Sociedade | 24-09-2026 10:00

Paulo Queimado e Cláudia Moreira foram trabalhar para empresa que “alimentaram” durante os seus mandatos

Paulo Queimado e Cláudia Moreira foram trabalhar para empresa que “alimentaram” durante os seus mandatos
Cláudia Moreira e Paulo Queimado estão actualmente ligados profissionalmente à PSIquatro - foto arquivo O MIRANTE

Novo presidente da Câmara da Chamusca, Nuno Mira, decidiu cortar uma parte substancial do financiamento e dos protocolos com a Associação Tempos Brilhantes, entidade que durante os mandatos de Paulo Queimado recebeu centenas de milhares de euros do município. A mudança de rumo ganha particular relevância porque Paulo Queimado e a antiga vice-presidente Cláudia Moreira estão actualmente ligados profissionalmente à PSIquatro, empresa que mantém relações e projectos em parceria com a Tempos Brilhantes.

O actual executivo da Câmara da Chamusca prepara-se para terminar uma parte substancial das parcerias mantidas durante anos com a Associação Tempos Brilhantes. Só em 2022 e 2023, documentos da própria autarquia permitem identificar perto de 280 mil euros destinados à associação. O dossier ganha maior relevância pública porque Paulo Queimado e Cláudia Moreira, que dirigiram politicamente o município durante vários mandatos, estão ligados profissionalmente à PSIquatro, empresa que assume publicamente uma relação estreita com a Tempos Brilhantes. A relação entre a Câmara da Chamusca e a Associação Tempos Brilhantes não nasceu ontem. Pelo contrário. A documentação consultada por O MIRANTE mostra que a associação foi, durante vários mandatos liderados por Paulo Queimado, uma presença recorrente nas políticas municipais de educação e, mais tarde, também em projectos de carácter social. Já em Novembro de 2016 o município contratou à associação serviços de animação e prolongamento de horário para o ano lectivo 2016/2017 por 71.199 euros. Em 2017, a Tempos Brilhantes surgia igualmente como entidade responsável pelo modelo de Actividades de Enriquecimento Curricular desenvolvido no concelho, área então tutelada politicamente pela vice-presidente Cláudia Moreira.
Com o passar dos anos a relação ganhou dimensão. Os mapas de subvenções públicas da câmara mostram que, em 2022, foram atribuídos à Tempos Brilhantes quatro apoios ligados às Actividades de Enriquecimento Curricular e às Actividades de Animação e Apoio à Família, num total de 129.145,03 euros. Em 2023 surgem mais cinco verbas, destinadas ao Cantinho Digital, AEC e AAAF, que totalizam 150.457,87 euros. Só nesses dois anos são 279.602,90 euros. E estes números não incluem contratos e protocolos celebrados noutros períodos. A parceria também extravasou a escola. Em 2024, ainda durante o anterior mandato, foram aprovados protocolos com a associação para projectos como Asas do Tempo e Ocup’Arte. A Tempos Brilhantes apresenta-se como associação sem fins lucrativos vocacionada para projectos educativos, artísticos e de inovação social e continua a indicar oficialmente como sede a Rua Direita de São Pedro, edifício n.º 142, primeiro andar, salas 5 e 6, na Chamusca. Segundo apurou O MIRANTE, essas instalações foram disponibilizadas pelo município durante a anterior gestão. A associação teve ainda à sua disposição outros espaços para desenvolver iniciativas, entre os quais estruturas associadas ao projecto Hivework Social. O MIRANTE sabe que está em andamento a cessação dessas parcerias.
É, contudo, o que aconteceu depois da saída de Paulo Queimado e Cláudia Moreira da Câmara da Chamusca que acrescenta uma nova dimensão ao caso. Os perfis profissionais públicos dos dois ex-autarcas identificam actualmente a PSIquatro como entidade à qual estão profissionalmente ligados. E a ligação entre a PSIquatro e a Tempos Brilhantes não é circunstancial: a própria empresa refere projectos desenvolvidos em parceria com a associação, apresenta o “Estudar Melhor, Aprender Mais” como projecto da marca Tempos Brilhantes e documentação da empresa refere que a PSIquatro representa a marca e conteúdos Tempos Brilhantes e participa na organização e gestão de actividades lúdico-pedagógicas. Estes elementos parecem tornar relevante esclarecer publicamente a cronologia da actual relação profissional dos dois ex-governantes municipais com a PSIquatro e os critérios que, ao longo dos anos, levaram a câmara a concentrar tantos projectos e verbas na Tempos Brilhantes.
É esse modelo que o actual executivo, presidido por Nuno Mira, pretende agora alterar. Segundo apurou O MIRANTE, a câmara vai cessar uma parte significativa dos protocolos e parcerias com a Tempos Brilhantes, nomeadamente em áreas educativas que poderão passar a ser asseguradas directamente por trabalhadores do município. A orientação é reduzir a dependência de uma única entidade e criar condições para uma atribuição mais aberta e imparcial de verbas públicas destinadas a actividades educativas e de lazer.
O MIRANTE contactou por email a empresa PSIquatro a pedir esclarecimentos mas não obteve resposta até ao fecho desta edição, terça-feira 22 de Setembro.

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