Ota quer salvar Casa do Guarda antes que a serra perca parte da sua memória
Edifício que serviu de casa a guardas florestais na Serra da Ota está a deixar entrar água e precisa de uma intervenção estrutural que pode ultrapassar os 100 mil euros. Movimento Guarda à Casa, criado há três meses, tenta mobilizar população e angariar dinheiro para impedir que a degradação continue.
A Casa do Guarda, na Serra de Ota, está em risco de se perder se não for alvo de uma intervenção urgente. O telhado já deixa entrar água, há buracos no tecto e o soalho de madeira foi afectado pela humidade. Um grupo de habitantes da freguesia do concelho de Alenquer criou há cerca de três meses o movimento Guarda à Casa, com o propósito de angariar dinheiro para recuperar o edifício e mobilizar a comunidade em torno de um património que durante décadas esteve ligado aos guardas florestais da Serra de Ota. A junta de freguesia, proprietária do imóvel, já afectou 11 mil euros para a intervenção, verba respeitante à tempestade Kristin, mas os responsáveis estimam que a recuperação possa custar mais de 100 mil euros.
Foi precisamente o mau tempo do Inverno passado que provocou danos maiores na cobertura. Algumas telhas voaram ou partiram e a água passou a entrar directamente no edifício. “Chove como se fosse na rua dentro da casa”, descreve André Texugo, do projecto Guarda à Casa e presidente da Junta de Freguesia de Ota. A preocupação é que a degradação avance ainda mais durante o próximo Inverno. Antes da chegada das chuvas, a ideia é colocar lonas no telhado para impedir a entrada de água e evitar que a estrutura fique ainda mais danificada.
A recuperação que está em cima da mesa não será uma simples intervenção de conservação. Segundo André Texugo, será necessário substituir todo o telhado, reforçar a estrutura da casa, as fundações e os pilares e avaliar o sistema de drenagem. O soalho de madeira também terá de ser reparado depois dos danos provocados pela entrada de água.
Uma casa que nasceu pública
A Casa do Guarda pertenceu durante décadas ao Estado e foi construída para servir os guardas florestais responsáveis pela vigilância e gestão da área florestal. A construção data da década de 1920 e o edifício manteve-se em domínio público até meados de 2008. Quando o Estado manifestou a intenção de vender a propriedade, a população de Ota mobilizou-se para impedir que a casa deixasse de estar ligada à comunidade.
Os órgãos sociais da associação dos baldios, que gere o terreno envolvente à Casa do Guarda, constituíram a Associação de Compartes da Freguesia da Ota, que disponibilizou dinheiro para a aquisição do imóvel. Como não seria possível fazer directamente a doação da casa aos baldios, o edifício acabou por ser doado à Junta de Freguesia de Ota. O edifício chegou a ser vandalizado e foram arrancados fios e roubado cobre. Mais recentemente, a casa voltou a ter uma utilização inesperada ao servir de cenário à gravação de um videoclipe da banda do concelho de Vila Franca de Xira, Speedemon.
“Decidimos avançar a sério”
O movimento Guarda à Casa nasceu de uma conversa entre amigos. Nelson Mota conta que um grupo de amigos de Ota reúne-se há quatro ou cinco anos para um almoço na Serra, habitualmente no primeiro fim-de-semana de Junho. Este ano, ao encontrarem a Casa do Guarda num estado de degradação pior do que nos anos anteriores, a preocupação transformou-se numa ideia. Uma semana depois, os amigos tinham decidido avançar com um projecto para angariar fundos para a recuperação da casa. A iniciativa procura envolver habitantes da freguesia e do concelho.
Uma das formas encontradas para angariar fundos foi recorrer ao sistema Volta, através da recolha de garrafas de plástico. Foram colocados pontos de recolha na freguesia e um contentor de mil litros chegou a encher em poucos dias. A Associação Recreativa e Desportiva também está a colaborar, cedendo as garrafas provenientes do seu bar. Os elementos do movimento recolhem ainda garrafas junto de amigos e nos locais de trabalho e fazem posteriormente a sua entrega nas máquinas de devolução. De acordo com a página do projecto, a campanha já reuniu cerca de 1.449 euros em donativos. A verba da junta de freguesia, de 11 mil euros, surge à parte desse montante.
A utilização futura da Casa do Guarda ainda não está fechada. Os responsáveis têm várias ideias, mas consideram que discutir a função do edifício antes de travar a degradação seria colocar o problema na ordem errada. Nelson Mota admite possibilidades como a criação de um espaço de apoio ao campismo ou à Protecção Civil, mas também a integração da casa num projecto mais abrangente de valorização da Serra.
Memórias de quem conheceu os guardas
Para Nuno Mesquita, do movimento, a Casa do Guarda representa mais do que um edifício degradado. É também uma parte das memórias de infância. Por isso, este ano quando participou pela primeira vez no almoço-convívio que deu origem ao projecto, ficou particularmente sensibilizado com a situação da casa e quis ajudar.
Recorda-se de ir até ao local quando era criança e de ver um dos antigos guardas florestais, Duarte, que vivia na casa com a mulher. O antigo guarda tinha família no Bairro e entretanto já faleceu. Nuno Mesquita recorda também visitas que fazia ao espaço quando era pequeno, embora algumas dessas memórias sejam já pouco precisas. São estas histórias que o movimento pretende que não desapareçam juntamente com o edifício.


