Cuidadoras da CERCI Flor da Vida vêem nos utentes uma segunda família
Elisabeth Lopes e Olena Olub, funcionárias da CERCI Flor da Vida, em Azambuja, há oito anos, esperam que o novo complexo da Quinta das Rosas traga melhores condições para os utentes e mais formação e valorização para os profissionais.
Para quem trabalha diariamente com pessoas que precisam de cuidados permanentes, a profissão vai muito além do cumprimento de horários e tarefas. Como resume Olena Olub, cuidadora da CERCI Flor da Vida, em Azambuja, “não é só um trabalho”, mas uma “forma de vida”. Elisabeth Lopes partilha da mesma visão, descrevendo um compromisso feito de cuidado e afecto, sem esperar nada em troca.
As duas cuidadoras trabalham na CERCI há oito anos e estiveram na inauguração do Complexo Social e de Saúde da Quinta das Rosas, na Azambuja, tendo Elisabeth Lopes afirmado a O MIRANTE que fez questão de conhecer pessoalmente o novo espaço. “A expectativa é muito grande”, admite, numa altura em que a instituição se prepara para reforçar as equipas e distribuir profissionais pelos diferentes equipamentos.
Para Olena Olub, o novo complexo representa também uma oportunidade para melhorar as respostas dadas aos utentes e as condições de trabalho dos profissionais. “Esperamos que melhore e que cresça”, sublinha, salientando, contudo, a preocupação com a adaptação dos utentes à nova casa. “Os nossos ‘miúdos’, que estão na CERCI há muitos anos, muitos não têm família próxima, então encontram em nós uma referência afectiva. A transição para um novo espaço poderá exigir tempo e acompanhamento”, ressalta.
O novo complexo da CERCI Flor da Vida representa também uma oportunidade de crescimento para os profissionais. Elisabeth Lopes espera que a expansão seja acompanhada por mais formação e possibilidades de progressão, permitindo aos trabalhadores desenvolver competências e construir o seu percurso dentro da instituição. O projecto deverá igualmente criar emprego, com a necessidade de reforçar as equipas em diferentes áreas, mas as duas funcionárias esperam que o crescimento da instituição seja acompanhado por condições que garantam a sua sustentabilidade.
Elisabeth Lopes, de 44 anos, recorda períodos em que os trabalhadores chegaram a ficar dois meses sem receber salário, apesar de continuarem a trabalhar porque sabiam que os utentes precisavam deles. A nova infraestrutura traz “esperança”, mas também a expectativa de que existam recursos suficientes para manter as respostas no futuro.
Cuidar é também uma responsabilidade emocional
O trabalho de cuidador é exigente e implica uma responsabilidade que vai muito além da assistência diária. Elisabeth Lopes admite que existe por vezes o “medo de errar” e receio de que uma decisão possa marcar negativamente a vida de um utente. Olena Olub, de 56 anos, sublinha, por sua vez, a necessidade de conhecer profundamente a história de cada pessoa, das respectivas famílias e das suas doenças, sobretudo quando estão em causa pessoas com autismo ou outras patologias que exigem acompanhamento especializado.
“Este trabalho não é fácil. O nosso esgotamento emocional e físico também é muito”, admite, dizendo que a profissão exige disponibilidade constante e capacidade para responder a necessidades muito diferentes. Contudo, é precisamente essa proximidade que, para ambas, dá sentido ao trabalho. “O que nos faz regressar é saber que vamos embora e que eles estão na esperança que venhamos no outro dia”, conta Elisabeth Lopes, que imigrou do Brasil há 26 anos.
Também Olena Olub, que veio da Ucrânia para Portugal em 2001, afirma que é difícil olhar para aqueles a quem chamam “miúdos” apenas como utentes, devido à relação de proximidade e afecto que se cria ao longo dos anos. A relação criada com os utentes acaba, muitas vezes, por ultrapassar aquilo que seria expectável numa relação puramente profissional. E, apesar de reconhecerem a importância de algum distanciamento, ambas admitem que este nem sempre é possível. “Tudo o que damos, de cuidado e afecto, é sem esperar nada em troca, porque hoje eles estão bem connosco e amanhã não estão”, conta Elisabeth Lopes, explicando que é na relação construída ao longo dos anos, que encontra o sentido de uma profissão que já se tornou muito mais do que um emprego.


