Sociedade | 28-09-2026 18:00

Enxaqueca: mais do que uma dor de cabeça, uma doença que condiciona a vida

Enxaqueca: mais do que uma dor de cabeça, uma doença que condiciona a vida
Beatriz Madureira é neurologista no Hospital CUF Santarém - FOTO CUF

O Dia Europeu da Enxaqueca visa alertar para uma doença neurológica que ainda não tem cura e continua a intrigar os especialistas. Identificar os sintomas e procurar tratamento preventivo são a chave para conseguir maior qualidade de vida. Sociedade Portuguesa de Neurologia estima que a enxaqueca afecte cerca de 1,2 milhões de pessoas em Portugal.

A enxaqueca é uma doença neurológica que ainda continua desvalorizada pelos pacientes apesar de causar fortes impactos na qualidade de vida. Stress, alterações do sono, factores hormonais ou jejum podem desencadear crises, mas a doença tem uma forte componente individual e genética. Os tratamentos estão cada vez mais avançados embora a enxaqueca continue sem cura. A doença pode provocar episódios de dor moderada a grave, acompanhados de náuseas, vómitos e grande sensibilidade à luz ou a determinados cheiros, podendo interferir de forma significativa com a vida pessoal e profissional.
No Dia Europeu da Enxaqueca, que se assinalou a 12 de Setembro, o objectivo passa por chamar a atenção para a importância de reconhecer a doença e procurar ajuda médica. Segundo Beatriz Madureira, neurologista no Hospital CUF Santarém, a enxaqueca é uma doença neurológica complexa, que não resulta habitualmente de uma única causa. Existe, muitas vezes, uma predisposição individual, frequentemente com componente genética, que torna o cérebro mais sensível a determinados estímulos.
A partir daí, explica a médica a O MIRANTE, diferentes factores podem desencadear uma crise - e não são necessariamente os mesmos para todas as pessoas. Entre os mais frequentes estão o stress, incluindo a fase de “descompressão” depois de períodos de maior tensão, alterações do sono, exposição a luz intensa, cheiros fortes ou ruído, alterações meteorológicas, o período menstrual e as flutuações hormonais. O jejum prolongado, refeições irregulares e o consumo de bebidas alcoólicas, nomeadamente vinho tinto, podem também funcionar como desencadeantes em algumas pessoas.

Nem toda a dor de cabeça é igual
Uma das dificuldades no diagnóstico da enxaqueca está precisamente na sua banalização. Muitas pessoas habituam-se a viver com dores de cabeça e só procuram ajuda quando os episódios se tornam particularmente intensos ou incapacitantes. “Não havendo uma relação directa entre a exposição a ecrãs e as crises de enxaqueca, é certo que os empregos mais sedentários, a ausência de prática de exercício físico regular e os elevados níveis de ansiedade que acompanham a era tecnológica em que vivemos podem, no seu conjunto, aumentar a susceptibilidade a crises de enxaqueca”, explica.
A neurologista dá nota também que uma crise de enxaqueca pode durar entre quatro horas e três dias e caracteriza-se habitualmente por uma dor de intensidade moderada a grave, muitas vezes de um só lado da cabeça. Pode ser acompanhada por náuseas, vómitos e desconforto perante estímulos luminosos ou olfactivos. Mas há um aspecto particularmente importante: não é preciso ter uma dor insuportável para se tratar de uma enxaqueca.
De acordo com Beatriz Madureira, é frequente os doentes valorizarem apenas as crises mais fortes e desvalorizarem dores de intensidade moderada, apesar de estas também poderem corresponder a episódios de enxaqueca e afectarem a qualidade de vida. Essa desvalorização pode atrasar durante anos a procura de cuidados médicos. E isso acontece, muitas vezes, porque a própria pessoa não sabe que aquilo que sente corresponde a uma doença com tratamento específico.
“Sem dúvida que esta patologia tem tido mais atenção nos últimos anos, mas não está ainda no ponto desejável. É frequente os doentes apenas procurarem cuidados médicos após anos de episódios limitativos. Seria óptimo se as pessoas conseguissem identificar que têm uma enxaqueca e procurassem a atenção médica mais cedo, principalmente porque os tratamentos de SOS e prevenção são cada vez mais avançados e eficazes, permitindo melhorar significativamente a qualidade de vida”, conclui.

Um cérebro mais sensível e uma vida mais exigente
A prevenção começa por hábitos de vida equilibrados. Manter horários de sono regulares, evitar longos períodos sem comer e praticar exercício físico são algumas das medidas que podem ajudar. No entanto, a especialista alerta para a necessidade de não transformar a prevenção numa vida de restrições permanentes. Identificar os desencadeantes é importante, mas a evicção deve ser equilibrada, para que a pessoa não acabe por “viver numa redoma”. Uma das ferramentas mais simples para compreender a doença é o chamado diário das cefaleias. O objectivo é registar, ao longo de um ou dois meses, os episódios de dor - mesmo os mais ligeiros -, os possíveis factores desencadeantes e os medicamentos utilizados.
Este registo permite identificar padrões que podem passar despercebidos no dia a dia: uma relação com o ciclo menstrual, noites mal dormidas, períodos de maior stress ou longos intervalos entre refeições, por exemplo. Além de ajudar o doente a conhecer melhor a sua enxaqueca, o diário pode ser uma ferramenta útil numa consulta médica, permitindo avaliar a frequência das crises e perceber que tratamentos resultam melhor. Nos casos mais graves pode ser necessário recorrer a medicação. Nos casos em que os episódios são muito frequentes ou intensos, existem também tratamentos preventivos, destinados a reduzir a frequência e a intensidade das crises.

Doença pode mudar de características ao longo da vida

A evolução da doença não é linear. A enxaqueca pode mudar de características ao longo da vida. Algumas pessoas podem desenvolver sintomas diferentes com o passar dos anos e, em alguns casos, as crises diminuem espontaneamente. Nas mulheres, por exemplo, é relativamente frequente verificar-se uma redução da frequência e intensidade da enxaqueca depois da menopausa.

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