Aos 100 anos, Maria Olívia continua “sempre bem-disposta” e atenta ao mundo
Chegou ao século de vida com três filhos, netos, bisnetos e um trineto a caminho. Maria Olívia foi costureira, criou uma família, cuidou do marido durante anos e atravessou mudanças profundas na sociedade portuguesa. Aos 100 anos continua a viver sozinha, acompanha as notícias e diz que qualquer coisa ainda a pode fazer rir.
Maria Olívia celebrou 100 anos na sexta-feira, 28 de Agosto, rodeada pela família que já atravessa várias gerações. Nasceu em São Domingos de Carmões, concelho de Torres Vedras, e passou parte da infância naquela localidade antes de se fixar em Aveiras de Cima, concelho de Azambuja, terra que passou a fazer parte da sua vida. Um século depois, não perde muito tempo a fazer contas à idade. Diz estar “sempre bem-disposta” e mantém uma lucidez que surpreende a família. Vê as notícias pela televisão, interessa-se pela actualidade e pelo desporto e continua a ter opinião sobre o que se passa no país e no mundo.
Foi criada com três irmãos e frequentou a escola até aos 13 anos. Completou a quarta classe numa época em que a vida das crianças e jovens se dividia sobretudo entre a casa, a família e o trabalho. Começou cedo a ajudar a mãe e viria depois a trabalhar como costureira, grande parte do tempo em casa. Uma máquina de costura oferecida pelo marido tornou-se presença habitual no quotidiano e serviu para fazer roupa para os três filhos e também para si. “Fazia a roupa para eles”, recorda. A maternidade ocupa um lugar especial nas suas memórias. Quando lhe perguntam pelos momentos mais felizes da vida, Maria Olívia regressa ao nascimento de cada um dos três filhos. A família cresceu, vieram os netos e os bisnetos e está agora a caminho mais uma geração, com o nascimento de um trineto.
Rui Albuquerque, de 56 anos, é o neto mais velho e guarda na memória as férias grandes passadas em Aveiras de Cima. Descreve a avó como alguém que sempre soube dar liberdade aos netos sem abdicar das regras. Enquanto mãe, diz, sempre foi mais exigente e controladora. Com netos e bisnetos tornou-se mais permissiva, embora continue a dar a sua opinião. A família conhece-lhe a teimosia e a personalidade vincada, conta Rui Albuquerque. Apesar de alguns esquecimentos próprios da idade, Maria Olívia mantém uma conversa coerente e acompanha a actualidade. Continua a viver sozinha, embora conte com o apoio de um filho que mora perto. Ainda aquece a sua comida e trata da higiene pessoal sem ajuda permanente.
Dos bailaricos à televisão
Na juventude, os bailes e festas eram momentos especiais, mas a liberdade era bem diferente da de hoje. O pai não gostava que saísse nem queria que tivesse namorado. O homem com quem viria a casar já fazia parte do seu círculo. “Sempre nos conhecemos e depois começámos a namorar”. Construíram uma vida em conjunto até o marido adoecer com Alzheimer. Maria Olívia cuidou dele durante cinco anos e sete meses, praticamente sem sair de casa. Acabaria por morrer nos seus braços, uma das recordações mais dolorosas de uma vida longa. Maria Olívia atravessou a ditadura, o 25 de Abril e profundas transformações sociais e tecnológicas. Antes da televisão era pela telefonia que procurava perceber o que acontecia no país. Hoje é o pequeno ecrã que lhe faz companhia. Vê notícias e desporto, gosta de romances e, quando a filha mais nova a visita, ouve-a ler o jornal. A máquina de costura, companheira de tantas décadas, ficou para trás. Aos 100 anos diz que não tem sonhos por concretizar. Se pudesse regressar a um momento da vida escolheria, sem hesitar, o dia em que foi mãe.


