópsia é o único exame que estabelece o diagnóstico com certeza. Dá também informação sobre a extensão e a agressividade do tumor, essencial para definir as melhores opções de tratamento e minimizar sequelas.
O Hospital CUF Santarém passou a fazer biópsia prostática de fusão. O que distingue esta técnica?
A biópsia convencional recolhe amostras sistemáticas das várias regiões da próstata. Costumo compará-la a uma sondagem de opinião: quanto mais representativa for a amostra, maior a probabilidade de acertarmos. A biópsia de fusão vai mais longe, porque sobrepõe, em tempo real, as imagens da ressonância magnética às da ecografia que guia a colheita, através de uma reconstrução tridimensional. O urologista consegue assim dirigir as amostras para as regiões identificadas como suspeitas na ressonância.
Essa precisão pode fazer diferença quando o tumor é muito pequeno?
Pode ser decisiva. Nas fases iniciais existem, por vezes, apenas um ou dois focos de doença, muitas vezes com um centímetro ou menos. Uma biópsia guiada por imagem pode fazer a diferença entre falhar o diagnóstico ou detectar o tumor numa fase inicial, em que é potencialmente curável com tratamentos menos agressivos e menos sequelas.
Pode também evitar a repetição de biópsias?
Sim. Como tem maior eficácia na detecção do cancro do que a biópsia convencional, reduz a necessidade de repetir o exame quando o primeiro resultado é negativo, mas os restantes indicadores continuam a sugerir fortemente a presença da doença. Nem todos os cancros precisam de tratamento imediato.
Quando o diagnóstico é confirmado, é sempre preciso tratar de imediato?
Não. Nas fases muito iniciais, o cancro da próstata pode ser apenas vigiado e tratado mais tarde, se houver necessidade. A probabilidade de cura mantém-se, evitando ou, pelo menos, adiando os efeitos adversos dos tratamentos. Para isso é fundamental que a doença seja detectada precocemente e que o método de diagnóstico nos dê confiança de que não falhámos nenhum foco de tumor.
De que depende a escolha do tratamento?
Depende da extensão da doença, do grau de agressividade, da eventual presença de doença fora da próstata, da idade e das preferências do doente. As opções podem passar por vigilância, cirurgia, radioterapia, braquiterapia, tratamentos hormonais ou quimioterapia. Em muitos casos existem diferentes opções com resultados igualmente satisfatórios e é possível definir um plano personalizado, procurando que as sequelas previsíveis sejam aceitáveis para o doente.
Que mensagem deixa aos homens que continuam a adiar consultas porque não têm sintomas ou têm medo?
O diagnóstico precoce pode fazer a diferença entre a cura e a doença incurável. Quando é detectado precocemente, o cancro da próstata apresenta taxas de cura superiores a 90%. Um diagnóstico atempado permite também tratamentos menos agressivos e com menor impacto na qualidade de vida, nomeadamente ao nível de sequelas urinárias, como a incontinência, e sexuais, como a disfunção eréctil.
Biópsia de fusão demora cerca de 30 minutos e dispensa internamento
A biópsia prostática de fusão disponível no Hospital CUF Santarém é realizada por via transperineal, exige profilaxia antibiótica e jejum nas horas anteriores e demora cerca de 30 minutos. É feita sob anestesia geral, sendo por isso indolor, e pode ser realizada em ambulatório, sem internamento. Depois do exame, recomenda-se repouso durante um ou dois dias e vigilância de eventuais perdas de sangue na urina ou no sémen nas semanas seguintes.
Uma das principais vantagens face à técnica convencional é o menor risco de infecção: por não atravessar o recto com a agulha, reduz-se a possibilidade de introduzir bactérias na próstata. David Castelo refere que a prostatite ocorre em cerca de 5% das biópsias convencionais e que, em menos de 1% dos casos, a infecção pode generalizar-se, provocar sépsis e exigir internamento ou cuidados intensivos. Na biópsia de fusão, afirma, estes riscos são praticamente inexistentes. A possibilidade de realizar o exame em Santarém evita ainda deslocações a grandes centros urbanos e permite manter o diagnóstico e o seguimento na unidade onde o doente já é acompanhado.


