Sociedade | 14-09-2026 10:00

Moradores de sete casas em Castelo do Bode têm de pagar 74 mil euros para ter água da rede

Moradores de sete casas em Castelo do Bode têm de pagar 74 mil euros para ter água da rede
Moradores consideram injusto terem de pagar por uma situação que, dizem, devia estar resolvida há anos - foto O MIRANTE

Habitantes de Castelo do Bode consideram “incomportável” o valor estimado para a ligação à rede pública de água, mas o presidente da Câmara de Tomar alega que a autarquia não pode comparticipar a obra. As habitações têm sido abastecidas provisoriamente, há muitos anos, pela rede privada da EDP, que terá de pôr fim a esse fornecimento.

Os moradores de Castelo do Bode, em Tomar, cujas casas têm sido abastecidas de água, provisoriamente, há muitos anos pela EDP, vão ter de suportar parte dos custos da ligação das suas habitações à rede pública, num valor global estimado de 74 mil euros. O montante foi divulgado numa reunião realizada a 26 de Agosto, entre a Câmara de Tomar e as entidades envolvidas no processo. Apesar do descontentamento dos moradores com a situação, o município afirma que não pode comparticipar a obra.
Segundo o presidente da câmara, Tiago Carrão (PSD), o investimento necessário ronda os 230 mil euros, incluindo não só a extensão dos ramais até às habitações, mas também um reforço da rede de abastecimento. Deste valor, cerca de 74 mil euros deverão ser suportados pelos proprietários das habitações, mas o autarca explicou que o montante não será dividido pelo número de casas, mas sim num valor proporcional à distância que cada uma está da conduta, acrescentando que a empresa intermunicipal Tejo Ambiente, que tutela as redes de água e saneamento no concelho, deverá concluir os cálculos nas próximas semanas.
A possibilidade de a câmara comparticipar a despesa tem sido colocada pelos moradores, mas o presidente continua a rejeitar essa hipótese, afirmando que o município “não tem como comparticipar estas obras”. Contudo, Tiago Carrão admite que possam ser analisadas situações de carência económica e social pelos serviços municipais, explicando que esses apoios teriam de ser enquadrados numa perspectiva social e não como comparticipação da obra. “A água é um bem essencial e é importante que essas pessoas não fiquem sem acesso à água nas suas casas”, diz.
A porta-voz dos moradores, Eulália Fernandes, diz que esse assunto não chegou a ser discutido na reunião, apesar de terem sido identificadas pessoas com rendimentos baixos. “Uma das senhoras é uma viúva que vive sozinha e tem uma reforma de 800 euros. É incomportável ela e qualquer um de nós suportar uma despesa desta natureza”, diz. Das sete habitações, a porta-voz diz ainda que algumas não deverão avançar com a ligação devido a estarem desabitadas, ficando a hipótese da despesa a ser repartida por cinco ou até menos proprietários.

SMAS de Tomar prometeram ligação e não cumpriram
A revolta dos moradores com a necessidade de suportarem os custos da ligação à rede pública de água prende-se sobretudo com um alegado compromisso assumido, em 2008, pelos então Serviços Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS) de Tomar, entretanto extintos. Os moradores defendem que receberam nesse ano uma carta da EDP a informar que a empresa deixaria de poder assegurar o abastecimento de água às habitações e que os SMAS iriam proceder à ligação à rede pública até ao final desse ano. Segundo Eulália Fernandes, alguns moradores até chegaram a pagar, na altura, a ligação à rede de água.
O MIRANTE teve acesso à carta e confirma que no documento, datado de 2008, pode ler-se que “os SMAS de Tomar estão presentemente a providenciar as obras necessárias ao supra-referido abastecimento público, o qual, segundo as informações recolhidas, junto daqueles serviços, estará operacional e disponível” até 31 de Dezembro desse ano.
A EDP confirma a existência do envio da carta e adianta que a carta teve “o objectivo de alertar” os moradores para a “necessidade de contactar as entidades públicas responsáveis” para a ligação à rede pública, mas o presidente da câmara reafirma que, até ao momento, não foi encontrada documentação municipal que comprovasse a existência de um compromisso dos SMAS para realizar a ligação.
A possibilidade de terem de suportar novos encargos revolta as famílias, que consideram “injusto” terem de pagar por uma situação que, defendem, “deveria estar resolvida há muitos anos”. Eulália Fernandes acusa ainda os então SMAS e a câmara de “quererem sacudir a água ao capote” relativamente ao alegado compromisso.

Rupturas no abastecimento de água cessaram

Ao longo dos últimos meses, a infraestrutura da EDP que ainda assegura provisoriamente o abastecimento de água às habitações próximas da barragem de Castelo do Bode registou vários episódios de rupturas. Entre 22 e 24 de Junho, os moradores chegaram inclusive a ficar mais de 48 horas sem água, tal como O MIRANTE noticiou.
Em declarações a O MIRANTE, a EDP confirma que a rede tem várias décadas de existência e tem registado “rupturas pontuais, sobretudo em períodos de maior consumo”, sendo realizadas reparações sempre que ocorrem falhas. A empresa esclarece ainda que as interrupções não resultaram de qualquer decisão da EDP de cortar o abastecimento.
Há várias semanas que, segundo Eulália Fernandes, não se registam novas interrupções no abastecimento, destacando a moradora a postura da EDP durante este processo, que continua a assegurar gratuitamente o abastecimento às habitações, “sem obrigação nenhuma”. “Têm sido uns senhores no meio desta gente toda, pois são os que estão a fazer alguma coisa por nós”, afirma.

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