Sociedade | 21-09-2026 18:00

José António Carapinha: o milho enche os reboques mas não garante rendimento a quem vive da agricultura

José António Carapinha: o milho enche os reboques mas não garante rendimento a quem vive da agricultura
Tiago Zala, Fanã e José António Carapinha apanharam o milho na Chamusca após meses de trabalho - foto O MIRANTE

A apanha do milho é a última etapa de meses de trabalho, mas também o momento em que se percebe se a campanha compensa. José António Carapinha, agricultor da Chamusca desde muito novo, acompanha a colheita de centenas de hectares numa lezíria cada vez mais mecanizada, mais concentrada em poucas culturas e com menos gente para trabalhar. Entre a herança do avô, António Carapinha, a ligação dos filhos André e Tiago ao campo e a incerteza dos preços pagos ao produtor, olha para o futuro com preocupação e defende que sem mais rentabilidade, melhor ordenamento das terras e condições para fixar novas gerações será difícil trazer os jovens de volta à agricultura.

Numa quarta-feira à tarde, O MIRANTE acompanha José António Carapinha numa jornada de apanha do milho na Chamusca. Em pouco mais de duas horas, cerca de cinco hectares dão mais de meia centena de toneladas, numa operação em que a tecnologia reduz o esforço mas não elimina a principal incerteza de quem vive da terra: saber quanto vai receber no final. Criado no trabalho com o avô António Carapinha, pais da sua mãe, Balbina, olha para uma lezíria muito diferente da que conheceu e teme que faltem jovens para lhe dar continuidade.
Naquela tarde a ceifeira-debulhadora avança pelo milheiral. À frente, os adaptadores próprios para o milho agarram as plantas e fazem desaparecer fileiras inteiras num movimento contínuo. Dentro da cabine, Tiago, mais conhecido por “Zala”, conduz com a naturalidade de quem conhece a máquina e o terreno. Do lado de fora ficam os caules, os carolos e uma nuvem de pó; no depósito acumula-se o grão que, pouco depois, passa para os reboques. José António Carapinha acompanha a operação e vai fazendo contas. Naqueles cerca de cinco hectares, a colheita ultrapassa as 50 toneladas em pouco mais de duas horas. A rapidez, porém, termina quando o milho sai do campo. A partir daí entram outras variáveis: a humidade, a qualidade do grão, o preço e o destino da produção.
O milho segue para a Cadova, na Chamusca, e é durante as viagens entre os campos e o secador que o agricultor explica o processo ao repórter. Na altura da colheita procura-se um grão firme, bem desenvolvido e com a coloração característica da maturação. O “cabelo” da espiga já seco e escuro é outro sinal de que se aproxima a altura certa. Depois, no secador, são feitas as medições. José António sublinha que os equipamentos estão certificados e aferidos e que a classificação é decisiva, porque pode separar milho de qualidade de produto destinado a ração. A diferença pode chegar, diz, a cerca de 20 euros por tonelada. Este ano, até agora, a maior parte da produção que entrega está a seguir para qualidade, um sinal positivo numa campanha que ainda vai longe do fim. José António fala em cerca de 280 hectares de milho e admite que ainda falta colher mais de metade.
Para quem vê de fora, a colheita parece a recompensa de meses de trabalho. Para o agricultor, é também o momento em que percebe se as contas podem ou não fechar. “É a parte final, é saber”, resume José António Carapinha. Quando semeia conhece grande parte dos custos, mas não sabe a que preço vai vender. “Com o milho nunca tem preço certo. No caso dos cereais nunca tem um preço definido. O mercado é livre”. Combustíveis, factores de produção, água e mão-de-obra entram nas contas antes de haver receita. Quando chega a venda, o mercado dita o valor. E há anos em que pode haver prejuízo. Nesses casos resta esperar que a colheita seguinte seja melhor. Só que nada o garante. O tempo é outro risco. José António recorda que no ano passado houve produções que nem chegaram a ser colhidas por causa das chuvas.
Terminado o milho, o trabalho não acaba. É preciso limpar os terrenos, retirar as fitas de rega e encaminhar os materiais para reciclagem com as respectivas guias. O agricultor diz que hoje há regras apertadas e maior preocupação ambiental, embora a logística nem sempre acompanhe as necessidades de quem está no campo.

A lezíria que perde diversidade
José António Carapinha conhece estas terras há praticamente uma vida. Diz que está ligado à agricultura “desde os 13 meses”, uma forma de resumir uma infância passada num meio onde o trabalho agrícola faz parte da rotina familiar. O pai, José Paulino, trabalha nas obras e só mais tarde, já reformado, se dedica ao campo. É a mãe, Balbina Carapinha, quem trabalha com o avô António Carapinha, nome que marca a família e explica por que José António fica conhecido pelo apelido materno. Não apresenta a agricultura como uma herança imposta. Diz que foi criado naquele meio e que gostou sempre daquilo. Estuda até ao 12.º ano numa área ligada à agricultura e, quando o avô adoece, já está preparado para assumir responsabilidades. Aos 18 anos, com António Carapinha cada vez mais debilitado, o neto está definitivamente envolvido na exploração.
As memórias de infância ajudam a perceber a distância entre esse tempo e a agricultura actual. José António conta que ainda na escola primária já ganhava dinheiro a regar. Recorda o trabalho nas regas, nas vinhas e nas searas de tomate, num tempo em que muitas tarefas eram feitas à enxada e dependiam de equipas numerosas. As férias escolares serviam para trabalhar. Até na tropa procurava uma solução que lhe permitisse passar mais tempo em casa e continuar ligado aos campos.
Quase quatro décadas depois, vê uma lezíria mais mecanizada, mas também menos diversa. “Está muito diferente, está mais monocultura”, diz. Vinhas, olivais e tomate vão perdendo espaço, muito por falta de mão-de-obra e pelo desaparecimento de estruturas que sustentavam essas culturas. Quando uma adega fecha ou uma unidade deixa de receber determinada produção, todo o sistema à volta se ressente. O tomate, os brócolos ou os pimentos dependem ainda dos contratos e da capacidade das fábricas. Não basta querer produzir.
Gostava de ver mais jovens ligados ao campo e à lezíria ribatejana, mas não lhes pinta um cenário fácil. “Neste momento vejo-os com pouco futuro”, afirma. Para ele, uma das mudanças essenciais passa pelo emparcelamento e por um melhor ordenamento das explorações. Trabalhar uma parcela aqui e outra acolá obriga a deslocações constantes de máquinas, aumenta consumos, tempo e custos. Quando a rentabilidade é apertada, cada deslocação pesa, termina.

Uma família habituada à linguagem do campo

O nome Carapinha atravessa várias gerações ligadas à agricultura e José António mantém com os filhos André e Tiago uma relação de cumplicidade que também passa pelo campo. Na tarde em que O MIRANTE acompanha a apanha, o filho André, que estuda Agronomia, aparece montado no seu cavalo para acompanhar o teatro das operações.
José António Carapinha causa, à primeira impressão, a ideia de ser um homem reservado. A conversa desfaz rapidamente essa imagem. É afável, correcto no trato, brinca com facilidade, tem um sentido de humor apurado e está sempre disponível para ajudar. Fala do campo sem romantizar as dificuldades e conta episódios do passado sem transformar a infância de trabalho numa lição para os outros. O que gostaria de ver é uma nova geração a aproximar-se da agricultura e da lezíria, mas sabe que isso só acontece se houver condições para viver da terra. Depois da labuta diária, no campo ficam as linhas cortadas; para José António ficam ainda milho para classificar, contas para fechar, terrenos para limpar e outra campanha para preparar. A agricultura vive desse ciclo. O receio é que, no futuro, falte quem queira voltar ao início e semear outra vez.

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