Galardão Empresa do Ano: Portugal precisa de políticas que ajudem a defender as margens do Rio Tejo
Discurso de Joana Salgado Emídio, directora executiva de O MIRANTE, salientou a defesa do território, a importância da descentralização e da regionalização e o papel dos empresários na construção de uma sociedade mais justa.
A directora executiva de O MIRANTE abriu a cerimónia do Galardão Empresa do Ano, que decorre no Convento de S. Francisco, em Santarém, durante esta tarde de quinta-feira.
Joana Salgado Emídio falou sobre "capacidade de resistência, união em volta de objectivos de serviço público que é a edição do jornal, mas também de valorização de tecido empresarial da região do Ribatejo e das pessoas que fazem a diferença na nossa economia". Sobre a organização da iniciativa, que vai na 26ª edição, lembrou que tudo nasceu de uma conversa com José Eduardo Carvalho, actual presidente da AIP, na altura presidente da Nersant, que está sentado na primeira fila e é um dos convidados.
"Estamos a atravessar uma crise que afecta tudo e todos. A culpa não é nossa nem dos nossos governos. Mas em tempo de crise os mais fortes resistem com mais facilidade. Os nossos vizinhos espanhóis acabam de anunciar que vão para eleições antecipadas, mas nem por isso deixam de ter os bens essenciais para a economia muitos euros abaixo daquilo que é a nossa realidade. Apesar do tumulto entre regiões, coisa que nós não temos coragem de criar para descentralizar e para fazermos no mínimo a reforma administrativa do Estado, Espanha dá-nos lições de como baixar o Iva na gasolina e no gás; como evitar guerras nas reformas do ensino; e entre outros exemplos como apoiar, por exemplo, a comunicação social em que Espanha é um dos melhores exemplos do mundo.
Quem estiver agora a escrever a história dos nossos dias para um dia alguém ler como nós hoje lemos nos livros o que se passou há 100/200 500 anos em Portugal, vai deixar certamente muitos pontos de interrogação em capítulos como: as várias reformas do ensino, a imigração, as políticas públicas nos números clausus para formação de advogados e médicos, coisa tão diversa e difícil de compreender como ver um cavalo a imitar um toiro bravo" disse.
A quinta cidade a ler O MIRANTE, segundo os dados da Marktest, é Paris, cuja área metropolitana terá meio milhão de portugueses. Não é por acaso; O MIRANTE só tem notícias de proximidade, e abrangemos um território que faz fronteira com a capital onde se concentra quase metade da nossa população. É incompreensível por isso que não tenhamos maternidades suficientemente organizadas para que as crianças não nasçam nas ambulâncias. Que professores não sejam a classe mais estimada da função pública porque são eles que formam os homens que amanhã vão criar empresas, vão fundar partidos políticos, vão construir casas, enfim vão estar aqui no nosso lugar a dar continuidade aquilo que nos deram os nossos antepassados mais valorosos que souberam combater os de má raça, que ainda hoje existem, e sempre andarão por aí à espera de uma oportunidade para nos porem à prova" adiantou já a meio do discurso.
"Engana-se quem julga que esta minha intervenção é de desesperança. Espero que o Senhor secretário de Estado da Administração Local e Ordenamento do Território, Silvério Regalado, não leve para o seio do Governo más energias desta visita ao Convento de São Francisco. Estão aqui nesta cerimónia 17 presidentes de câmara e muitos outros autarcas. E a grande maioria dos nossos 300 convidados são gestores de empresas de sucesso, que embora sintam os problemas da falta da regionalização e concentração dos poderes nos gabinetes de Lisboa, não baixam os braços.
Aproveito a sua presença para lhe pedir o favor de levar este recado que recebi publicamente do presidente da câmara do Porto, que foi ministro do anterior Governo, que é do seu partido, e pede a regionalização para o país ter, por exemplo, comunicação social que não esteja toda concentrada em Lisboa. Escolhi este tema porque nos diz respeito, e também porque uma sociedade moderna com uma dúzia de televisões a marcarem a agenda diária, impingindo só desastres e tragédias, e a agenda dos membros do governo e da oposição, para o bem e para o mal, não forma um país progressista e uma sociedade feliz. Portugal precisa de políticas que ajudem a defender as margens do Rio Tejo, que com uma simples cheia dá cabo da vida de muita gente e arrasa as terras de cultivo, assim como precisa de formar mais médicos para que as maternidades funcionem, os empresários possam ter um IAPMEI ao seu serviço, funcionários públicos em todas as repartições para não sermos uns pobres coitados nas mãos dos políticos que acham que o 25 de Abril foi um pesadelo e não um sonho" salientou ainda.
Para acabar, precisamos mesmo é de valorizar a nossa autoestima, e já agora precisamos também de solidariedades para que o nosso território não se torne, mais tarde ou mais cedo, num alvo fácil para os empresários que acabaram com o Alentejo devido às práticas de agricultura intensiva, ou não acabemos como a Beira Baixa ou o nordeste transmontano onde os solos pobres já nem dão para alimentar o gado quanto mais a pouca população que ainda resiste. O Ribatejo ainda é uma joia da coroa e disso nos orgulhamos. Os nossos empresários são os principais responsáveis por termos um jornal que faz a diferença em termos nacionais, por ser o único regional que é exemplo nacional", salientou, a terminar.


