Diagnóstico de linfoma já não é uma sentença de morte
O diagnóstico de linfoma deixou de ser, em muitos casos, uma sentença de morte. No âmbito do Dia Mundial do Linfoma, que se assinala a 15 de Setembro, O MIRANTE esteve à conversa com a hematologista Mariana Leal Fernandes sobre os avanços no diagnóstico e tratamento de uma doença que hoje dispõe de terapêuticas capazes de curar alguns casos e controlar outros durante anos.
Receber um diagnóstico de linfoma já não significa receber uma sentença de morte. A evolução dos métodos de diagnóstico e, sobretudo, dos tratamentos permite actualmente curar alguns tipos de linfoma e controlar durante largos períodos outros que podem voltar a surgir. A mensagem é deixada por Mariana Leal Fernandes, assistente hospitalar de hematologia no hospital CUF Santarém e no Hospital de Santo André, em Leiria, a propósito do Dia Mundial do Linfoma. “De facto, não é” uma sentença de morte, afirma a médica, explicando que existem linfomas «potencialmente curáveis» e outros, designados indolentes, que não são considerados curáveis, mas que podem ser controlados com as armas terapêuticas actualmente disponíveis.
A hematologista salienta que cada doente e cada doença são diferentes, mas considera que há hoje uma perspectiva de esperança muito maior. A área dos linfomas é uma das que mais tem beneficiado da inovação na hematologia, com novos tratamentos e ensaios clínicos em curso em várias partes do mundo. Os linfomas são cancros do sangue que têm origem nos linfócitos, células que fazem parte do sistema imunitário. Existem dezenas de tipos de linfoma, com características distintas, e estas células podem formar massas tumorais, sobretudo nos gânglios linfáticos e na medula óssea. Um dos sinais mais conhecidos é o aparecimento de gânglios aumentados, nomeadamente no pescoço, axilas ou virilhas. Mas os sintomas podem ser muito variados, uma vez que as células malignas podem alojar-se em diferentes órgãos.
Entre os sinais a que se deve estar atento estão alguns sintomas gerais, conhecidos como sintomas B, embora não sejam exclusivos dos linfomas. A médica aponta uma perda de peso significativa, equivalente a cerca de 10% do peso corporal em três meses, transpiração nocturna intensa, ao ponto de obrigar a trocar os lençóis, e febres baixas, por vezes diárias, sem que exista uma infecção que as justifique.
Quando o linfoma afecta a medula óssea podem surgir alterações na produção das células do sangue, levando, por exemplo, a anemia ou a uma diminuição das plaquetas. O resultado pode ser cansaço ou, menos frequentemente, hemorragias. A diversidade de sintomas pode dificultar a identificação da doença. Alguns linfomas que afectam o tubo digestivo, por exemplo, podem provocar dores abdominais ou enfartamento, sintomas semelhantes aos de uma gastrite. Também o fígado e o baço podem aumentar de volume quando são afectados, provocando uma sensação de enfartamento precoce depois das refeições. São, no entanto, doenças globalmente raras, sublinha Mariana Leal Fernandes.
Diagnóstico mais preciso
Uma das áreas em que a medicina mais evoluiu foi precisamente no diagnóstico. Para identificar um linfoma é necessária uma biópsia do local afectado, que pode ser um gânglio ou outro órgão, permitindo determinar exactamente que tipo de linfoma está presente. Hoje é também possível identificar alterações a nível molecular nas células tumorais que podem constituir alvos para tratamentos específicos. Depois de identificado o tipo de linfoma, é necessário perceber onde está localizada a doença. O estadiamento é fundamental e actualmente existem exames muito específicos, como o PET, que permitem determinar com maior precisão os locais onde o tumor está.
Também no tratamento a evolução foi significativa. Durante muitos anos, a principal arma terapêutica era a quimioterapia, por vezes associada à radioterapia. Actualmente existem outras terapêuticas, incluindo terapias dirigidas a alvos específicos, que permitem melhorar as respostas ao tratamento, a sobrevivência e a qualidade de vida, com menos sintomas e efeitos adversos do que algumas abordagens utilizadas no passado.
CAR-T mudou o paradigma
Entre as inovações que mais têm alterado o tratamento de alguns linfomas está a terapia com células CAR-T, que já está disponível em Portugal. Trata-se de uma terapêutica personalizada que utiliza células T do próprio doente. As células são recolhidas, modificadas em laboratório para reconhecer e atacar as células tumorais e depois reinfundidas no doente, onde desencadeiam uma resposta do sistema imunitário contra o tumor. “As respostas a estes tratamentos têm sido extraordinárias”, afirma Mariana Leal Fernandes.
A CAR-T não está, contudo, indicada para todos os doentes. É utilizada sobretudo em alguns linfomas mais agressivos, como o linfoma B difuso de grandes células e o linfoma do manto. Habitualmente não é utilizada como primeira linha de tratamento: os doentes começam por ser tratados com as terapêuticas convencionais e a CAR-T pode ser considerada quando a doença não responde ao primeiro tratamento ou quando ocorre uma recidiva.
Outra das terapêuticas inovadoras disponíveis é a dos anticorpos bispecíficos, que actuam sobre alvos identificados nas células tumorais. A escolha do tratamento depende, entre outros factores, da idade, de outras doenças que o doente tenha e do seu estado geral, uma vez que nem todos os doentes são candidatos às mesmas terapêuticas. Também estes tratamentos estão disponíveis em Portugal através do Serviço Nacional de Saúde.
As taxas de sobrevivência não podem ser generalizadas para todos os linfomas, uma vez que variam muito consoante o tipo de doença. Um dos exemplos apontados pela médica é o linfoma de Hodgkin, relativamente frequente em pessoas jovens, que apresenta taxas de sobrevivência e de cura superiores a 95 por cento. No linfoma B difuso de grandes células, cerca de 60 a 70 por cento dos doentes ficam curados com a primeira linha de tratamento com quimioterapia. A realidade era bastante diferente há alguns anos, sobretudo nos casos mais agressivos, que estavam associados a sobrevivências muito curtas.
Infecções e complicações continuam a ser desafios
Apesar dos avanços, o tratamento dos linfomas continua a apresentar desafios. Um dos principais está relacionado com a gestão das complicações provocadas pela própria doença e pelos tratamentos. As infecções constituem uma das complicações mais importantes e difíceis de controlar. Há também doentes submetidos a terapêuticas inovadoras cuja medula óssea fica afectada e demora a recuperar, podendo ser necessárias transfusões. As infecções recorrentes e as aplasias após os tratamentos continuam, por isso, a ser desafios para os médicos.
A mensagem de Mariana Leal Fernandes para quem acaba de receber um diagnóstico de linfoma é de esperança. “O mais importante é que nós já percebemos e já identificámos o que é que se passava de errado com essa pessoa”, afirma. E sublinha que existe tratamento e uma equipa de profissionais empenhada em ajudar o doente a ultrapassar esta fase. Aos próprios doentes cabe também aprender a lidar com a doença e colaborar com os médicos ao longo do processo terapêutico.
Transplante continua a ser opção
Apesar dos avanços, o transplante de medula óssea continua a ser utilizado em algumas situações, sobretudo perante determinados linfomas agressivos. O transplante permite recorrer a quimioterapia muito intensiva, capaz de eliminar não apenas as células tumorais mas também as células saudáveis da medula óssea. Após esse tratamento, o doente pode ficar sem defesas, com anemia grave e necessidade de transfusões. O transplante permite então reconstituir a medula e recuperar a produção normal das células do sangue e o sistema imunitário.


