Sociedade | 25-09-2026 12:00

Toureio a pé procura recuperar espaço na festa brava em Portugal

Toureio a pé procura recuperar espaço na festa brava em Portugal
António Mota Redol, Manuel Jorge dos Santos e Maurício do Vale durante a apresentação da 2.ª edição do livro sobre o matador de toiros Manuel dos Santos - foto O MIRANTE

Há mais escolas de toureio e jovens interessados em seguir carreira, mas chegar às grandes praças continua a ser difícil e a composição dos cartéis portugueses deixa pouco espaço aos matadores. Manuel Jorge Díez dos Santos e Maurício do Vale analisam os desafios da tauromaquia, que perdeu parte da importância social de outros tempos, mas onde identificam sinais de renovação.

A apresentação da segunda edição do livro “Manuel dos Santos: O Homem e o Toureiro (1925-1973)”, a 18 de Setembro, em Samora Correia, serviu também de ponto de partida para uma conversa sobre o presente e o futuro da tauromaquia portuguesa. Manuel Jorge Díez dos Santos, filho do célebre matador, e Maurício do Vale, aficionado e crítico tauromáquico, convergem na ideia de que o toureio a pé enfrenta dificuldades para encontrar espaço em Portugal, embora por razões diferentes.
Para Manuel Jorge Díez dos Santos, autor do livro, uma parte da explicação começa na perda de centralidade que a tauromaquia teve na sociedade portuguesa. No tempo do pai, recorda, existiam muito menos alternativas de entretenimento e a festa brava ocupava um lugar social e cultural incomparavelmente maior. “Hoje há muito mais coisas que as pessoas têm para se entreter”, observa, embora ressalve que continua a existir “um núcleo muito aficionado e com muito gosto pela tauromaquia”.
O aparecimento de uma grande figura portuguesa do toureio a pé é, por si só, difícil. Manuel Jorge sublinha que chegar a matador de toiros e afirmar-se entre os melhores exige reunir um conjunto raro de condições. A concorrência espanhola acrescenta outro obstáculo, numa altura em que considera existir em Espanha “uma quantidade bastante grande de bons matadores” e um crescente entusiasmo pela festa. Entre os portugueses, aponta agora a atenção para Tomás Bastos, que tomou a alternativa este ano, admitindo que será necessário perceber se consegue construir um percurso de afirmação.

“Há muita coisa invertida na festa dos toiros”
Maurício do Vale, actual apoderado do matador Diogo Peseiro, coloca grande parte do problema dentro da própria organização da tauromaquia em Portugal. Considera que a composição de muitos cartéis privilegia excessivamente o toureio a cavalo e os grupos de forcados. Aponta como exemplo corridas com seis cavaleiros e três grupos de forcados, modelo que, na sua perspectiva, reduz drasticamente as oportunidades para quem pretende afirmar-se no toureio a pé. “Há muita coisa que está invertida na festa de toiros em Portugal”, afirma, defendendo um maior equilíbrio dos cartéis e o aumento das corridas mistas, onde cavaleiros e matadores possam partilhar protagonismo.
O paradoxo, segundo Maurício do Vale, é que nunca terão existido tantas escolas de toureio nem tantos jovens interessados nesta vertente. Há alunos que já actuam como novilheiros, mas as oportunidades dentro de portas não acompanham essa procura. Ainda assim, vê sinais de mudança nos últimos dois ou três anos e aponta Diogo Peseiro, que representa actualmente, como um dos nomes capazes de contribuir para essa renovação. Maurício do Vale considera que existe tradição e público suficiente para aumentar o número de espectáculos que incluam toureio a pé, quer em localidades com praças fixas, quer através de praças portáteis.

Campo Pequeno com quatro corridas preocupa ambos
Outro ponto onde as opiniões se aproximam é o Campo Pequeno. Manuel Jorge Díez dos Santos lamenta que a praça de referência do país esteja actualmente reduzida a quatro corridas por ano, contrapondo esse número às cerca de 25 realizadas no tempo do pai e às 18 ou 19 no tempo da sua gestão.
Maurício do Vale partilha a preocupação e considera insuficiente o actual número de corridas. Espera que a intenção da Plateia Colossal, empresa de Álvaro Covões, de criar outro espaço para espectáculos em Lisboa possa eventualmente libertar o Campo Pequeno para uma utilização taurina mais frequente.
Manuel Jorge Díez dos Santos rejeita também a ideia de que os movimentos anti-taurinos estejam a ganhar terreno de forma decisiva em Portugal e Espanha, considerando que a sua mensagem não tem conseguido impor-se nestes países como aconteceu nalguns territórios da América Latina. Admite que a tauromaquia pode adaptar alguns aspectos do espectáculo, incluindo medidas que reduzam a agressividade para com o animal, mas estabelece um limite, pois entende que é necessário preservar a percepção do risco e a emoção, que considera elementos essenciais da própria tauromaquia.

Livros sobre Manuel dos Santos com edição revista e aumentada

A conversa decorreu à margem da apresentação da segunda edição do livro de Manuel Jorge Díez dos Santos dedicado ao percurso de Manuel dos Santos, obra de 445 páginas que foi revista e aumentada com novas histórias, episódios, reproduções de obras de arte dedicadas ao matador e poemas escritos depois da sua morte.
A passagem do livro por Samora Correia guarda ainda uma ligação particular à história do próprio Manuel dos Santos, natural de Lisboa e que foi criado na Golegã. O matador possuía uma ganadaria, de nome Porto Alto, com as vacas instaladas na herdade Monte Caído, próxima da freguesia de Samora Correia, enquanto os novilhos e toiros estavam no Juncal do Norte, na lezíria de Vila Franca, em terras também arrendadas. O maioral, o campino Piteira Dias, morreu no mesmo acidente de automóvel que vitimou o toureiro, ocorrido em Vendas Novas a 17 de Fevereiro de 1973. Manuel dos Santos morreu no dia seguinte, aos 48 anos.

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