Sociedade | 23-09-2026 12:00

Patrícia Batista responde com trabalho a quem acha que uma mulher presidente é menos competente

Patrícia Batista responde com trabalho a quem acha que uma mulher presidente é menos competente
Patrícia Batista está a cumprir o primeiro mandato como presidente da União de Freguesias de Brogueira, Parceiros de Igreja e Alcorochel - foto O MIRANTE

Aos 35 anos, Patrícia Batista cumpre o primeiro mandato como presidente da União de Freguesias de Brogueira, Parceiros de Igreja e Alcorochel, mas está longe de ser estreante na vida autárquica. Enfermeira no Hospital de Torres Novas, entrou para o executivo da antiga freguesia de Parceiros de Igreja aos 19 anos e conhece por dentro uma realidade onde a solidão dos idosos, a falta de respostas para os jovens, as estradas degradadas, o saneamento e a limpeza continuam a marcar o quotidiano. Diz que não está na política pelo poder e quer deixar uma marca mais humana e próxima das pessoas.

Patrícia Batista tinha 19 anos quando integrou pela primeira vez um executivo de uma junta de freguesia. Cresceu em Parceiros de São João, concelho de Torres Novas, numa família ligada ao comércio local, envolveu-se nas festas de Parceiros de Igreja e acabou por entrar na vida autárquica. Foi secretária da antiga freguesia e, depois, da união de freguesias. Aos 35 anos assumiu a presidência de um território rural e envelhecido onde, diz, a junta é muitas vezes a primeira porta a que as pessoas batem.
Continua a trabalhar como enfermeira e há dias em que soma jornadas de 16 horas. Tanto prepara relatórios e orçamentos como ajuda os funcionários a regar, pintar ou limpar. O carro, com mais de 300 mil quilómetros, conta, é na maioria das vezes o seu gabinete. É nele que percorre as diferentes localidades da união de freguesias e chega à porta de quem precisa. Tanto vai a casa de um freguês buscar documentos para tratar de uma prova de vida como entra noutra para fazer um penso ou avaliar uma ferida. A fronteira entre a presidente de junta e a enfermeira nem sempre existe e Patrícia Batista assume essa proximidade como parte da forma como exerce o cargo: estar disponível, resolver o que pode e, sobretudo, cuidar. Neste mandato tem como ambições reforçar a área social, combater a solidão, aproximar os jovens da freguesia e não perder de vista problemas como o saneamento, as estradas e a valorização do Paul do Boquilobo.

O que a levou a querer assumir a presidência? Um sentido de missão e de serviço. Sentia que, pela experiência, disponibilidade e conhecimento da freguesia, estava preparada.
Uma das coisas que mais me marcou na campanha foi, em Alcorochel, dizerem-me: “Patrícia, aqui és tu e mais quem?”. Sou de Parceiros de São João e ouvir isso noutra localidade foi muito gratificante. Claro que neste cargo a responsabilidade é diferente e as pessoas esperam muito da junta e de mim.
Já integrou vários executivos. O que ainda a surpreende? Questões entre vizinhos ou entre privados que chegam até nós como se tivéssemos poder para resolver tudo. Também noto que se perdeu algum sentido de comunidade. Há uns anos as pessoas limpavam em frente às suas casas e havia outra colaboração. Hoje, há quem ache que paga impostos e que as instituições têm de fazer tudo. Quanto mais tempo os nossos funcionários passam a limpar aquilo que podia ter alguma colaboração da população, menos tempo têm para cuidar dos espaços públicos e das nossas responsabilidades.
O anterior presidente, Manuel Júnior, é agora seu secretário. Isso não condiciona a sua liderança? Não. Sempre trabalhámos em equipa. Quando fiz a lista tive a preocupação de ter representantes das três antigas freguesias. O Manuel tem sido excepcional e nunca foi um obstáculo.
Mas quer deixar uma marca sua? Quero. Uma marca mais pessoal e mais humana. O Manuel Júnior e o Fernando Sousa, antigo presidente de Parceiros de Igreja, foram dois autarcas com quem aprendi muito, mas quero que este mandato tenha características minhas e a minha forma de trabalhar.
Consegue dar a mesma atenção às três freguesias? É difícil, porque o território é grande e continuo a trabalhar no hospital. Estou a meio tempo na junta, mas o meio tempo vai muito além disso. Vou todos os dias à Brogueira, onde está a sede, e estou regularmente nas outras localidades. Tanto faço actas e relatórios como vou para a rua com os funcionários. Se for preciso regar, pintar ou limpar, faço isso. Quem menos me vê é a minha família.
As pessoas respeitam o seu tempo de descanso? Nem sempre. Por causa dos turnos no hospital tenho horários diferentes. Às vezes ligam às sete da tarde e é a hora em que estou a tentar dormir porque vou fazer noite. Também recebo mensagens às 23 horas. Respondo quando posso. O que me incomoda são faltas de respeito ou comentários ofensivos. A proximidade é boa, mas também faz com que algumas pessoas ultrapassem limites.
Sente que, por ser mulher e jovem, teve de provar mais? Sim. Ainda há pessoas que olham para uma mulher com desconfiança e acham que é menos capaz. Numa freguesia rural isso ainda se sente. Respondo com trabalho. Não preciso de estar associada à figura do antigo presidente. Ele tem a identidade dele e eu tenho a minha.

A junta é a primeira porta onde vão bater

O envelhecimento é hoje um dos maiores problemas sociais, de saúde e de mobilidade do território? É. Ainda temos muitas pessoas isoladas e noto que as aldeias perderam vida comunitária. Na minha terra, os bancos do jardim estavam cheios e agora estão quase sempre vazios. O Covid fechou muito as pessoas em casa. Temos trabalhado com grupos de partilha de memórias e afectos, actividades sénior e outras iniciativas. É preciso tirar as pessoas de casa.
A sua profissão de enfermeira influencia a forma como olha para esses problemas? Muito. Às vezes ligam-me porque alguém tem uma ferida ou porque há uma situação que precisa de ser vista e, se posso ajudar, vou. Faço alguns domicílios de forma voluntária e articulo situações. Há muita gente que desconhece os seus direitos.
Quando se apercebe de que as pessoas têm dificuldades económicas ou desconhecem os apoios a que têm direito, o que faz? Há muita falta de informação. Muitas pessoas não sabem que podem ter direito ao complemento por dependência, a fraldas gratuitas, a um colchão de pressão alternada ou a outros apoios. Tento explicar, ajudar a preencher os formulários. Uma das coisas que gostava de criar na freguesia era um banco de ajudas técnicas, para termos cadeiras de rodas, cadeiras sanitárias ou outros equipamentos que pudessem ser emprestados a quem precisa temporariamente e não tem condições para os comprar.
Como se fixam jovens numa freguesia rural? É muito difícil fixar jovens. Há uma franja que quer ficar, mas quando começa a construir casa encontra processos urbanísticos que demoram dois ou três anos. O preço da habitação também disparou e depois há a falta de respostas para as famílias: não temos creche nem escola. Muitas pessoas trabalham em Torres Novas, e os filhos têm actividades na cidade, pelo que acaba por ser mais simples viver lá do que fazer várias deslocações por dia. Tentamos, ainda assim, criar iniciativas que envolvam os jovens. Este ano fizemos pela primeira vez uma iniciativa ligada ao Dia Mundial da Juventude, nas piscinas de Alcorochel. O ringue de Parceiros de Igreja também tem gente praticamente todos os dias, incluindo equipas que vêm de outras localidades. Esses espaços criam movimento e as associações também têm aqui um papel importante.
Faria sentido voltar a haver creche? Acho que sim. Para as três freguesias talvez conseguíssemos viabilizar uma resposta e até temos edifícios que poderiam ser estudados. Conheço de perto a dificuldade em encontrar vaga porque acompanhei recentemente esse problema na minha própria família.
A natalidade preocupa-a? Muito. Atribuímos apenas cinco incentivos à natalidade em todo o território. Cinco bebés em três antigas freguesias é muito pouco. Ao mesmo tempo temos cerca de 40 óbitos. A Charneca de Alcorochel tem uma dinâmica diferente, com população mais jovem, também pela proximidade à ferrovia e por haver pessoas que trabalham em Lisboa e vivem aqui.

Patrícia Batista é enfermeira e identifica-se como alguém que gosta de cuidar - foto O MIRANTE

Estradas que nunca conheceram alcatrão e saneamento básico por fazer

Qual é hoje a principal queixa da população? A limpeza é o tema de todos os dias, porque ninguém quer ver uma erva. Mas a segurança rodoviária preocupa-me muito. Temos ruas que nunca conheceram alcatrão e outras estradas que precisam de uma intervenção profunda.
Qual é a prioridade? A Estrada dos Casais Novos é uma prioridade, porque é utilizada por muita gente e faz ligação a outros concelhos. Há também a Rua dos Outeiros e a Estrada do Casal de São Pedro. E gostava muito de ver resolvida a Estrada Nacional 3, que tem troços onde a faixa rodoviária e os passeios estão muito degradados.
Quando escolhe uma estrada para investir deixa outras pessoas descontentes. Um orçamento nunca agrada a todos. Se fazemos uma obra na Brogueira, há quem em Alcorochel pergunte quando chega a vez deles. Temos de decidir em função da urgência, da segurança e do número de pessoas que beneficiam. E há casos em que não basta pôr alcatrão; primeiro é preciso tratar drenagens ou condutas, para não andar a abrir a estrada pouco tempo depois.
O saneamento continua a ser uma falha grave? Sim. Charneca de Alcorochel e os Casais Novos continuam sem essa resposta. O mesmo acontece em Parceiros de Igreja, Parceiros de São João, Borrego, Cardais e Resgais. Ainda há uma parte significativa do território sem saneamento e isso, nos dias de hoje, é difícil de aceitar. Há pessoas que usam poços e fazem agricultura e preocupa-me a contaminação dos solos. Sabemos que é uma obra cara, mas terá de avançar. Depois, será preciso acompanhar as pessoas porque muitas casas antigas têm fossas em zonas baixas e a ligação ao colector poderá exigir obras.
As juntas têm financiamento suficiente? Não. O financiamento por habitante não reflecte o custo real de manter uma freguesia rural. Aqui temos quilómetros de valetas, bermas, caminhos e erva para cortar. O Fundo de Financiamento das Freguesias vai praticamente para despesas permanentes. As freguesias rurais deviam ter uma majoração porque o território exige muito mais manutenção por habitante.
A união das três freguesias foi positiva? Para nós, sim, sobretudo na capacidade operacional e financeira. Conseguimos aproveitar melhor os recursos, mas nunca quisemos apagar a identidade de Brogueira, Parceiros de Igreja ou Alcorochel.
A preservação ambiental é uma das suas bandeiras? Sim. Assumo-me como uma guardiã da Reserva Natural do Paul do Boquilobo. É um espaço extraordinário que precisa de ser valorizado, com melhores acessos e melhores condições no centro de interpretação. Não quero transformá-lo num local massificado, porque é preciso respeitar o silêncio e o fluxo migratório das aves. Mas gostava que mais pessoas conhecessem aquele património.
As descargas ilegais de lixo são um problema também nesta união de freguesias. São problema e recorrente. Temos monos, lixo e até plástico resultante de furtos de cabos descarregados em caminhos e terrenos. É um crime ambiental. O plástico fica no solo, prejudica as culturas e depois é muito difícil identificar quem fez a descarga. A junta acaba muitas vezes a pedir ajuda ao município para remover aquilo que outros ali deixaram.
Foi eleita pelo PS e a Câmara de Torres Novas também é socialista. Isso facilita? Acho que até nos obriga a ser mais exigentes. Não sinto que as freguesias do PS sejam beneficiadas nem que as do PSD sejam prejudicadas. As eleições acabam e no dia seguinte temos todos de trabalhar para o mesmo concelho. Quando tenho de exigir, exijo. O meu papel é defender a freguesia.
Como gostava de ser lembrada quando terminar este percurso? Como alguém que deu o máximo e se esforçou pela sua freguesia. Gostava de ser lembrada com carinho, respeito e admiração. Não mudei por ser presidente. Uma senhora perguntou-me se agora me devia chamar senhora enfermeira ou senhora presidente. Eu respondi: “Então qual é o nome que a minha mãe me deu?”. É Patrícia. E é assim que quero continuar a ser tratada.

Uma enfermeira apaixonada pela natureza e pelo acto de cuidar

Se Patrícia Batista tivesse de se resumir numa palavra, seria “cuidadora”. Uma tia, recorda, descreveu-a uma vez assim: é a pessoa que está, que aparece quando é preciso, que resolve e acompanha. E Patrícia reconhece-se nesse retrato, embora admita que, no meio da junta, dos turnos no hospital e das solicitações permanentes, às vezes esquece-se de cuidar de si própria.
Ser enfermeira foi um desejo que apareceu ainda em criança, dos tempos em que atentamente observava a avó a cuidar da bisavó e as enfermeiras que iam lá a casa fazer tratamentos. Aos 12 anos já dizia que queria seguir a profissão. Trabalhou durante algum tempo na indústria farmacêutica, em Lisboa, onde ganhava mais, mas o objectivo, revela, sempre foi “juntar dinheiro para regressar e recuperar uma casa” em Parceiros de São João. Foi o que fez, confessando que não se imagina a viver noutro lugar.
Entrar na casa das pessoas e conhecer de perto a sua realidade é o que mais a atrai na enfermagem. Diz que só aí se percebe verdadeiramente a realidade de quem está doente e se entende que conselhos simples num gabinete podem ser impossíveis de concretizar para quem tem carência económica, uma habitação débil ou ausência de apoio familiar.
Fora da enfermagem e da política, Patrícia gosta de tratar das árvores, apanhar azeitona, vindimar e da vida simples do campo, hábitos que aprendeu com os avós. Tem terreno com árvores que, por falta de tempo, admite estarem menos cuidadas do que gostaria. Não troca, porém, esse mundo rural por Lisboa. Gosta da cidade para visitar, mas é nas aldeias onde cresceu que se sente em casa.
A natureza ocupa um lugar central na forma como olha para o território e, por isso, incomoda-a que se abatam árvores apenas porque largam folhas ou sujam caleiras e defende que falta literacia ambiental. “Gostava que houvesse mais equilíbrio entre pessoas e natureza”, resume. Talvez por isso a mesma mulher que trabalha por turnos e gere uma junta ainda consiga abrandar para falar das azinheiras que tem em frente de casa como se fossem parte da família. Cuidar, para Patrícia Batista, parece ser sempre o verbo que regressa e está presente.

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