“Quem fala em suicídio não está a chamar a atenção, mas a pedir ajuda”
Psiquiatra Manuel João Quartilho defende que o silêncio e o estigma continuam a dificultar a prevenção do suicídio e lembra que falar sobre o tema pode ajudar quem está em sofrimento a pedir ajuda. A propósito do Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, alerta para sinais que não devem ser desvalorizados e para a importância das relações familiares e comunitárias.
Professor aposentado da Faculdade de Medicina de Coimbra e assistente graduado de Psiquiatria, Manuel João Quartilho trabalha actualmente no sector privado e integra, em Torres Novas, o corpo clínico da Hope Clinic. O médico lembra que a verdadeira dimensão epidemiológica do suicídio não é conhecida e que há mortes subdeclaradas por razões sociais, culturais, religiosas e políticas. Também recusa a ideia de que o fenómeno possa ser explicado apenas pela doença mental. Depressão e abuso de álcool podem aumentar o risco, mas há que juntar factores como acontecimentos traumáticos, rejeição, isolamento, dificuldades económicas, perdas ou conflitos relacionais. Em Portugal, segundo dados da Organização Mundial de Saúde de 2021 citados pelo psiquiatra, há três vezes mais homens que se suicidam do que mulheres.
Falar publicamente sobre suicídio pode induzir ao acto? Falar publicamente sobre o suicídio deve obedecer a uma intenção pedagógica, com o objectivo de informar e esclarecer. Deve servir igualmente uma atitude preventiva. Falar de forma responsável sobre o suicídio nunca é a causa do suicídio. Os pais e os professores não aumentam o risco de suicídio quando falam com jovens sobre o tema. Pelo contrário, os jovens ficam em melhores condições para pedir ajuda, em caso de necessidade.
Existe ainda o receio de que perguntar directamente a alguém se está a pensar em suicídio possa “dar-lhe a ideia”. Podemos e devemos fazer essa pergunta? No contexto clínico, é frequente o médico perguntar ao doente se já lhe passaram “ideias ruins pela cabeça”. Não falar sobre o suicídio corresponde, aliás, a um mito. A pergunta mencionada deve ser considerada como uma oportunidade para a pessoa se sentir escutada, compreendida, com todas as possibilidades de auxílio que a sua situação reclama.
Quando uma pessoa começa a dizer frases como “já não aguento mais”, “sou um peso para os outros” ou “era melhor desaparecer”, como devemos interpretar essas palavras? Devemos levá-las a sério e mostrar uma atitude compassiva, com disponibilidade para escutar, avaliar a situação difícil em que a pessoa se encontra, tentando compreender as frases no respectivo contexto. Estas frases não se destinam a impressionar ou a manipular. São apelos, pedidos de ajuda dissimulados que devem ser levados a sério. Não devemos dar sermões nem criticar o seu comportamento. Não devemos desvalorizar os seus sentimentos. Não devemos argumentar, não devemos tentar resolver problemas, não devemos dizer à pessoa para “esquecer” e não devemos, finalmente, dar conselhos do tipo “isso passa” ou “vai espairecer a cabeça”.
O que é mais importante nesse primeiro momento: tentar encontrar soluções ou simplesmente ouvir a pessoa sem a julgar? Ouvir a pessoa sem a julgar. Compreender a pessoa e as suas circunstâncias, no pressuposto de que uma compreensão adequada é um passo importante no processo de ajuda.
Há casos mascarados, mortes por suicídio que acabam descritas como acidentes ou sem natureza específica? A verdadeira dimensão epidemiológica do suicídio não é conhecida. Uma vez que a morte por suicídio é ainda sujeita a estigma, subdeclarada por razões de natureza social, cultural, religiosa e política, existem muitas mortes de causa equívoca ou indeterminada. É o caso, por exemplo, da morte de condutores que têm acidentes por excesso de velocidade ou conduzem em contramão, das mortes por queda de alturas ou durante certas práticas autoeróticas.
“O suicídio ocorre mais frequentemente nos que estão socialmente isolados”
Aumentar a oferta de consultas de psiquiatria, psicologia e pedopsiquiatria no Serviço Nacional de Saúde devia ser uma prioridade? Para além dos factores de risco psiquiátricos, que exigem avaliação e acompanhamento adequados nos serviços de saúde mental, a prioridade deveria também incluir factores a montante, relacionados com a história biográfica, com o contexto familiar e social. Aumentar a oferta de consultas não é uma prioridade se descurarmos os contextos sociais que antecedem e promovem os comportamentos suicidários, na medida em que o suicídio é um claro exemplo de interacção entre factores individuais, sociais e culturais. O suicídio ocorre mais frequentemente nos que estão socialmente isolados e que não têm o apoio da família e dos amigos.
Acredita que muitas mortes no país podiam ser evitadas com intervenção precoce? Existem algumas intervenções preventivas, baseadas na evidência, que podem ser adoptadas a nível individual e das populações. A identificação precoce de pessoas em situação vulnerável, com depressão e/ou problemas relacionados com o álcool, possibilita as necessárias medidas de tratamento e prevenção. Os esforços preventivos, numa perspectiva mais geral, devem lidar com a complexidade do tema. Ou seja, implicam coordenação e colaboração entre múltiplos sectores da sociedade, para além do da saúde. Os professores, polícias, assistentes sociais, padres, cabeleireiros, funcionários da restauração ou outras pessoas que, no dia-a-dia das suas actividades profissionais, podem ter um contacto directo com pessoas em risco de suicídio, estão em condições de as identificar e, portanto, fazer a ponte para o seu encaminhamento e tratamento nos serviços de saúde. Estas pessoas são os porteiros sociais, porque podem abrir a porta à ajuda de que precisa a pessoa em risco.
Se alguém nos disser claramente que pensa em suicídio, quais devem ser os nossos primeiros passos? Conversar com a pessoa de forma compassiva e empática. Fazer perguntas abertas e não invasivas. Tentar ajudar através do diálogo. Falar sobre o suicídio reduz a ansiedade associada aos pensamentos autodestrutivos. Eventualmente, encaminhar a pessoa para um serviço de apoio especializado, na comunidade ou nas instituições de saúde.
“O suicídio nunca ocorre num vácuo social”
A solidão e o enfraquecimento das redes de apoio são particularmente importantes quando se olha para o suicídio entre a população mais velha. Manuel João Quartilho aponta os problemas económicos, o declínio da saúde, a morte do cônjuge e dos amigos, a saída dos filhos, a reforma e a perda progressiva de autonomia como factores que podem empobrecer as relações sociais e aumentar a vulnerabilidade emocional.
O afastamento da vida profissional significa também a perda de papéis sociais e as doenças e limitações físicas podem comprometer a independência no dia-a-dia. O psiquiatra fala num “empobrecimento emocional progressivo”, provocado pela solidão e pela ausência das relações que, ao longo da vida, ajudaram a construir a própria identidade.
O retrato do suicida em Portugal, formulado por Braz Saraiva e Sandra Neves (2024), refere o psiquiatra, inclui um homem com mais de 45 anos de idade, a viver no Alentejo e/ou na região Centro Interior, divorciado ou viúvo, socialmente isolado, desempregado ou reformado, com problemas financeiros e/ou baixo estatuto social, como sendo particularmente vulnerável. Mas, alerta, “não apenas as pessoas mais idosas podem estar em risco de suicídio. Existem profissões de risco, tanto pelo nível de stress associado como pelo acesso facilitado a meios letais, como polícias e militares ou a medicamentos, como profissionais de saúde”. Também as pessoas que tiveram conhecimento do suicídio de um conhecido, os jovens vítimas de bullying ou conflitos em torno da sua identidade sexual, bem como a população LGBTI encontram-se igualmente em situação vulnerável, conclui.


