Sociedade | 06-10-2026 12:00

Da Serra de Aire ao Paul do Boquilobo há mulheres a guardar o território

Da Serra de Aire ao Paul do Boquilobo há mulheres a guardar o território
Guardiãs da Natureza juntam mulheres de diferentes territórios e áreas de actividade em torno da defesa e valorização do património natural - foto O MIRANTE

Verónica Paiva e Patrícia Silva estão ligadas ao Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros e à Reserva Natural do Paul do Boquilobo e fazem da defesa da natureza uma missão que vai além da conservação. Educação ambiental, empreendedorismo e ligação às comunidades são algumas das formas que encontraram para valorizar territórios que conhecem de perto.

Verónica Paiva criou o próprio emprego através da cosmética natural e Patrícia Silva regressa hoje com crianças ao Paul do Boquilobo, onde, ainda adolescente, começou a descobrir a educação ambiental. Percursos diferentes, unidos pela mesma convicção: não basta proteger a natureza, é preciso aproximar as pessoas dos territórios e mostrar-lhes o seu valor. As duas foram algumas das participantes no 4.º Encontro Nacional das Guardiãs da Natureza, realizado a 25 de Setembro, em Santarém, que reuniu dezenas de mulheres com projectos ligados à sustentabilidade, conservação e valorização do mundo rural. A rede conta actualmente com 675 guardiãs em diferentes pontos do país.
Verónica Paiva, 39 anos, bióloga e especialista em cosmética natural, está ligada ao território das Serras de Aire e Candeeiros. Em 2015 criou, em Alcanena, a BioVó, projecto que lhe permitiu criar o próprio emprego e que alia a produção artesanal de cosmética natural à formação e educação ambiental, privilegiando matérias-primas de origem vegetal e produtos portugueses. A empreendedora diz que encontrou nas Guardiãs da Natureza algo particularmente importante para quem constrói um pequeno negócio a partir do zero: uma rede de entreajuda. “É sempre bom estarmos em sintonia com a natureza e umas com as outras no que toca à protecção da biodiversidade”, afirma. As parcerias, formações e mentorias ajudaram a desenvolver o projecto e fizeram-na também regressar a uma das suas origens, a educação ambiental. Para Verónica, conhecer a natureza e conseguir transmiti-la aos outros faz parte da essência de uma Guardiã. Uma ideia que procura passar aos filhos e às crianças com quem trabalha: conhecer, experimentar e usufruir da natureza é também aprender a protegê-la.

“É a lei do retorno”
Patrícia Silva, 46 anos, integra a rede desde 2025 e divide a sua actividade entre o trabalho como técnica superior de biologia na Câmara de Torres Novas e o projecto Bioturismo, Património e Educação Ambiental. Aos fins-de-semana organiza caminhadas e visitas guiadas que ajudam a descobrir o património natural dos territórios. A relação com o Paul do Boquilobo começou muito antes da vida profissional. Entre os 14 e os 16 anos participou em projectos de educação ambiental naquela reserva natural, uma experiência que acabaria por influenciar a escolha da sua profissão. “Para mim, isto é a lei do retorno”, afirma, ao recordar que hoje leva crianças a conhecer o mesmo território que, na adolescência, a ajudou a descobrir a natureza. Ser Guardiã da Natureza representa para Patrícia um compromisso com esse percurso e com o território. “É um selo que eu trago comigo ao peito com muito orgulho”, diz, destacando o potencial de uma rede de mulheres espalhadas pelo país para provocar mudanças e contribuir para preservar e valorizar as áreas naturais.

Uma rede para aproximar pessoas e natureza
A troca de experiências é uma das forças apontadas pelas duas guardiãs. Patrícia destaca a comunicação permanente, os grupos e as parcerias criadas entre participantes. Verónica sublinha a importância de encontrar outras mulheres com projectos semelhantes e de poder partilhar conhecimentos, problemas e soluções. Essa experiência no terreno não as impede de apontar dificuldades. Verónica considera que o Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, pela dimensão e pelo número de concelhos abrangidos, necessita de uma ligação mais efectiva entre comunidades e entidades. Defende uma estrutura mais activa e uma articulação que não fique dependente das mudanças políticas nas autarquias. Patrícia vê como positivo o recente alargamento da área protegida e considera que a decisão já deveria ter sido tomada há mais tempo, embora alerte para problemas que continuam por resolver, entre os quais a poluição.
Com cerca de dez Guardiãs da Natureza ligadas ao Paul do Boquilobo e 16 às Serras de Aire e Candeeiros, os projectos e actividades são diferentes, mas há uma ideia que as une: um território protegido não se conserva apenas através de regras e limites num mapa. Conserva-se também fazendo com que as pessoas o conheçam, lhe reconheçam valor e tenham razões para cuidar dele.

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