Tiradores de cortiça começam a descascar sobreiros cada vez mais cedo para os proteger do calor
Simão Fortio começou a tirar cortiça aos 14 anos e, quatro décadas depois, continua a encontrar trabalho numa floresta onde a actividade “nunca acaba”. Na Branca, concelho de Coruche, lidera um rancho onde ainda há jovens a aprender um ofício que considera impossível de substituir por máquinas.
Quando Simão Fortio começou a tirar cortiça, há quase quatro décadas, o calendário era outro. A campanha arrancava por volta de 15 de Julho, atravessava Agosto e o calor fazia parte dos dias passados no montado. Hoje, aos 52 anos, o empresário e tirador de cortiça natural da Branca, concelho de Coruche, diz que continuar a trabalhar da mesma maneira é colocar os sobreiros em risco. “O clima mudou muito e nós cada vez temos de nos adaptar mais”, afirma.
A mudança, explica, já obrigou a antecipar a tiragem. “Temos de começar a mentalizar-nos de que temos de começar a tirar a cortiça em Maio e acabar em Julho”, alerta. A razão está nas temperaturas que se fazem sentir no pico do Verão. Para Simão Fortio, Agosto deixou de ser um mês adequado para despir os sobreiros. “Se queremos que os sobreiros não sofram, não podemos tirar a cortiça em Agosto. As temperaturas são muito altas e isso acaba com o sobreiro”, sustenta.
Nem a chuva de Maio, muitas vezes apontada como obstáculo, é para o tirador um problema incontornável. O essencial é não trabalhar quando está a chover e acompanhar as previsões. Se chover seis ou sete horas depois de retirada a cortiça diz, a árvore não é prejudicada.
Sócio-gerente das empresas Raiz Aprendiz e Cenário de Habilidades, que gere também com o irmão, Hélder Fortio, que é presidente da Junta de Freguesia da Branca, Simão trabalha durante todo o ano na floresta. Quando acaba a cortiça chegam os desbastes, as podas de formação e os trabalhos em pinheiros e sobreiros. “Na floresta o trabalho nunca acaba”, resume.
Uma profissão em que se aprende a olhar para a árvore
O ofício entrou-lhe cedo na vida. Aos 14 anos, depois de deixar a escola, foi trabalhar com o pai. No primeiro ano começou como molheiro e pouco depois passou a aprender a tirar cortiça. Naquele tempo, recorda, as escolhas eram poucas. “Não tínhamos outra hipótese se não trabalhar. Tínhamos de trabalhar e tínhamos de trabalhar bem”, conta.
Quase 40 anos de experiência não lhe retiraram a convicção de que a primeira condição para ser um bom tirador não é a força, mas o gosto pelo trabalho. Depois vem a paciência. “Não é num ano que se aprende”, explica. Um tirador precisa de dois, três ou quatro anos para ganhar experiência e, mesmo assim, o tempo não chega se não houver vontade de aprender.
A dificuldade começa na própria árvore. “Há biliões de sobreiros no mundo e nenhum é igual ao outro. Temos de ter paciência e saber olhar para a árvore”, diz. É essa leitura que permite perceber onde cortar e até onde avançar sem provocar feridas. Um erro pode partir a cortiça, transformar uma prancha em pedaços e, sobretudo, fragilizar o sobreiro. “Cada vez há mais doenças e cada vez morrem mais sobreiros. Precisamos deles, precisamos do montado e precisamos de o preservar”, alerta.
A tiragem continua também a ser um dos trabalhos mais exigentes da floresta. A sua equipa começa actualmente às seis da manhã e termina às duas da tarde para evitar as horas de maior calor. A primeira semana da campanha é, segundo Simão Fortio, a mais difícil, até o corpo voltar a adaptar-se ao esforço e à necessidade constante de beber água.
A dureza dos dias é compensada pelo ambiente entre os trabalhadores. “Somos rapaziada nova e andamos todo o dia na brincadeira uns com os outros. Uns cantam, outros riem-se e isso ajuda”, conta. A empresa tem cerca de 30 trabalhadores e, durante a campanha deste ano, chegou aos 33 ou 34 elementos com a entrada de alguns trabalhadores de fora.
Chuva criou expectativas, mas calor travou a cortiça
Este ano, a equipa trabalhou apenas na Companhia das Lezírias, onde o tirador diz que tudo corre sempre bem e que existe uma organização que permite mudar de zona quando a cortiça não está em condições de ser retirada e regressar mais tarde. Apesar das expectativas criadas pela chuva, a campanha acabou por ficar abaixo do esperado. Uma sequência de dias com temperaturas próximas dos 40 graus, no final de Junho e no início de Julho, acabou por fazer a diferença. Em muitas herdades, afirma, a cortiça “deixou de dar” e teve de ficar na árvore. “Uma coisa é um dia ou dois de 40 graus, outra foram sete dias seguidos de 40 graus”, salienta.
As consequências dos anos de seca continuam igualmente visíveis na cortiça agora retirada. Segundo Simão Fortio, quatro anos de seca extrema impediram-na de se desenvolver normalmente, afectando a espessura, a massa e os poros. O empresário acredita que a situação poderá melhorar à medida que começar a ser retirada cortiça formada em anos mais favoráveis. Na sua perspectiva, já no próximo ano vai verificar-se uma melhoria da qualidade que poderá também ajudar a inverter os preços, que considera baixos nos últimos anos.
Há ainda árvores que chegam à campanha demasiado frágeis. Nesses casos, os tiradores recuam e deixam a cortiça no sobreiro para lhe dar mais tempo de recuperação. “Talvez daqui por nove anos dê. Se der, dá. Se não der, os donos têm de se mentalizar que têm de ficar por ali se querem tirar algum”, afirma.
Na Branca ainda aparecem jovens interessados no ofício
Ao contrário do que acontece noutros pontos do país, Simão Fortio ainda consegue encontrar jovens interessados em aprender. O próprio filho, de 26 anos, tira cortiça há cinco e o sobrinho, de 19, já é tirador. “Todos os anos vai aparecendo um ou outro que quer aprender”, conta. Os que ainda não estão preparados começam como molheiros e vão acompanhando o trabalho.
Nem todos vivem a mesma realidade. O Alentejo, segundo refere, é um exemplo de uma região onde é cada vez mais difícil encontrar novos tiradores. Com os mais velhos a abandonar a profissão, teme que o conhecimento se perca. E não acredita que a tecnologia consiga ocupar esse lugar. “Ser substituída por máquinas é impossível. Não vejo máquina nenhuma que substitua a tiragem da cortiça”, afirma. Para o tirador da Branca, há trabalhos que continuam a depender de olhos treinados, sensibilidade e experiência acumulada árvore após árvore.
Mais apoio à floresta e incentivos para cativar jovens para o montado
Na pele de empresário, Simão Fortio defende que o Estado deve assumir um papel mais activo na preservação do montado e na criação de condições para que os mais novos conheçam o trabalho florestal. Se o montado de sobro é um símbolo do país, argumenta, deveriam existir iniciativas que levassem jovens ao terreno durante o Verão para acompanharem uma campanha de cortiça. “No meio de cem, há-de haver dois ou três que vão gostar, que vão experimentar e se calhar ficam”, diz, defendendo que Estado, escolas ou câmaras podem organizar esse contacto.
O empresário considera também insuficiente a manutenção de muitas propriedades, acusando alguns proprietários de apenas se lembrarem do sobreiro quando chega a altura de retirar cortiça, de nove em nove anos. Defende igualmente que uma parte do valor actualmente entregue ao Estado pelos proprietários deveria ficar obrigatoriamente destinada à manutenção da floresta. Usando como exemplo uma tributação de 40%, propõe que metade desse valor seja pago ao Estado e que os restantes 20% tenham de ser reinvestidos pelo proprietário no montado. “Se isto acontecesse, íamos melhorar muito o montado português”, sustenta.
O problema não se limita ao sobreiro. Simão Fortio chama também a atenção para os pinheiros-bravo e manso e para a necessidade de intervir quando as árvores ainda são novas. No caso do pinheiro bravo, destaca a rapidez de crescimento e considera essencial orientar e desbastar as árvores a tempo. Se a intervenção chegar demasiado tarde, explica, os pinheiros crescem tortos e a madeira perde valor. Também a produção de pinhas sofreu com os anos de seca. Simão Fortio acredita, contudo, que os sinais começam a mudar e admite uma recuperação nos próximos anos, embora sem regressar aos níveis de outros tempos. Apesar das dificuldades, não vê falta de trabalho no horizonte. “Na floresta, se nós quisermos trabalhar, não vai faltar trabalho”, afirma.


