Marco Branco é fisioterapeuta: “A dor não devia fazer parte da nossa vida”
Há quem passe dias, meses ou até anos a conviver com dores, recorrendo primeiro à medicação e procurando ajuda especializada apenas quando o problema já interfere com o sono, o trabalho ou as tarefas mais simples. A propósito do Dia Mundial da Fisioterapia, o fisioterapeuta Marco Branco defende que é preciso mudar mentalidades, apostar mais na prevenção e perceber que tratar não é apenas fazer desaparecer a dor.
A dor nas costas aparece, o comprimido alivia e a vida continua. Uns dias depois, regressa. Toma-se nova medicação, espera-se que passe e adia-se uma avaliação especializada. O ciclo é conhecido de Marco Branco, fisioterapeuta de Benavente, que considera que ainda há muitas pessoas, sobretudo entre as gerações mais velhas, habituadas a aceitar a dor como parte natural da vida. “Não se deixem andar com dores tanto tempo” é a principal mensagem que partilha a propósito do Dia Mundial da Fisioterapia, assinalado a 8 de Setembro. Para o fisioterapeuta, procurar ajuda médica ou recorrer directamente a um fisioterapeuta pode evitar que situações tratáveis se arrastem e acabem por condicionar o quotidiano.
Marco Branco, 38 anos, concluiu o curso em 2009, na Escola Superior de Saúde de Alcoitão, e fez posteriormente várias pós-graduações. Trabalhou durante dez anos no Hospital da Luz, em Lisboa, e, depois da pandemia de Covid-19, decidiu aproximar a vida profissional de Benavente, terra onde nasceu e sempre viveu. Actualmente divide a actividade entre a Santa Casa da Misericórdia de Benavente e a clínica OliveiraSaúde, esta última em part-time.
É nesse contacto diário com os doentes que identifica uma diferença geracional na forma de encarar a dor. “As pessoas mais velhas lidam mais com a dor. Tentam aguentar a dor ao máximo, porque vai passar”, afirma. Entre os mais novos, nota já maior preocupação com a saúde e alguma vontade de prevenir problemas antes de estes se agravarem.
Um dos obstáculos à reabilitação começa, por vezes, antes mesmo de o doente chegar ao fisioterapeuta. Marco Branco aponta o recurso imediato à medicação como uma prática frequente, capaz de aliviar temporariamente os sintomas sem resolver necessariamente a origem do problema. “Vão primeiro à farmácia e, se for preciso, gastam 100 euros. Andam três, quatro ou cinco dias sem dor, mas depois a dor volta e tomam mais medicação”, explica, defendendo que uma avaliação adequada pode permitir perceber o que está por detrás das queixas e definir o tratamento necessário.
Três pilares fundamentais: sono, alimentação e exercício físico
Na sua experiência em Benavente, a dor lombar continua a estar entre os problemas mais frequentes. A ela junta-se a dor no ombro, que relaciona com posturas mantidas durante demasiado tempo, trabalhos repetitivos, muitas horas ao computador e falta de exercício físico. Mas a dor, lembra, raramente fica confinada ao local onde se manifesta. “Penso que a dor física leva à dor psicológica e o contrário também”, afirma. Há pessoas que apresentam queixas físicas sem que seja encontrada uma causa aparente e casos em que a persistência da dor interfere com o descanso e inicia uma sucessão de outros problemas.
Uma pessoa que passa várias noites sem conseguir dormir por causa da dor, exemplifica, pode depois sentir falta de paciência no trabalho e ver afectado o seu equilíbrio emocional. “Há uma bola que, se não quebrarmos o ciclo, depois é complicado”, resume.
Marco Branco insiste em três pilares que considera fundamentais: sono, alimentação e exercício físico. É neste último campo que acredita que poderá existir uma evolução significativa nos próximos anos, embora alerte também para a necessidade de cada profissional actuar dentro da sua formação e competências. A prevenção, contudo, continua longe de ser regra. Mesmo entre desportistas ou pessoas que já sabem que alguns problemas tendem a reaparecer, o fisioterapeuta encontra pouca procura de acompanhamento preventivo.
“Ainda é muito na parte reabilitativa. Sinto que há pouca gente a fazer prevenção de lesão”, afirma. A maioria chega quando a dor aparece, depois de uma cirurgia, uma fractura ou perante uma limitação física que já condiciona os movimentos. E fisioterapia não é sinónimo apenas de tratar dores. Marco Branco lembra que a profissão abrange áreas tão diferentes como a neurologia, com a recuperação de pessoas depois de acidentes vasculares cerebrais ou traumatismos crânio-encefálicos, a fisioterapia respiratória, a pediatria, o desporto ou a saúde da mulher.
Há doentes, sublinha, que não sentem dor, mas perderam movimentos ou capacidades e enfrentam processos de recuperação prolongados. Nesses casos, considera essencial uma abordagem multidisciplinar, conjugando o trabalho de fisioterapeutas, médicos, psicólogos e enfermeiros. O acesso ao tratamento é, porém, outro problema. Marco Branco identifica dois obstáculos principais. Um deles é o tempo de espera no sistema público e, outro, os custos para quem procura acompanhamento no privado.
Aumento da procura e tratamentos dispendiosos
Segundo explica, a procura de fisioterapia através de credencial aumentou, mas também cresceram os tempos de espera. No sector privado, o problema coloca-se de outra forma. Há situações em que o fisioterapeuta considera necessários dez tratamentos, mas é obrigado a reduzir o número porque o doente não consegue suportar financeiramente o plano completo. É uma realidade que ajuda a explicar porque algumas pessoas continuam a conviver com limitações durante mais tempo do que seria desejável.
Marco Branco defende também uma maior valorização da profissão, sobretudo no sector público e nas instituições particulares de solidariedade social, onde considera que as remunerações ficam aquém das responsabilidades e formação exigidas. Apesar das dificuldades, é na recuperação dos doentes que encontra uma das principais recompensas. Pessoas que chegam muito limitadas e que, ao longo de processos prolongados, recuperam capacidades acabam muitas vezes por criar uma relação de confiança com quem as acompanha. “São pessoas que acreditam no nosso trabalho porque vêem as melhorias. Julgo que isso também é gratificante”, afirma. No final, regressa ao ponto de partida; a dor não deve ser encarada como companhia inevitável da idade, do trabalho ou da rotina.


