Último capítulo da Tecnotrónica de Samora Correia foi escrito em leilão
Uma intempérie que praticamente paralisou a fábrica, a pandemia e a quebra da procura na indústria automóvel estiveram na origem da insolvência da Tecnotrónica. A empresa chegou ao fim com 47 credores, cerca de três milhões de euros de passivo e 28 trabalhadores. O MIRANTE acompanhou o leilão dos activos, realizado dentro da própria fábrica, onde o imóvel recebeu uma oferta de 1,35 milhões de euros.
O cenário ainda era o de uma fábrica, mas no seu interior restam apenas testemunhos que pertencem ao passado. Na nave industrial da Tecnotrónica, situada na Zona Industrial da Murteira, em Samora Correia, foram alinhadas cadeiras, instalada aparelhagem de som e montada uma mesa para dirigir o leilão de venda do património da empresa. À frente, um projector mostrava a fotografia de cada lote, os valores e as ofertas que iam sendo apresentadas.
Não mais do que três a quatro dezenas de pessoas acompanharam o processo. Algumas sentaram-se, outras preferiram ficar de pé. Nas mãos dos interessados estavam as raquetes que permitiam entrar nas licitações. A cada lote, quem dirigia o leilão fazia um compasso de espera antes de encerrar a disputa: “um, dois, dois e meio”. À terceira, uma pequena pancada de martelo marcava o fim da licitação. Foi assim que, máquina a máquina, equipamento a equipamento, se entrou na fase final de uma empresa com 48 anos de actividade.
O administrador judicial, Luís de Carvalho, explicou a O MIRANTE que Chico Mendes, com mais de 90 anos e uma vida ligada à empresa, não quis assistir a um momento emocionalmente difícil. Mesmo para a restante família acompanhar o leilão estava fora de questão.
Nas próprias instalações permaneciam sinais de outra época. Um antigo painel de apresentação da Tecnotrónica, escrito em francês, refere que a empresa foi fundada em 1978 por “Mr. Mendes” e descreve uma unidade dedicada à produção de pequenas peças estampadas de precisão, tratamentos superficiais e térmicos e concepção e construção de máquinas para diferentes indústrias.
Ninguém quis comprar a unidade industrial completa
O leilão admitia três possibilidades. A primeira consistia na venda conjunta da unidade industrial, imóvel e bens móveis, por um valor base de 2,267 milhões de euros. Desse total, 1,660 milhões correspondiam ao imóvel e 607 mil euros aos bens móveis. Não apareceu qualquer interessado pela totalidade. Avançou-se então para a venda por partes. Primeiro o imóvel, depois a possibilidade de alienar conjuntamente os restantes bens móveis e, caso também não surgisse interessado, a venda lote a lote.
Foi em torno do imóvel que se viveu um dos momentos de maior expectativa. O armazém industrial tinha um valor base de 1,660 milhões de euros, mas ninguém avançou por esse montante. Abriu-se então um registo de oferta a partir de um milhão de euros.
A raquete número 30 apresentou o primeiro milhão. Seguiram-se várias propostas. A disputa terminou com um registo de oferta de 1,35 milhões de euros, 310 mil euros abaixo do valor base do imóvel. O MIRANTE apurou que a proposta foi apresentada por uma imobiliária da zona de Lisboa, cujo objectivo passa por voltar a colocar o armazém no mercado.
Treze lotes ficaram sem interessados
O leilão prosseguiu depois pelos equipamentos e restantes bens da fábrica. Sucederam-se máquinas, ferramentas e outros activos. Muitos bens receberam registos de oferta abaixo dos respectivos valores base. Outros suscitaram licitações entre vários interessados. Houve ainda equipamentos que passaram pelo projector sem que qualquer raquete se levantasse. No final dessa fase ficaram 13 lotes de 117 por vender.
Segundo Luís de Carvalho, foram obtidas propostas no valor global de cerca de 1,6 milhões de euros. O administrador judicial admite que esperava uma valorização superior dos activos, mas “o mercado vive um período de muita indecisão”, afirmou a O MIRANTE, acrescentando que tem encontrado comportamento semelhante noutros processos. “As pessoas estão retraídas face ao actual contexto económico”, justifica.
A empresa chegou ao processo de insolvência com 47 credores reconhecidos e um passivo na ordem dos três milhões de euros. O principal credor é o Banco Comercial Português (BCP), com cerca de 1,2 milhões de euros. Segundo Luís de Carvalho, a Tecnotrónica não deixou qualquer dívida ao Estado.
Intempérie praticamente paralisou fábrica e começou aí o declínio
O colapso da Tecnotrónica não aconteceu de um momento para o outro. Segundo documentação do processo de insolvência facultada a O MIRANTE, um dos primeiros grandes golpes ocorreu no final de 2020, quando uma intempérie atingiu a unidade industrial e praticamente paralisou toda a produção. A empresa foi obrigada a realizar um investimento significativo para conseguir reactivar a fábrica.
Seguiram-se os efeitos da pandemia de Covid-19, que agravaram as dificuldades de tesouraria e os problemas de cobrança junto dos clientes. A situação foi ainda afectada pela evolução da indústria automóvel europeia, um sector ao qual a actividade da Tecnotrónica estava fortemente ligada. O relatório do administrador judicial aponta a crescente pressão da concorrência asiática e a diferença nos custos de produção como factores que conduziram a uma forte redução da procura e atingiram directamente a carteira de clientes da empresa.
A Tecnotrónica produzia componentes metálicos para diferentes utilizações industriais, entre as quais electrónica automóvel, sistemas de iluminação interior, contactos para buzinas e airbags e componentes destinados a botões e painéis de controlo. A empresa possuía também oficina própria para manutenção de ferramentas, equipamentos de estampagem de diferentes capacidades e linhas destinadas a tratamentos superficiais e térmicos. Um antigo painel da empresa refere ainda, numa determinada fase da sua história, uma área de trabalho de cerca de 2.500 metros quadrados e 30 trabalhadores.
Em 2025, quando as dificuldades já se faziam sentir, a administração tentou encontrar novos mercados. Durante o segundo semestre desse ano, responsáveis da Tecnotrónica deslocaram-se a várias feiras e outros eventos internacionais para procurar novas encomendas e clientes. Os esforços não tiveram, contudo, resultados suficientes para garantir a continuidade da actividade. Perante a convicção de que a situação do sector não melhoraria a curto ou médio prazo, a administração decidiu não agravar ainda mais o passivo e apresentar a empresa à insolvência. O relatório refere uma decisão tomada ao fim de 48 anos de laboração.
À data da insolvência, a Tecnotrónica – Indústrias e Comércio de Componentes, S.A. tinha sede no Loteamento Industrial da Murteira, em Samora Correia, e um capital realizado de 277.777,78 euros. O conselho de administração era presidido por Pedro Policarpo Nunes Mendes e integrava ainda Pedro Nuno Pereira Chico Mendes e Nuno Alexandre Pereira Chico Mendes.
28 trabalhadores foram para o desemprego
Quando cessou a actividade, a Tecnotrónica tinha 28 trabalhadores. Os salários encontravam-se regularizados, à excepção dos 16 dias trabalhados em Março de 2026. Os antigos funcionários encontram-se já a receber subsídio de desemprego e reclamaram no processo de insolvência os respectivos créditos, nomeadamente as indemnizações por antiguidade.
O encerramento ocorreu a 16 de Março de 2026, quando o administrador judicial se deslocou às instalações e, em articulação com a administração, procedeu ao fim da actividade e ao despedimento dos trabalhadores. Desde então, as instalações têm permanecido sob vigilância e foram retirados sucata e resíduos industriais tóxicos para reciclagem.


