Maria e Guilherme querem provar que há futuro na agricultura
Maria Garcia e Guilherme Alves têm 22 anos e começaram por montar uma banca no Mercado Municipal de Almeirim. Querem reduzir intermediários, combater o desperdício e aproximar quem produz de quem compra. Para os dois jovens, a agricultura pode ser um negócio com futuro, mas é preciso mudar mentalidades.
Maria Garcia e Guilherme Alves têm apenas 22 anos, mas já sabem que o futuro que procuram passa pela agricultura. Criaram a GM Frutas & Legumes e começaram recentemente a vender no Mercado Municipal de Almeirim, onde perceberam que havia espaço para fazer crescer um projecto assente na venda directa, no aproveitamento da produção e numa relação de proximidade com os clientes. Maria é natural de Almeirim e Guilherme da Azinhaga, concelho da Golegã. A ideia nasceu da necessidade de escoar directamente parte daquilo que produzem, evitando uma cadeia de intermediários que, defendem, deixa pouca margem a quem trabalha a terra. Começaram com os produtos disponíveis e hoje já procuram diversificar a oferta.
O objectivo é controlar cada vez mais o percurso entre o campo e a mesa. A médio prazo admitem abrir uma loja ou comprar uma carrinha que lhes permita vender porta a porta em várias localidades. Já fizeram algumas entregas e perceberam que existe procura, sobretudo junto de pessoas mais velhas ou de quem vive em zonas onde uma deslocação às compras depende do automóvel. “Falta uma ponte entre os jovens que produzem e aqueles que trabalham na venda ao público”, dizem a O MIRANTE. Para Maria Garcia e Guilherme Alves, aproximar os dois lados permitiria valorizar o trabalho agrícola, melhorar o escoamento e garantir que uma maior parte do valor pago pelo consumidor chega a quem produz.
A experiência no campo também lhes mudou a percepção sobre aquilo que se encontra numa banca. Apanhar cebolas durante horas, exemplificam, é suficiente para perceber que por detrás de um produto aparentemente simples existem trabalho, custos e esforço que nem sempre são reconhecidos por quem compra.
Aproveitar antes de deitar fora
Outro dos pilares do projecto é o combate ao desperdício. Quando fruta ou legumes deixam de apresentar o aspecto ideal para venda, procuram transformá-los em produtos com maior duração. Pimentos dão origem a massa de pimentão, o alho pode ser transformado em massa de alho e já experimentaram fazer doce de tomate e de abóbora, licor de melão e sobremesas com fruta. “Antes do produto chegar ao desperdício fazemos de outra forma”, explicam. A solução permite-lhes reduzir perdas e retirar mais valor à produção, numa lógica que consideram também uma forma de empreendedorismo dentro da agricultura.
O Mercado Municipal de Almeirim ocupa, entretanto, um lugar especial no projecto. Maria cresceu a frequentar o espaço com os pais e recorda um tempo em que quase todas as bancas estavam ocupadas e comprar era também uma forma de conviver. Hoje, reconhece, o cenário é diferente. Os dois jovens dizem que falta dinamização e apontam problemas nas próprias instalações, nomeadamente a presença de pombos, que entram pelo telhado e pelas portas e deixam sujidade junto às bancas. Apesar disso, não pretendem abandonar o mercado mesmo que o negócio cresça. Entendem que esses espaços fazem parte das raízes das comunidades e receiam que o envelhecimento dos vendedores e a ausência de sucessores possam colocar em risco a sua continuidade.
Maria Garcia e Guilherme Alves rejeitam também a ideia de que escolher a agricultura significa necessariamente viver com dificuldades ou acumular dívidas. Para os dois, grande parte do problema está na dificuldade de escoamento e no número de intermediários entre o produtor e o consumidor. A venda directa não elimina os riscos. Já lhes aconteceu vender meloas que tinham provado e considerado excelentes, mas que acabaram por não corresponder às expectativas de alguns clientes. Assumem esses episódios como parte de uma actividade em que nem tudo pode ser controlado. O que lhes dá confiança são os consumidores que regressam todas as semanas e a relação que começa a criar-se em redor da sua banca.


