Nas Mariotas a vindima continua a ser feita à mão e em família
Há memórias que regressam com o cheiro do mosto. Nas Mariotas, em Ribafria, Alenquer, uma pequena vinha continua a juntar irmãos e cunhados numa vindima feita à mão, entre cestos, histórias e um almoço que também faz parte da tradição.
O cheiro do mosto fica nas mãos. É doce, intenso, entranha-se na pele e parece resistir à água. Para quem cresceu entre vinhas, basta apertar um cacho de uvas para que regressem memórias de outros tempos, como as manhãs passadas entre cepas, o cansaço, a terra, as adegas e a mesa onde, depois de um dia inteiro de trabalho, se juntava a família. Nas Mariotas, em Ribafria, concelho de Alenquer, numa vinha que era conhecida como Vinha do Lúcio, a vindima ainda se faz à mão. Não há aqui grandes máquinas nem uma produção pensada à escala industrial. Há tesouras, cestos de vindima em plástico, cepas e uma família que todos os anos regressa ao mesmo pedaço de terra.
São cerca de sete mil metros quadrados, embora mais de metade da vinha já tenha sido arrancada. O que resta é suficiente para manter uma tradição familiar que começou há décadas e que, hoje, sobrevive sobretudo por gosto e por memória. Olga Lopes conhece aquelas cepas desde criança. O pai era carteiro, mas tinha a vinha que começou por explorar arrendada a um grande proprietário. Primeiro entregava um terço da produção. Depois do 25 de Abril de 1974 passou a pagar uma percentagem em dinheiro e, mais tarde, o proprietário propôs-lhe que ficasse com a vinha.
O carteiro passou então a dividir os dias entre a distribuição do correio e a terra. Nos tempos que lhe sobravam, trabalhava na vinha. Os filhos acompanhavam-no. Era assim que se aprendia. Sem manuais, sem horários especiais para ensinar. As crianças andavam por ali, corriam entre as cepas e, quando tinham idade para ajudar, começavam a fazer aquilo que fosse necessário. Durante algum tempo, as uvas eram entregues a quem tinha ficado com a produção. Depois surgiram as cooperativas agrícolas e o pai de Olga Lopes tornou-se sócio da cooperativa de Aldeia Galega da Merceana. Levava para lá as uvas, como tantos outros pequenos produtores de Alenquer.
Mais tarde, quando a cooperativa começou a atravessar dificuldades financeiras, a relação com a vinha mudou. Parte foi arrancada. Já não fazia sentido produzir tanta uva. O pai de Olga decidiu então fazer o próprio vinho. Improvisou um lagar, comprou um espremedor, depois uma prensa e um esmagador. Mais tarde vieram as cubas de inox. Tudo em pequena escala, mas suficientemente organizado para funcionar até aos dias de hoje. Chegou a vender vinho e a produção atingiu uma dimensão que obrigava a ser declarada e manifestada.
Vindimar é uma terapia
Depois da morte do pai, o trabalho deixou de ter a mesma dimensão e passou a ser, sobretudo, uma forma de manter a terra e reunir a família. “Passou a ser um hobby e uma descompressão”, diz Olga Lopes. Durante a pandemia, a família começou a encontrar-se na vinha aos sábados. Quando a vida estava confinada, tratar das uvas tornou-se uma possibilidade de estarem juntos ao ar livre.
Cláudia Inácio, cunhada de Olga, encontrou também naquele espaço uma forma de atravessar aqueles meses. É administrativa numa empresa da área das madeiras e vive em Torres Vedras. Na infância, ao contrário de Olga, não teve a mesma ligação às vindimas. Os avós maternos tinham vinhas, mas quando nasceu já essa tradição estava praticamente a desaparecer. Foi depois do casamento que aprendeu a vindimar. “É mesmo por gosto, porque efectivamente é uma tarefa árdua, difícil, mas vamos reunindo e vamos fazendo acontecer”, sublinha.
A vinha passou assim a ser um lugar de encontro familiar. Um trabalho duro, mas que permite estar juntos. Luís Inácio, irmão de Olga, militar da GNR, é de uma geração ligeiramente mais nova, mas em criança ajudava na vinha e, durante as férias escolares, chegou a trabalhar na vindima da cooperativa. A continuidade veio quase naturalmente. Agora ajuda a cuidar do terreno que foi do pai. A lógica é manter a vinha e a tradição enquanto for possível.
Duas canas dentro da tina
Durante o ano há trabalho para fazer na vinha. Parte é assegurada por José Gomes, marido de Olga Lopes, que utiliza um tractor pequeno para trabalhar a terra, fazer os tratamentos e manter o terreno. Há cepas para retirar, trabalhos de manutenção, coisas que não podem esperar pela vindima.
Mas é em Setembro, ou cada vez mais cedo, que a vinha chama a família, porque o calendário foi mudando. O calor antecipou as colheitas. “Está tudo muito quente. A uva muito queimada”, explica. O pai de José Gomes era agricultor e vinicultor e toda a vida esteve ligado à vinha. A vindima está sempre dependente do clima. Já houve anos em que as uvas eram apanhadas à chuva, com os pés enterrados na lama. Se faz sol, há o calor e a uva exposta.
No sábado em que O MIRANTE acompanhou a vindima, os trabalhos começaram por volta das 9h00. A área é pequena. O acesso ao terreno faz-se de jipe, tractor ou a pé. Olga, José, Cláudia e Lúcio trabalharam durante a manhã, almoçaram e regressaram ao final da tarde. Ainda havia uvas para apanhar.
Antigamente, quando o último cacho era apanhado, havia uma forma simples de anunciar que o trabalho terminara. Duas canas eram colocadas dentro da tina. Era o sinal de que a vindima estava concluída e de que a família podia ir comer. Naquela época, o dia começava e acabava na vinha. Hoje já não é possível manter esse ritmo. Cada pessoa tem a sua vida, o seu emprego, a sua casa. Mas o almoço do dia da vindima continua a ser uma parte importante da tradição.
Entre pequenas vinhas e grandes produtores
A família olha para a transformação da paisagem vitivinícola de Alenquer com a consciência de que aquela pequena vinha pertence a uma realidade que já não domina o território. Continuam a existir pequenas produções familiares. Pessoas que têm o seu pedaço de terra, que produzem vinho em pequena escala e que continuam a vindimar à mão. Mas a paisagem mudou. Os grandes produtores têm hoje vinhas maiores e mecanizadas. A produção é outra e o modelo também.
José Gomes diz à repórter de O MIRANTE que sente que os pequenos produtores são pouco representados na nova realidade. Reconhece a importância do festival Alma do Vinho na promoção da região, mas considera que existe uma realidade familiar que permanece pouco visível. As pequenas produções, reitera, ficam muitas vezes fora dessa imagem do vinho de Alenquer. Há também a questão do preço. Dá como exemplo um produtor vizinho, com uma vinha maior do que a da sua família, que consegue vender a uva a cerca de 30 cêntimos o quilo. “É o mesmo preço de há 30 anos atrás”, conta.
Na vinha da família, a venda não é o objectivo principal. O vinho que não conseguem beber é cedido a amigos. Há quem leve garrafões e a troca seja feita por qualquer coisa, muitas vezes um almoço ou um jantar. Não é um negócio. É uma forma de continuar e de relembrar a infância. É uma memória que regressa todos os anos, quando a vindima começa e as mãos voltam a ficar com o sumo da uva.
Cada um guarda uma parte da tradição. Olga e Luís regressam ao lugar onde cresceram. Cláudia vive uma tradição que não chegou a viver com os avós, mas que aprendeu depois. José mantém uma vinha que faz parte da história da família. E Ercília, apesar da idade já avançada, prepara o atum de barrica que chega à mesa depois de uma manhã entre as cepas, acompanhado pelo vinho produzido pela família. Porque enquanto houver vinha para vindimar e família para se sentar à mesa, a tradição está para continuar.
O atum de barrica de Ercília e a uvada
Quem prepara o tradicional atum de barrica para o almoço da vindima é Ercília da Conceição, 87 anos. O atum foi comprado em Torres Novas e chegou conservado em sal. Antes de ir para o tacho, explica Ercília, ficou de molho durante dois dias para perder o excesso de sal. Depois foi cortado em pedaços mais pequenos, retirou-se a pele e as escamas. Vai então para o tacho com água a ferver, batatas e folhas de couve-galega. A tradição é comer este prato uma vez por ano, no almoço da vindima. Antigamente fazia-se mais vezes, recorda a octagenária, até porque o atum era mais barato.
Há ainda outra tradição, que se repetiu este ano, que começa quando as uvas chegam à adega. É a uvada. Assim que as uvas são recolhidas e começam a ser espremidas para fazer vinho, retira-se uma parte do sumo antes de este entrar em fermentação. Esse sumo de uva é aproveitado para fazer um doce tradicional. A uvada leva sumo de uva e camoês bravo de Esmolfe, uma variedade de maçã que, segundo a família, é hoje cada vez mais difícil de encontrar.


