Praias fluviais continuam a ser refúgio para famílias mesmo no fim do Verão
Constância, Valada e Olhos d’Água continuam a atrair centenas de pessoas à procura de água fresca quando o calor aperta. O MIRANTE percorreu três praias fluviais da região e encontrou famílias que fazem dezenas de quilómetros para passar um dia junto ao rio.
Setembro já vai avançado no calendário, mas as famílias continuam a procurar o Ribatejo para aproveitar os últimos cartuxos do Verão. Com os termómetros a aproximarem-se dos 35 graus, as praias fluviais continuam a servir de refúgio a quem procura fugir ao calor sem fazer a viagem até ao litoral. O MIRANTE passou pelas praias fluviais de Constância, Valada e Olhos d’Água e encontrou três espaços com características diferentes, mas com capacidade de continuarem a atrair banhistas já perto do final da época balnear.
Em Constância, a segurança é um dos principais argumentos de quem escolhe passar o dia junto ao rio. Numa tarde de calor intenso, a praia estava preenchida por famílias e grupos de amigos que procuravam na água uma forma de suportar as temperaturas elevadas. Para Bernardo Ferreira, nadador-salvador há quatro anos naquele espaço, a configuração da zona balnear ajuda a explicar a preferência das famílias com crianças. Não existem fundões, correntes fortes ou pedras dentro da zona destinada aos banhistas, garante. Bernardo começou a trabalhar na praia quando esta abriu e, quatro épocas depois, faz um balanço positivo. Nunca teve de lidar com qualquer ocorrência grave e considera que o maior risco nem sequer está propriamente dentro de água. Ao seu lado está Santiago Santos, que se juntou à equipa há pouco mais de um mês, atraído pela possibilidade de trabalhar numa área que considera interessante. O calor fora do normal também se reflectiu na procura. Segundo Bernardo Ferreira, Junho foi o mês com maior afluência e este ano passaram pela praia mais pessoas do que na época anterior. Setembro continua a dar sinais de que a temporada ainda está longe de terminar, sobretudo nos dias em que as temperaturas disparam.
Foi precisamente o calor que levou a família Oliveira até à água. Vindos de Canelas, no concelho de Vila Nova de Gaia, Fábio Oliveira e a família estavam de férias, a viajar de carro e a conhecer novos lugares, quando encontraram a praia quase por acaso. A experiência acabou por superar as expectativas. Fábio considerou o espaço agradável e, sobretudo, seguro para os filhos, que passaram grande parte do dia dentro de água. Garantiu que vai recomendar o local a outras pessoas. Domingos Barbosa, que acompanhava a família, concordou com o balanço positivo, embora tenha deixado um reparo aos pedregulhos existentes no acesso à água.
Em Valada a diversão convive com o rio
Na Praia Fluvial de Valada, no concelho do Cartaxo, o cenário é diferente. As famílias são atraídas pelas actividades recreativas, com destaque para os insufláveis aquáticos, mas o Tejo não permite distracções. Os fundões existentes naquela zona são conhecidos e já estiveram associados a acidentes mortais. A segurança depende, por isso, do cumprimento das regras e de os banhistas permanecerem dentro da área delimitada. Foi pelas actividades para crianças que a família Graça viajou desde a Amora, no distrito de Setúbal. Inês pesquisou praias onde a filha pudesse ter mais do que simplesmente um espaço para nadar e encontrou em Valada aquilo que procurava. Margarida, a filha do casal, não escondia o entusiasmo. Depois de andar nos insufláveis, enrolada numa toalha nos braços da mãe, foi a primeira a querer falar com O MIRANTE. Disse que estava a divertir-se muito e que gostava da praia. O sorriso da criança acabava por explicar boa parte da razão pela qual muitas famílias fazem quilómetros para chegar àquele troço do Tejo. Os insufláveis aquáticos fazem parte da oferta da SóRio, empresa que explora comercialmente o espaço. O acesso pode ser adquirido em diferentes modalidades e os utilizadores das estruturas na água têm obrigatoriamente de usar colete. Também quem não utiliza os insufláveis pode solicitar um equipamento de flutuação. Cátia Teixeira, gerente da SóRio, confirma que a afluência tem sido elevada, particularmente nos dias mais quentes. A empresa procura reduzir os riscos associados ao rio através da delimitação, com cordas, de uma zona considerada segura. Os monitores têm formação em suporte básico de vida e salvamento e mantêm vigilância sobre os utilizadores.
A perigosidade do rio voltou a ficar evidente poucos dias depois de O MIRANTE ter estado em reportagem no local. No sábado, 5 de Setembro, desapareceu nas águas um homem de 43 anos. O corpo viria a ser localizado na segunda-feira, 7 de Setembro, depois de buscas que mobilizaram bombeiros de várias corporações, mergulhadores, embarcações e outros meios de socorro do Cartaxo, Azambuja e Alpiarça. Não é a primeira tragédia naquela zona. Em 2021, dois jovens de 15 anos morreram no Tejo. Os fundões são zonas onde a profundidade do rio aumenta de forma súbita. Quem tem os pés assentes no fundo pode, num instante, deixar de o alcançar. As alterações no movimento da água podem ainda tornar a saída mais difícil.
Olhos d’Água mantém a tranquilidade como marca
Na Praia Fluvial dos Olhos d’Água, no concelho de Alcanena, o ambiente volta a mudar. Aqui, a palavra que mais se ouve entre os visitantes é tranquilidade. O espaço amplo, a zona de merendas e a sensação de segurança levam muitas famílias a regressar ano após ano. Bruno Coutinho e Filipa Bernardo, de Alcobaça, conheceram este Verão a praia pela primeira vez, acompanhados pelo filho Moisés, de nove anos. Habituados às praias marítimas da costa, decidiram experimentar um dia diferente. Levavam até um camaroeiro e um balde para o filho poder observar os animais do rio, embora tenham descoberto que não é permitida a pesca naquele local. A primeira impressão foi positiva, embora Bruno considere que há margem para melhorar a manutenção de alguma vegetação e criar mais zonas relvadas.
Há também quem faça dos Olhos d’Água uma tradição. Maria Vitória Gambino, 77 anos, natural da Zibreira, concelho de Torres Novas, vive no Canadá há mais de seis décadas e regressa todos os anos a Portugal. A passagem pela praia, juntamente com o marido e o filho, tornou-se obrigatória. Desta vez encontrou melhorias que lhe agradaram, sobretudo na zona de merendas. O parque infantil e outras valências acrescentadas ao longo dos anos são, na sua opinião, razões para o espaço continuar a conquistar visitantes. A sensação de tranquilidade é partilhada por quem passa o Verão de olhos postos na água. Miguel Pimenta, 21 anos, cumpre a segunda época como nadador-salvador nos Olhos d’Água, enquanto Miguel Luís, 19, está no primeiro ano. Ambos consideram a praia pouco problemática, embora exista uma zona mais profunda que obriga a atenção redobrada, principalmente com as crianças. Os saltos da ponte são outro comportamento que os nadadores-salvadores procuram travar rapidamente. A época registou, ainda assim, duas situações médicas mais sérias: uma pessoa sofreu um AVC junto à casa de banho e um homem perdeu os sentidos e caiu dentro de água. Fora esses episódios, os nadadores-salvadores descrevem uma temporada calma, com uma afluência próxima da registada no ano anterior.
Uma praia procurada pela segurança das crianças
A ausência de fundões, correntes fortes e pedras na zona de banhos faz da Praia Fluvial de Constância uma das opções preferidas das famílias. Os nadadores-salvadores não registaram situações graves nas quatro épocas de funcionamento, mas alertam para crianças deixadas momentaneamente sem acompanhamento. O calor intenso fez aumentar a afluência este ano e Setembro continua a levar muitos banhistas até à praia.
Tranquilidade e espaço para passar o dia em família
A Praia Fluvial dos Olhos d’Água destaca-se pela tranquilidade, organização e condições para famílias. A zona de merendas, o parque infantil e as melhorias realizadas ao longo dos anos são valorizadas pelos visitantes. Os nadadores-salvadores apontam apenas uma zona mais profunda como merecedora de maior atenção, sobretudo no caso das crianças, e consideram a época balnear globalmente tranquila.
Diversão dentro das cordas, perigo fora delas
Os insufláveis aquáticos são uma das grandes atracções da Praia Fluvial de Valada e levam famílias de vários pontos do país até ao Tejo. O rio, contudo, tem fundões e exige cuidados redobrados. A SóRio delimita uma zona de segurança, disponibiliza coletes e mantém monitores com formação em salvamento. O desaparecimento e a morte de um homem de 43 anos em Setembro voltou a recordar os riscos de entrar no rio fora das áreas aconselhadas.


