Sociedade | 10-10-2026 16:00

Há em Azambuja um transporte a pedido que encurta distâncias e combate o isolamento

Há em Azambuja um transporte a pedido que encurta distâncias e combate o isolamento
João Silva e José Abreu aproveitam a viagem do transporte a pedido para meter a conversa em dia - foto O MIRANTE

Vai Vem +65 leva gratuitamente os seniores da freguesia de Azambuja ao centro de saúde e a outros serviços essenciais. Ao volante seguem voluntários e, entre a porta de casa e o destino, o transporte acaba também por combater a solidão e criar relações de proximidade.

João Silva estava junto à porta do Centro de Saúde de Azambuja, acabado de sair de mais um tratamento, quando o carro da junta de freguesia chega para o levar a casa. José Abreu estaciona, sai ao seu encontro e recebe-o com um bom dia e um aperto de mão. Não há pressa nem formalidades, até porque se conhecem e sabem que os três quilómetros de viagem até Casais do Vale Espingardeiro vão servir para pôr a conversa em dia.
A distância pode parecer curta para quem tem carro à porta, mas pesa bastante na vida de quem depende de terceiros para se deslocar. É o caso de João, que tem 65 anos, não possui transporte próprio e precisa de ir ao centro de saúde três vezes por semana. Antes de descobrir o Vai Vem +65, um serviço gratuito da Junta de Freguesia de Azambuja destinado a pessoas com mais de 65 anos que têm dificuldades de transporte para se deslocarem entre os vários lugares da freguesia e a vila de Azambuja, pagava cinco euros para vir e outros cinco para regressar a casa depois da consulta.
“Basicamente andava a pagar um balúrdio em táxis”, diz o reformado que sofre de psoríase, diabetes, epilepsia e apneia do sono e necessita de cuidados regulares. “Assim não pago táxi. Ajuda muito”, refere, explicando que além de não ter transporte próprio para poder deslocar-se, a zona onde reside não é servida por transporte público.
Desde que usa o serviço que o motorista voluntário, José Abreu, se tornou um dos rostos que encontra do outro lado da viagem. Aposentado depois de meio século ligado à indústria farmacêutica, é um dos quatro voluntários que conduz a viatura da junta que presta este serviço. “Estamos cá para ajudar no que for preciso”, explica. Mas para José Abreu, conduzir é apenas uma parte da missão. Quando transporta alguém ao centro de saúde, além de esperar o tempo que for necessário, se a pessoa tiver dificuldades em entrar numa farmácia ou noutro serviço, faz questão de a acompanhar ou de ir apenas ele tratar do assunto. “A mim não me custa nada”, vinca.
Dentro do carro percebe-se que o Vai Vem +65 não funciona como uma corrida de táxi. João e José vão falando um com o outro, riem e fazem do percurso um momento de convívio. “É sempre assim, vimos sempre a conversar”, conta João com voz alegre, acrescentando que a relação se vai construindo entre viagens que parecem sempre curtas para os assuntos que vão surgindo.

Dificuldade no transporte sentida nas zonas mais isoladas
O projecto nasceu precisamente da dificuldade sentida por muitos seniores dos lugares da freguesia em chegar à vila de Azambuja, explica o presidente da junta, André Salema. “Era um problema que nos colocavam. Os filhos nem sempre vivem perto, os vizinhos não têm sempre disponibilidade e há quem fique dependente de terceiros até para uma deslocação básica ao centro de saúde”, diz, acrescentando que o objectivo é facilitar o acesso aos serviços essenciais e, ao mesmo tempo, “reduzir o isolamento social”.
A quarta-feira de manhã, entre as 09h00 e as 13h00, é o período definido para o funcionamento regular do serviço. As pessoas, contactam previamente a junta, que verifica a disponibilidade dos voluntários. Mas a resposta pode adaptar-se às necessidades. Inês Garrido, funcionária da autarquia, explica que, quando existe uma consulta ou tratamento marcado para outro dia, o transporte pode ser assegurado de segunda a sexta-feira, desde que haja disponibilidade.
E a importância dessa flexibilidade sente-se sobretudo fora da vila, nos vários lugares da freguesia onde o transporte público não chega com facilidade e outras soluções existentes obrigam à deslocação até paragens pré-definidas. Até porque, sublinha, para algumas pessoas, sobretudo com dificuldades de mobilidade, chegar à paragem pode ser já parte do problema. “No Vai Vem +65, o percurso começa à porta de casa”, destaca.
A Junta de Azambuja gostaria de ver mais pessoas a utilizar o serviço e está a empenhar-se nisso porque, reconhece o presidente, André Salema, chegar à população idosa que vive mais isolada não é tarefa fácil. A divulgação através da revista da freguesia aumentou os pedidos, mas continua, segundo o autarca, a existir a convicção de que há moradores nos vários casais que poderiam beneficiar do projecto e ainda desconhecem que o transporte existe.
Os motoristas do projecto integram o Banco Local de Voluntariado, estrutura gerida pela Câmara de Azambuja, e estão abrangidos por seguro e por regras próprias para o exercício da função. O contacto regular com os passageiros permite ainda detectar situações de maior fragilidade, nota André Salema. “Se durante uma viagem um voluntário perceber que existe um problema social ou uma situação de risco, essa informação pode ser transmitida para a rede de apoio”, diz.

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