Pedro Vilelas dedicou-se à pesca e meio século depois a paixão continua
Natural de Coruche, ligado à pesca desportiva desde criança e com um percurso de décadas na modalidade, Pedro Vilelas conhece o Sorraia como a palma da mão. O presidente da Coruche Pesca Desportiva e recente vice-capitão da Selecção Nacional considera que poucas pistas conseguem juntar as condições logísticas existentes em Coruche, mas alerta para os elevados custos para quem dá os primeiros passos na pesca desportiva. E lamenta que continue por concretizar uma escola de pesca junto ao rio.
Pedro Vilelas tinha cinco ou seis anos quando começou a pescar no Sorraia. Aos 11 inscreveu-se no Coruchense, então também ligado à pesca desportiva e, meio século depois, continua com o rio praticamente à porta de casa e a modalidade a ocupar uma parte importante da sua vida. Foi nesse mesmo Sorraia que, nos dias 5 e 6 de Setembro, decorreu o 72.º Campeonato do Mundo de Nações de Pesca Desportiva em Água Doce - Bóia, no qual Pedro Vilelas integrou a equipa técnica portuguesa como vice-capitão.
Para o coruchense, receber uma prova desta dimensão não acontece por acaso. “O Sorraia em Coruche é o único rio em Portugal que apresenta condições sérias para fazer um Campeonato do Mundo como deve ser”, afirma, apontando como uma das principais vantagens a existência de uma pista de pesca com cerca de 2.500 metros. Mas o que distingue o Sorraia, explica, não é apenas a extensão disponível. A estrada que acompanha o rio na sua margem permite que as viaturas fiquem próximas dos lugares de pesca, uma vantagem importante numa modalidade em que cada atleta transporta uma grande quantidade de equipamento. “Hoje em dia um pescador traz uma carrinha cheia de material”, salienta.
A isso junta a capacidade de Coruche para receber quem vem de fora. A gastronomia e a hospitalidade são dois dos pontos que destaca, embora reconheça uma fragilidade: a escassez de alojamento. Durante o Mundial, com 21 selecções presentes e delegações que em alguns casos rondavam as duas dezenas de elementos ou mais, houve equipas alojadas fora de Coruche e noutros pontos da região.
Apesar dessa limitação, Pedro Vilelas considera que a sucessão de competições internacionais realizadas no concelho deu a Coruche uma projecção que ultrapassa fronteiras. Recorda que o Mundial de Nações de 2026 foi o segundo disputado no concelho, depois da edição de 1993, mas que passaram pelo Sorraia campeonatos de jovens, senhoras e masters. “Não há ninguém que não conheça Coruche”, afirma, garantindo que nas deslocações que fez pela Europa encontrou repetidamente pescadores que conheciam a vila e guardavam boas recordações das provas realizadas no concelho.
Escola de pesca pensada, mas sem “pernas para andar”
Se o Sorraia está preparado para receber os melhores do mundo, Pedro Vilelas gostaria que servisse também para preparar aqueles que estão a começar. A criação de uma escola de pesca junto ao rio chegou a ser discutida e imaginada há muitos anos, mas nunca saiu do papel. “Já foi pensado e repensado e voltado a pensar. Mas não tem pernas para andar”, lamenta.
A ideia passava por criar um espaço junto ao Sorraia onde fosse possível ensinar a modalidade e levar os mais novos directamente para a pista. Pedro Vilelas recorda conversas em que foi equacionada a instalação de um edifício junto ao rio, permitindo atravessar a estrada e começar imediatamente a pescar. O problema, explica, está sobretudo nos custos. Uma escola implica instalações, acompanhamento permanente e alguém disponível para ensinar, despesas para as quais a associação não dispõe de meios.
A dificuldade em captar novos praticantes preocupa o dirigente. A associação Coruche Pesca Desportiva promove anualmente duas provas destinadas aos mais novos, uma a 25 de Abril e outra em Agosto. Na primeira consegue habitualmente juntar cerca de 10 a 12 crianças, enquanto a segunda chega às 25, 26 ou mesmo 28. Pedro Vilelas não espera que todas continuem ligadas à modalidade, mas considera que conseguir manter uma ou duas já representa um ganho. “É por aí que se começa a trabalhar”, defende.
A missão tornou-se, contudo, mais difícil. Para além de considerar que os jovens têm hoje outras formas de ocupação, aponta o elevado investimento necessário para quem queira praticar pesca desportiva a um nível mais exigente. Segundo Pedro Vilelas, mesmo um conjunto mínimo de material pode ultrapassar facilmente vários milhares de euros.
O presidente da Coruche Pesca Desportiva lamenta também a falta de apoios para estágios e formação, sobretudo junto dos jovens. Dá como exemplo as dificuldades em financiar a preparação das selecções, obrigando clubes, dirigentes e parceiros locais a procurar soluções para deslocações, estadias e treinos. Apesar das dificuldades, Pedro Vilelas continua a olhar para o Sorraia como o maior argumento que Coruche tem para manter a pesca desportiva viva.


