Doentes crónicos e idosos são os que mais sofrem por não ter médico de família
Eduardo Silva é doente crónico, toma cerca de 13 comprimidos por dia e há mais de 15 anos que não tem médico de família. Em Azambuja, onde vive, uma simples renovação de receita pode obrigar a semanas de espera. Em Junho de 2026, quase metade dos utentes da ULS Estuário do Tejo não tinha médico atribuído, enquanto na Lezíria eram cerca de 18% e no Médio Tejo perto de um terço.
Eduardo Silva não precisa de consultar papéis para saber há quanto tempo está sem médico de família. “Já lá vão mais de 15 anos”, diz, recordando que a médica que o acompanhava saiu e nunca mais lhe foi atribuído outro clínico. A mulher, Maria José Martins, ficou na mesma situação. O problema seria menos grave se Eduardo fosse um homem saudável, mas aos 67 anos vive com diabetes tipo 2, insuficiência renal, hipertensão, colesterol elevado e esquizofrenia, patologias que o obrigam a tomar cerca de 13 comprimidos todos os dias e a manter uma vigilância médica que, na prática, deixou de existir com regularidade.
Em casa, a falta de médico também se traduz numa preocupação que obriga a uma gestão rigorosa. Quando a medicação começa a acabar, Maria José trata do pedido de renovação das receitas e entrega-o no centro de saúde, sabendo que a resposta pode demorar. “Às vezes mais de um mês”, afirma numa conversa com O MIRANTE a propósito do Dia do Serviço Nacional de Saúde (SNS) que se assinala a 15 de Setembro. Por isso, os pedidos têm de ser feitos com antecedência para evitar que os medicamentos terminem antes de chegar nova prescrição. Já aconteceu as contas falharem e, nessas situações, o casal vê-se obrigado a procurar ajuda na farmácia ou outra solução que permita garantir que Eduardo não interrompe tratamentos que toma diariamente.
Quando é necessário ser observado por um médico, as alternativas também são limitadas, explicam. Podem tentar uma consulta através do projecto Bata Branca, recorrer a um médico privado ou deslocar-se às urgências do Hospital Vila Franca de Xira (HVFX). “Sentimo-nos desamparados”, diz Maria José para resumir o sentimento de quem vive há tantos anos sem uma referência clínica próxima. A situação torna-se mais delicada quando há problemas relacionados com a medicação psiquiátrica, porque Eduardo é acompanhado no HVFX e, se surgir uma reacção ou for necessário alterar uma dose entre consultas, o casal sente que não tem a quem recorrer de forma rápida. Muitas vezes, a alternativa é uma urgência hospitalar.
Falta de médicos continua a afectar a região
O caso de Eduardo Silva está longe de ser uma excepção e os números oficiais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) mostram uma realidade particularmente pesada na região. Em Junho de 2026, a ULS Estuário do Tejo, da qual faz parte o concelho de Azambuja, tinha 248.386 utentes inscritos nos cuidados de saúde primários, dos quais 118.579 não tinham médico de família atribuído. São 47,74%, ou seja, praticamente metade dos utentes. Ainda na área de abrangência de O MIRANTE, na ULS Lezíria, dos 206.880 inscritos, 36.548 encontravam-se na mesma situação, o equivalente a 17,67%, enquanto no Médio Tejo havia, em Janeiro, 60.092 pessoas sem médico de família, cerca de um terço dos utentes inscritos.
A falta de médico de família, alerta Armando Martins, porta-voz do Movimento Cívico pela Saúde de Azambuja, tem consequências que vão muito além de uma falha administrativa, sobretudo para idosos e doentes crónicos, obrigados muitas vezes a adiar consultas, procurar respostas noutros concelhos ou recorrer ao privado. Foi para tentar minimizar esse problema que surgiu em Azambuja, em Junho de 2023, o projecto Bata Branca. Para o fundador do movimento, esta solução foi “um mal menor”, mas, alerta, actualmente há períodos em que a espera chega a um mês ou mais, como aconteceu recentemente com Eduardo Silva para conseguir mostrar exames e análises.
A falta de continuidade no acompanhamento é, para Armando Martins, um dos principais problemas de quem não tem médico de família. Diabético e hipertenso, conta que já chegou a reduzir, por iniciativa própria, a dose de um medicamento por não conseguir aconselhamento médico em tempo útil. Uma situação que reconhece ser arriscada e que compara a uma forma de automedicação. É também por isso que olha com reservas para consultas pontuais ou soluções demasiado assentes na telemedicina, sobretudo num concelho envelhecido, defendendo que passar receitas ou resolver um problema num determinado dia não substitui um médico que conheça o historial e acompanhe regularmente o doente.
SNS continua a ser indispensável
Questionado por O MIRANTE sobre como olha para o futuro do SNS, Armando Martins não esconde a preocupação. A falta de médicos de família, o recurso crescente a soluções provisórias e a dificuldade em garantir acompanhamento regular levam-no a temer que o sistema continue a afastar-se da resposta de proximidade para que foi criado. Ainda assim, considera que o SNS continua a ser indispensável e que o problema não está na sua existência, mas na incapacidade de assegurar recursos humanos suficientes e condições para acompanhar os utentes de forma continuada.
Bata Branca em Azambuja tem os dias contados
O projecto Bata Branca deverá, entretanto, deixar de existir, como confirmou recentemente o presidente da Câmara de Azambuja, Silvino Lúcio. A mudança está associada à reorganização dos cuidados de saúde no concelho, com uma USF modelo B sediada em Aveiras de Cima, com uma equipa médica de seis clínicos e resposta prevista também para Alcoentre e Manique do Intendente, e uma USF modelo C destinada a funcionar em Azambuja.
O actual protocolo do Bata Branca mantém-se formalmente em vigor até 31 de Dezembro de 2026. Sobre a USF-C, Armando Martins admite que o processo possa estar atrasado devido a uma contestação apresentada no âmbito do concurso. A informação sobre essa contestação não foi, no entanto, oficialmente confirmada pela ULS Estuário do Tejo, que no final de Julho ainda indicava que o procedimento não estava concluído.


