Sociedade | 03-10-2026 12:00

Grupo de Ajuda Mútua de Abrantes cresce e torna-se segunda família para sobreviventes de AVC

Grupo de Ajuda Mútua de Abrantes cresce e torna-se segunda família para sobreviventes de AVC
O grupo reúne regularmente sobreviventes de AVC, familiares e cuidadores num espaço de partilha e apoio - foto DR

Criado em Janeiro de 2025, o Grupo de Ajuda Mútua de Abrantes tem vindo a crescer e já reúne dezenas de sobreviventes de AVC, cuidadores, familiares e amigos. O grupo tornou-se uma “segunda família” para quem enfrenta as sequelas da doença e assume agora um papel de destaque na organização do encontro nacional da Portugal AVC, que leva cerca de 420 participantes a Abrantes.

O Grupo de Ajuda Mútua (GAM) de Abrantes, criado há menos de dois anos, tem vindo a crescer e tornou-se um espaço de apoio regular para sobreviventes de AVC, familiares e cuidadores. O grupo assume também um papel de destaque na organização do encontro nacional que vai levar cerca de 420 pessoas a Abrantes. Criado em Janeiro de 2025, o GAM reúne mensalmente nas instalações da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Abrantes e integra actualmente cerca de 25 a 30 sobreviventes, cuidadores, familiares e amigos. “Mais do que um grupo de ajuda mútua, é família, é união, é convívio”, afirma Anabela Santos, 53 anos, fundadora e coordenadora do grupo.
Sobrevivente de um AVC isquémico em 2020, Anabela regressou a casa com dificuldades na perna e braço esquerdos e na fala e admite ter-se sentido “completamente perdida”. Foi a procura de apoio que a levou à Portugal AVC e posteriormente a um grupo de ajuda mútua em Portalegre. “Senti-me em casa, lá falávamos todos a mesma linguagem”, recorda. A experiência levou-a a trabalhar durante quase dois anos na criação de uma resposta semelhante em Abrantes. Hoje, o grupo recebe pessoas de vários pontos da região e é descrito pelos participantes como um espaço onde é possível falar abertamente das sequelas e dificuldades que permanecem depois de um AVC.
Mário Alves, 57 anos, de Casais de Revelhos, sofreu um AVC no final de 2020 e diz ter feito um “reset” à vida. Considera estar agora numa “versão 2.0” e chama ao GAM de Abrantes a sua “segunda família”. Ana Filipa Pires, 45 anos, do Entroncamento, que sofreu um AVC em 2023, destaca a importância de conviver com quem passou pela mesma experiência. “Quem está connosco tenta entender, mas não é a mesma coisa”, afirma. Para António Rego, 62 anos, do Tramagal, o contacto com outros sobreviventes funciona como “uma terapia emocional muito eficaz”.
O grupo dá igualmente espaço aos cuidadores. Fernanda Diogo, 68 anos, de Alferrarede, acompanha o marido desde 2006, depois de dois AVC. “Deixei de viver no eu e passei a viver pelos dois”, resume, alertando para o desgaste de uma tarefa permanente. Rosário Soares, do Crucifixo, e Marinelma Oliveira, do Tramagal, partilham dificuldades semelhantes e defendem mais respostas que permitam aos cuidadores descansar e manter alguma normalidade na vida profissional, social e familiar.
O GAM de Abrantes é um dos 25 grupos actualmente ligados à Portugal AVC. O crescimento alcançado desde a sua criação está também reflectido no envolvimento no encontro nacional “10 anos juntos – Sobreviventes e Portugal AVC”.

Cuidadores substituem o Estado perante falhas no apoio após AVC

A Portugal AVC assinala dez anos de actividade e alerta que continuam a existir falhas no acesso rápido e continuado à reabilitação dos sobreviventes, além de uma forte sobrecarga dos cuidadores. “Há muitas queixas de falta destes cuidados de saúde, tão essenciais, do seu início tão precoce quanto possível, multidisciplinar, com continuidade e sem tempos pré-estabelecidos”, afirma António Conceição, presidente e fundador da Portugal AVC – União de Sobreviventes, Familiares e Amigos.
O responsável defende maior investimento na reabilitação, considerando que pode ser determinante para recuperar autonomia e favorecer a integração social e profissional dos sobreviventes. As falhas acabam também por atingir os cuidadores, que, segundo António Conceição, “tantas vezes ‘substituem’ o Estado, 24 horas por dia e sete dias por semana, quase sem nenhum auxílio”.
Em dez anos, a Portugal AVC realizou 20 encontros e conta actualmente com 25 Grupos de Ajuda Mútua (GAM), um dos quais ‘online’ para pessoas até aos 35 anos. A associação estima que pelo menos mil pessoas tenham frequentado estes grupos no último ano. “Os GAM podem ajudar a viver o após AVC”, afirma António Conceição, também ele sobrevivente, destacando a partilha, informação e combate ao isolamento. Dados da Direção-Geral da Saúde apontam para cerca de 25 mil internamentos anuais por AVC isquémico ou hemorrágico. Apesar da redução da mortalidade hospitalar e do maior acesso a tratamentos, a DGS mantém entre os desafios o reforço da reabilitação e da integração de cuidados.

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