Não se deve esperar por sintomas para começar a cuidar do coração
Hipertensão, colesterol elevado, diabetes e outras doenças cardiovasculares podem evoluir durante anos sem sintomas. Isabel Monteiro, cardiologista no Hospital CUF Santarém, alerta para os diagnósticos tardios e para a tendência de desvalorizar sinais como cansaço ou falta de ar. A propósito do Dia Mundial do Coração, a médica defende uma prevenção que comece antes de aparecerem queixas.
“Muitas doenças desenvolvem-se silenciosamente”, alerta Isabel Monteiro, coordenadora do serviço de cardiologia do Hospital da CUF Santarém, lembrando que as doenças cardiovasculares, entre as quais os enfartes e os acidentes vasculares cerebrais (AVC), continuam a liderar as causas de mortalidade em Portugal. Uma parte significativa destes casos pode, no entanto, ser evitada através da prevenção e do diagnóstico atempado. Na prática clínica, a médica acompanha sobretudo pessoas com hipertensão arterial, colesterol elevado, doença coronária, alterações do ritmo cardíaco e insuficiência cardíaca, embora note uma procura crescente por avaliações preventivas antes de existir doença conhecida, permitindo identificar riscos e actuar mais cedo.
Os diagnósticos tardios continuam, ainda assim, a ser frequentes, sobretudo porque problemas como a hipertensão arterial e o colesterol elevado podem evoluir sem expor sintomas. A ausência de sinais junta-se à desvalorização de queixas que podem justificar avaliação médica. Isabel Monteiro alerta para “uma tendência perigosa para normalizar o cansaço ou a falta de ar, atribuindo-os à idade, ao stress ou à falta de forma física”, uma atitude que pode atrasar a identificação de problemas cardiovasculares.
No Ribatejo, Isabel Monteiro encontra frequentemente uma combinação de hipertensão, excesso de peso, diabetes, colesterol elevado e apneia do sono. Uma alimentação com excesso de sal e calorias e um estilo de vida sedentário ajudam a explicar parte deste perfil. Apesar de haver hoje maior procura de informação, a dificuldade continua a estar na mudança dos comportamentos. “O Dia Mundial do Coração [que se assinala a 29 de Setembro] ajuda precisamente a transformar informação em comportamentos”, refere a cardiologista.
Cansaço e falta de ar não devem ser normalizados
Pressão, aperto, peso ou dor no centro do peito, sobretudo quando surgem com esforço e são acompanhados de falta de ar, suores frios, náuseas ou tonturas, exigem uma resposta rápida. Mas há outros sintomas menos evidentes que também devem merecer atenção, como falta de ar em esforços que antes eram bem tolerados, cansaço inexplicável, diminuição da capacidade de esforço, inchaço das pernas, tonturas ou palpitações. “Nem sempre significam doença cardíaca, mas devem ser avaliados quando são novos, persistentes ou estão a agravar-se”, alerta.
No caso das mulheres, sublinha, podem apresentar sinais menos típicos de enfarte. Enquanto nos homens é mais frequente a clássica dor no peito, nas mulheres podem surgir náuseas, dor nas costas ou no maxilar, fadiga ou falta de ar extrema. A doença cardiovascular continua a ser a principal causa de morte nas mulheres, mas a cardiologista considera que existe ainda menor percepção desse risco.
A prevenção passa por não fumar, fazer actividade física, ter uma alimentação equilibrada e conhecer valores como tensão arterial, glicemia e colesterol. A partir dos 35 anos, estes indicadores devem ser verificados regularmente mesmo em pessoas sem sintomas. Quando os valores são normais, a avaliação pode ser repetida pelo menos de cinco em cinco anos. Quem tem história familiar relevante, obesidade, tabagismo, diabetes ou outros factores de risco deve começar a ser avaliado mais cedo e com maior frequência.
A tecnologia, nota a cardiologista, também está a mudar a prevenção e o tratamento. “A evolução tem sido extraordinária”. Novos medicamentos usados na diabetes e obesidade permitem reduzir o risco cardiovascular e a inteligência artificial começa a ajudar na leitura de exames e na identificação de pessoas com maior probabilidade de sofrer um evento cardíaco.
Para a cardiologista, um dos erros mais comuns continua a ser a falsa segurança provocada pela ausência de queixas. Outro erro é interromper a medicação quando os valores melhoram ou quando a pessoa se sente bem, quando muitas vezes isso acontece precisamente porque o tratamento está a resultar. “Não devemos esperar por sintomas para começar a cuidar dele. Cuidar do coração não exige ser perfeito todos os dias, exige apenas que sejamos consistentes”, conclui.
Factores de risco surgem cada vez mais cedo
Hipertensão arterial, colesterol elevado, diabetes, tabagismo, excesso de peso, alimentação desequilibrada, sedentarismo e apneia do sono estão entre os principais factores de risco modificáveis. A idade e o histórico familiar não podem ser alterados, mas ajudam a identificar quem necessita de maior vigilância.
Entre os mais jovens começam também a surgir cada vez mais casos de hipertensão, excesso de peso, diabetes e hábitos tabágicos. O tempo excessivo passado entre sofá e ecrãs é outra preocupação quando substitui o sono, a actividade física e as actividades ao ar livre.
A Sociedade Europeia de Cardiologia recomenda entre 150 e 300 minutos de actividade física moderada por semana. Caminhar regularmente e reduzir o tempo passado sentado são medidas simples com impacto na prevenção. No caso do consumo de álcool, a mensagem também é clara: a ideia de que um copo de vinho faz bem ao coração está ultrapassada, pois quanto menor for o consumo, menor é o risco.


