Sociedade | 28-09-2026 12:00

12 horas no quartel dos Bombeiros de Tomar onde a normalidade acaba ao primeiro toque da sirene

12 horas no quartel dos Bombeiros de Tomar onde a normalidade acaba ao primeiro toque da sirene
Os elementos da corporação partilham diariamente tarefas, treinos e momentos de pausa, mantendo-se sempre preparados para responder a uma emergência - foto O MIRANTE

Há dias em que a primeira saída acontece cedo e outros em que o quartel parece mergulhado numa tranquilidade enganadora. Entre treinos, ambulâncias, refeições, piadas e tempos mortos, os Bombeiros Sapadores de Tomar vivem sempre com um ouvido preso à central. O MIRANTE acompanhou um turno de 12 horas da corporação.

Ainda não são oito da manhã e o quartel parece respirar devagar. Um a um, os elementos do turno chegam, picam o ponto, trocam cumprimentos e entram na sala de briefing. Em poucos minutos, mais de uma dezena de homens e mulheres fica reunida para preparar as 12 horas seguintes. É ali que se distribuem equipas, tarefas e responsabilidades. “É o momento do dia em que explico ao pessoal o que vamos fazer hoje, o que há para tratar, as tarefas, entre outros.”, resume o subchefe Ricardo Oliveira. Depois vêm os testes ao material, os inventários das ambulâncias e a verificação das viaturas. São pelo menos 30 minutos de uma rotina invisível para quem apenas vê os bombeiros quando a emergência já aconteceu. No pátio, os veículos estão estacionados de frente para a saída. No Verão, muitos trocam a farda pela t-shirt e pelos calções da corporação. O calor pesa, mas a prontidão mantém-se: as calças do Equipamento de Protecção Individual estão já dentro das botas, prontas a vestir.
André Rosário, 37 anos, é o chefe de intervenção do turno. Tem 16 anos de serviço, 13 em Tomar. Normalmente há duas equipas afectas às ambulâncias e uma terceira preparada para incêndios urbanos e desencarceramentos. Cabe-lhe coordenar o serviço diário e acompanhar o estado das viaturas e equipamentos. O quartel tem zona de descontaminação, arrecadações, oficina, camaratas, balneários, cozinha, refeitório e salas de descanso. Há ainda ginásio, consola de jogos e uma mesa de snooker. São formas de suportar longas horas no mesmo espaço. A manhã inclui treino. Naquela semana, o tema era trauma. Um boneco ou um colega faz de vítima e os procedimentos são repetidos até se tornarem automáticos. Mas a sirene não respeita planos. Por duas vezes, o exercício é interrompido. A emergência real sobrepõe-se à simulação.
Na central está Lúcia, 26 anos, bombeira há quatro. É ali que chegam os alertas encaminhados pelo CODU. Saber a localização exacta da vítima é essencial, sobretudo nas auto-estradas. Nas ambulâncias, os bombeiros recebem num portátil a localização e a natureza da ocorrência através do sistema do INEM. Tudo é pensado para reduzir o tempo de resposta: durante o dia, as viaturas devem estar na rua em menos de um minuto; à noite, em dois. Enquanto Lúcia explica o funcionamento da central, a teoria dá lugar ao trabalho. Em poucos minutos chegam duas chamadas de emergência médica. O MIRANTE acompanha uma ambulância até um lar, onde uma idosa tinha caído e sofrido um ferimento no sobrolho. Os bombeiros avaliam a vítima, perguntam-lhe como se sente, tentam perceber o que aconteceu e avançam de forma metódica. Há turnos com dez ocorrências antes do almoço e outros em que o primeiro serviço só aparece pelas duas da tarde. Dias totalmente silenciosos, porém, ninguém recorda. Até um gato preso numa árvore ou um pato em dificuldades pode mobilizar equipas e viaturas, deixando esses meios indisponíveis para situações mais graves.
No gabinete do comando, Miguel Novais, 51 anos, vive outra rotina. Chegou este ano a Tomar depois de um longo percurso nos Bombeiros Municipais de Leiria, onde foi bombeiro e comandante. Esteve dois anos fora do activo, mas a tempestade Kristin reacendeu-lhe o chamamento. “O sangue começou a ferver outra vez”, conta. O dia começa com o subchefe do turno e segue entre expedientes, processos, escalas e respostas a entidades. Nas ocorrências mais graves, também sai. A corporação reúne 52 bombeiros sapadores e 28 voluntários, 14 dos quais mulheres, com idades entre os 19 e os 61 anos. Gerir personalidades tão diferentes é parte do comando. “Há elementos mais explosivos, outros mais tranquilos, outros mais desligados”, reconhece. Quando toca a sirene, garante, os atritos desaparecem. Para Miguel Novais, o maior desgaste é muitas vezes psicológico. “Não é uma profissão fácil. O bombeiro tem que ter um grande suporte familiar. O problema é que o trabalho destrói essa base”, afirma. Fins-de-semana, feriados, Natais e aniversários dos filhos ficam muitas vezes do outro lado da escala. E há ocorrências que regressam a casa com quem as viveu.
Casos que envolvem crianças ou pessoas conhecidas são dos mais difíceis. Rui Ferreira, 30 anos, bombeiro há uma década em Tomar, conhece esse peso. “Às vezes não podias fazer mais nada e fizeste tudo bem, mas na tua cabeça vais idealizar senões e é complicado desligar disso”, confessa. Existem mecanismos nacionais de apoio através do INEM e da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil, mas o comando de Tomar quer avançar com acompanhamento psicológico regular. “Pedir ajuda deixou de ser visto como sinal de fraqueza e isso é muito bom”, sublinha Miguel Novais. Rui Ferreira concorda: “Acho que devíamos ter mais acompanhamento psicológico para o pessoal desabafar. É bom ter uma perspectiva de fora”.
Depois do almoço, o quartel abranda. Há snooker, bola, badminton e videojogos. Alexandre Cristino, 25 anos, conta que inventam maneiras de passar o tempo, incluindo guerras de água. “Há dias em que parecemos pintos todos molhados e saímos daqui todos ensopados”, diz. Há também superstições: se a estatueta do santo padroeiro cair, pode vir uma ocorrência grave; se alguém limpa as botas, há quem brinque que vem aí um incêndio. Pequenos rituais para conviver com a incerteza. A meia hora do fim do turno, alguns já pensam na troca de equipas. O dia tinha sido marcado sobretudo por emergências médicas. Até que a sirene volta a cortar o quartel.

Acidente no IC9, sentido Tomar–Ourém
Em segundos, desaparecem as piadas e o cansaço. As calças preparadas dentro das botas são vestidas, os equipamentos testados de manhã deixam de ser objectos arrumados e passam a ferramentas de socorro. Ambulâncias e uma viatura de desencarceramento avançam para uma colisão entre dois automóveis. É nesse momento que se percebe verdadeiramente um turno de 12 horas. Tudo é provisório até a sirene tocar. “Há situações que a adrenalina toma conta de ti e tu simplesmente ages. Ser bombeiro é uma doença. Não se explica isto”, tinha dito Rui Ferreira horas antes. Ao fim do turno, a frase ganha outro peso. Ser bombeiro é viver entre a rotina e a possibilidade permanente de que, no minuto seguinte, alguém precise de ajuda.

Bombeiros em operações de socorro num acidente rodoviário - foto O MIRANTE

A sirene pode tocar a qualquer momento

Nos Sapadores de Tomar, a rotina é construída para poupar segundos. As viaturas ficam posicionadas de frente para a saída, o equipamento está preparado e as equipas sabem antecipadamente que funções assumem. Durante o dia, o objectivo é colocar os veículos na rua em menos de um minuto; à noite, em dois. Entre treinos, refeições e momentos de descanso, ninguém desliga verdadeiramente.

O peso que fica depois da ocorrência

O desgaste de um bombeiro não termina quando a ambulância regressa ao quartel. Miguel Novais e Rui Ferreira apontam a componente psicológica como uma das maiores fragilidades da profissão, sobretudo em ocorrências com crianças ou pessoas conhecidas. A corporação quer avançar com acompanhamento psicológico regular, para além dos mecanismos nacionais existentes.

Um quartel também vive de camaradagem

Snooker, videojogos, bola, badminton e até guerras de água ajudam a preencher os tempos mortos. São momentos de descompressão entre pessoas que podem passar 12, 24 ou mais horas juntas. As piadas, alcunhas e superstições fazem parte dessa convivência. Mas a descontração acaba no instante em que toca a sirene. O que segundos antes era brincadeira transforma-se em concentração, equipamento vestido e viaturas em marcha para mais uma ocorrência.

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