Sociedade | 13-10-2026 15:00

Andar de cadeira de rodas em Vila Franca de Xira é uma actividade de risco

Andar de cadeira de rodas em Vila Franca de Xira é uma actividade de risco
Paula Sequeira, da Mithós, mostrou vários locais em VFX onde é desafiante e até impossível andar de cadeira de rodas - foto O MIRANTE

Quem tem de andar de cadeira de rodas arrisca a vida todos os dias na estrada por ter passeios ocupados com automóveis ou barreiras que impedem a passagem. No âmbito das comemorações da Semana da Mobilidade, a junta de freguesia da cidade, em parceria com a Esquadra da PSP de VFX e a associação Mithós, levou a cabo uma acção de sensibilização para as dificuldades sentidas diariamente por quem tem incapacidade.

A mobilidade na cidade de Vila Franca de Xira melhorou bastante na última década mas ainda nem tudo são rosas e há locais da cidade onde quem anda de cadeira de rodas não consegue circular no passeio, apenas na estrada, fintando e fugindo dos automóveis que passam, nem sempre a baixas velocidades.
A zona central da cidade melhorou e há acessibilidade para todos, com passadeiras com rampas, passeios libertos de obstáculos e semáforos com sinalização visual e sonora. Mas na zona alta da cidade e nos dois maiores bairros - Povos e Bom Retiro - a história é bem diferente.
“Infelizmente, nas zonas mais afastadas do centro, ainda não está tudo acessível e há muitos rebaixamentos de passeios por fazer. E para piorar, muitos automobilistas continuam a achar que o passeio é um bom sítio para parar e ocupar”, critica Paula Sequeira, presidente da Mithós - Histórias Exemplares. No âmbito das comemorações da Semana da Mobilidade, a Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira em parceria com a 90.ª Esquadra da PSP de VFX e a Mithós, levou a cabo uma iniciativa de sensibilização para o problema com duas turmas do 4.º ano da Escola EB Álvaro Guerra, que multaram com multas de brincar os condutores estacionados em cima dos passeios. A viagem permitiu perceber as dificuldades de quem anda de cadeira de rodas na cidade. “Não conseguimos ir a muitos pontos da cidade e em muitos sítios ainda temos de andar no meio da estrada. Há muitos locais onde não consigo andar num passeio e isso assusta”, admite Paula Sequeira.

Ir à farmácia e ser atendida na rua
Quem também tem lutado por melhores acessibilidades na cidade é Varvara Berdianu, que usa uma cadeira de rodas eléctrica e vive no bairro de Povos há seis anos. Natural da Moldávia, nasceu com artrogripose múltipla congénita e chegou a Portugal há 16 anos. É uma pessoa activa na luta pela inclusão e pela defesa dos direitos das pessoas com deficiência, promovendo uma sociedade mais acessível e com equidade para todos.
Desde Outubro de 2025, diz, a Câmara de Vila Franca de Xira decidiu elevar várias passadeiras em Povos, com o objectivo de reduzir o excesso de velocidade. “No entanto, em todas as passadeiras elevadas foi deixado um desnível entre a passadeira e o passeio, à excepção de uma zona de entrada e saída de viaturas. Esses desníveis tornam a travessia extremamente difícil e perigosa para pessoas com mobilidade reduzida. Ou até impossível”, lamenta a O MIRANTE.
A moradora já apresentou quatro reclamações à câmara para que o problema fosse corrigido mas continua por resolver. “Devido às diferentes dimensões das rodas da minha cadeira, não consigo transpor estes buracos em segurança, o que coloca a minha integridade física e a minha vida em risco sempre que preciso de atravessar a estrada”, lamenta.
Ao nosso jornal lamenta também as dificuldades para fazer em Povos algo tão simples como ir a uma farmácia. “Tenho de esperar na estrada, porque não consigo subir o passeio, que alguém passe para poder pedir ajuda e depois sou atendida na rua. Faça chuva ou sol. As pessoas deviam passar um dia em cadeira de rodas para perceberem como é estar na nossa situação. Precisamos de maior sensibilização para este problema”, apela.
Outra das dificuldades é o acesso a locais públicos, como as estações de comboio, que são o pior exemplo do concelho. “Os elevadores estão quase sempre avariados e não temos alternativas. Infelizmente na cidade, à excepção de algumas zonas, ainda colocamos a nossa vida em risco sempre que precisamos de sair de casa”, lamenta.

Varvara Berdianu - foto O MIRANTE

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