Sociedade | 28-09-2026 12:00

Último picareto de mestre de Ortiga vai preservar no Museu de Marinha uma arte que desapareceu

Último picareto de mestre de Ortiga vai preservar no Museu de Marinha uma arte que desapareceu

Adamastor foi o último picareto em tamanho original construído por Manuel Pires Fontes, mestre calafate de Ortiga que fez mais de 300 embarcações. Barco tradicional do Tejo vai integrar o Museu de Marinha, encerrando um processo de preservação iniciado há quase duas décadas.

O último picareto construído pelo mestre calafate Manuel Pires Fontes, de Ortiga, concelho de Mação, vai passar a fazer parte do acervo do Museu de Marinha. A incorporação do Adamastor representa o culminar de um projecto iniciado em 2007 pela Associação Os Amigos da Estação de Ortiga para impedir que desaparecesse a memória de uma arte profundamente ligada ao Tejo e à sobrevivência das comunidades ribeirinhas. A cerimónia de doação realiza-se segunda-feira, 28 de Setembro, na Cordoaria Nacional, em Lisboa. Para Sérgio Durão, presidente da associação, trata-se do “momento mais alto” de um percurso de quase duas décadas e de um reconhecimento da cultura ribeirinha de Ortiga e do Médio Tejo.
O Adamastor foi construído em 2009 por Manuel Pires Fontes, conhecido por “Ti Fontes”, quando o mestre tinha já mais de 80 anos. A associação desafiou-o a recuperar os métodos tradicionais de construção naval numa altura em que o conhecimento dos antigos calafates estava a desaparecer. Um ano antes tinha construído o Príncipe do Tejo, embarcação aberta utilizada no transporte de pessoas e bens entre as margens. A madeira para os barcos foi recolhida na região, com parte oferecida pela população, e a construção decorreu num estaleiro improvisado, ficando todo o processo documentado em fotografia e vídeo. O Adamastor praticamente não navegou: foi colocado no Tejo apenas durante algumas horas, em 2010, numa homenagem a Ti Fontes, sendo depois guardado para garantir a sua conservação.
Os picaretos foram durante gerações instrumentos de trabalho e subsistência das famílias de Ortiga, que conciliavam a agricultura com a pesca. A relação com as embarcações era também afectiva: antigos pescadores chegavam a não entrar calçados nos barcos. Nascido em 1926, Manuel Pires Fontes aprendeu com o pai os ofícios de carpinteiro e calafate e construiu mais de 300 picaretos. Foi o último mestre construtor destas embarcações em Ortiga e morreu em 2017, aos 90 anos.
A memória desse património está igualmente preservada no Núcleo Museológico de Ortiga, inaugurado em 2020. Apesar de existirem registos, medidas e documentação, José Carlos Durão, presidente da Assembleia Geral da associação, considera difícil que volte a nascer um picareto segundo os métodos antigos. Com o desaparecimento dos mestres perdeu-se também o conhecimento transmitido pela prática. O Adamastor fica assim como testemunho material de uma arte que chegou ao fim.

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